BEDA / Scenarium / Velho E Sorriso – Parte II

Velho estava acostumado a dormir pouco. Ainda que em dias de baile voltasse às 5h, às 8h se punha de pé. Não encontrou Sorriso. Gato pedia para sair para o jardim e foi atendido. Ao abrir a porta, viu Sorriso passando pelo portão com leite, frios e pãezinhos nas mãos. Ao vê-lo, sorriu.

– Bom dia, Velho! Não tinha quase nada, a não ser café. Fiz umas comprinhas.

– Bom dia, Sorriso! Não precisava… Nos últimos tempos, estou habituado a tomar apenas café, pela manhã.

– Também não estou acostumada… Vamos mudar um pouco. Tome um café da manhã completo, comigo, por mim, tá?

Sorriso, ao verbalizar seu pensamento, percebeu então sua ousadia. E se o que estivesse pedindo fosse demais? Será que ele a considerava tanto quanto imaginou?

– Se fosse fazer algo por alguém, seria por você, Sorriso… e pelo Gato, claro…

Seu rosto se iluminou no sorriso mais aberto. Entraram.

Se era uma coisa que Sorriso sabia fazer era café. Desde bem pequena, aprendeu a preparar a bebida para sua mãe. Em casa, mesmo cansada da noite do trabalho pelas esquinas do Centrão, encontrava prazer nesse cuidado de filha. Ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas, bastava Helena tomar a sua dose encorpada de café para se sentir torporizada. Dormia a manhã toda, enquanto Sorriso cuidava dos três irmãos. Sorriso acabou por ficar só quando dois deles morreram de parada respiratória por uso de cola e o terceiro sumiu sem deixar vestígios, todos antes dos dez anos. Sucessivamente, como praga dos deuses, Helena caiu gravemente enferma e morreu. Ainda antes mesmo de completar doze, já oferecia o corpo em troca de subsistência. Seu Zé, dono do cortiço onde morava – que ela via como uma espécie de pai – teve essa ideia para pagar o aluguel. Foi o primeiro a usá-la. Depois, passou a oferecê-la para outros homens. Fugiu. Vez ou outra, algum homem solitário a chamava para morar um tempo consigo. Ficava o tempo até perceber que se tornara uma empregada mal paga: de cama, mesa e limpeza, além dos eventuais espancamentos. Nunca quis ser uma “típica dona de casa”.

Desta vez, foi Sorriso que tomou a iniciativa de ficar com Velho. Percebeu que tinha uma imensa ternura por aquele homem experiente e triste. Queria cuidar dele, se assim permitisse. Alternativa que pareceu ser aceita quando, após o cheiroso café da manhã, Velho disse para Sorriso ficar à vontade e permanecer o tempo que quisesse. Completou que não impediria que ela continuasse o seu trabalho, se assim desejasse. Pela primeira vez, Sorriso desejou que alguém demonstrasse certo sentimento de posse por si…

Com o correr dos dias, semanas, meses, a relação dos dois se transformou em algo bem mais rico do que apenas uma mescla de simpatia e ternura que sempre existiu. E foi essa situação que os dois filhos de Velho – Júlio e Juliano – encontraram quando foram visitá-lo: um casal feliz. Aquela conjuntura os pegou desprevenidos. Mais uma vez, estavam decididos em convencer o pai a deixar a casa e ir para um asilo. Logo a vista do jardim redivivo, com flores novas a brotar nos canteiros, os deixaram desconcertados. Era como se Dona Nina estivesse esperando com suco, café e bolo. A saudade aumentou ao sentirem os mesmos aromas ao chegarem à porta.

Velho não havia lhes alertado sobre a nova situação quando avisaram que iriam encontrá-lo. Entretanto, preveniu Sorriso sobre como eles se comportariam. Experiente no trato com as pessoas, promotor e relações públicas durante cinco décadas, conhecia a natureza humana. Nada e ninguém o surpreendia. Suspeitando da insistência dos filhos em tirá-lo da casa na qual cresceram e onde ele viveu os últimos sessenta anos, procurou se informar e soube que aquela área estava cada vez mais valorizada e o terreno que abrigava a sua residência valia muito dinheiro. Era disso que se tratava. Nada de desvelo ou preocupação com o velho pai, ainda que se enganassem mutuamente que assim fosse. Nada de desejar o melhor para aquele que os sustentou, educou e se esforçou para que chegassem à faculdade. Apenas interesse econômico. Ele valia mais morto do que vivo. Já vira isso acontecer durante seu trabalho com o pessoal da terceira idade. Tornou-se confidente de muitos velhos – homens e mulheres.

– Como vai, papai? – perguntou o mais velho, Júlio, que aliás carregava o nome do pai.

– Bem! Como pode perceber…

Realmente, Velho parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Continuou:

– Eu apresento a vocês, Sorriso, minha companheira…

Literalmente, com os queixos caídos, os Jota-Jota, como eram conhecidos, gaguejaram coisas como “pensamos que se tratasse de uma empregada ou cuidadora”; “o senhor nunca foi disso, se envolver com uma garotinha”; “deve ser uma aproveitadora, de olho em sua grana”…

Sorriso fez que não ouviu e mostrou porque carregava aquela alcunha. Disse de maneira bastante suave e até alegre:

– Fiz bolo de cenoura, café e suco. Por que não se sentam?

Como se tivesse lhes dirigido impropérios, os filhos de Velho começaram a gritar:

– Que é isso? Você não é Mamãe! Quem pensa que é? Putinha!

Velho apenas se dirigiu à porta e pediu que saíssem, com o coração apertado, intuindo que os filhos, para atingi-lo, impediriam que visitasse os netos.

– Isso não vai ficar assim, Velho! Vamos interditá-lo!

Quando saíram, Velho desabou no sofá e quase agradeceu por sua Nina não estar viva para presenciar aquela cena. Sorriso se sentou em seu colo e o abraçou afetuosamente.

O encontro com os filhos se deu no início de 2020. Ainda que doloroso, não quebrou a feliz rotina do casal. Velho e Sorriso, meses antes haviam se tornado assíduos frequentadores dos salões da noite paulistana. Velho reviveu as suas melhores noites. Para Sorriso, que com ele aprendeu seus primeiros passos de dança de salão, se descortinou uma vida que sequer imaginara. Em meados de Março, os bailes de casais começaram a ser cancelados com a chegada do novo corona vírus, com a promessa da progressão da Covid-19. Para evitar o seu avanço, a Quarentena foi instaurada. Não era difícil para o casal ficar em casa, com Gato a lhes acompanhar. Quem pudesse vê-los ocasionalmente, logo identificaria a cumplicidade natural daqueles que se amam.

No início de Abril, Velho começou a se sentir cansado e a tossir um pouco. Logo, percebeu que não estava nada bem. Disse a Sorriso que não queria ir para o hospital, nem que avisasse aos filhos. E pediu a ela que o deixasse sozinho para que não se infectasse com a doença que sentia progredir rapidamente. Sorriso o olhou dentro dos olhos, como gostava de fazer para ali encontrar o brilho do homem gentil e amoroso. Percebeu que estavam um tanto embaçados. Disse:

– Eu nunca mais sairei do seu lado…

Velho sorriu um sorriso de velho que era. Sorriso se deu conta que o estava perdendo. Tomou uma decisão, cujo desfecho só foi conhecido dias depois. Gato, que miava incessantemente no jardim frontal, pedindo para entrar, chamou a atenção dos vizinhos que passavam. Ao se aproximarem, sentiram um forte cheiro vindo de dentro da residência. Chamaram os bombeiros, que arrombaram a porta. Encontraram uma jovem de vinte anos e um senhor de oitenta, abraçados na cama de casal. Mortos. Um leve odor de gás evidenciou a causa dos óbitos.

Ao saírem com os corpos, os soldados passaram por Gato, assentado na cômoda da ante sala. Sonolento e indestrutível.

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Velho E Sorriso – Parte I

O velho homem, entre tantos no salão de baile, não era percebido. Não mais. Antigo promotor de eventos, ainda sorri quando é reconhecido por poucos saudosos de seus bailes. Na maior parte do tempo, observa aos dançarinos, a dançar com os olhos em lugar dos pés cansados. Quase sempre, é um dos últimos a deixar o espaço como se ele mesmo se esvaziasse.

Num desses dias, madrugada alta, a caminhar para casa, o Velho passou mais uma vez pela mocinha sorridente. Costumeiramente, naquela área, ela se oferecia como a alegria passageira de homens e mulheres que pagassem 20, 10 Reais, durante anos-noites seguidas. Por vezes, sumia por semanas outras. Apesar do sorriso fácil, quase um cacoete, como se fosse um cachorro que abanasse o rabo entre as pernas por medo de ser atacado, Sorriso se abria em lábios de forma sincera para o velho. Em troca, recebia sempre um sonoro “boa noite” ainda que a manhã ameaçasse surgir.

Naquela madrugada, ocorreu algo diferente. Velho parou diante da moça que, surpresa, estancou em sorriso-esgar.

– Como vai você?” – ele perguntou.

Desacostumada a falar, a não ser para oferecer serviços e valores, pareceu não entender. Percebeu que a pergunta não havia sido mera formalidade.  Respondeu sinceramente:

– Hoje, não estou bem, Velho… – Ao se ouvir, Sorriso parou de sorrir, denunciando seus olhos tristes.

– Faturou pouco?

– Nem tanto…noite de muitos solitários…

– Quer amainar a solidão de mais um? Mas não quero entrar nesse cubículo escuro. Moro a uma quadra daqui. Sozinho. Gostaria de me acompanhar?

Sorriso não estava habituada a ser bem tratada. Via a Velho, como era conhecido por todos, sair acompanhado cada vez com menos gente ao seu lado. Ultimamente, ninguém. Aceitou o convite. Os dois caminharam sem mais nenhuma palavra. No entanto, pareciam conversar a cada olhar evidenciado pela luz artificial. Velho morava em uma casa baixa, uma das mais antigas da região, quase toda tomada por novas torres de moradia.

Passado o portão, o jardim escuro escondia o roseiral que sobrevivia apesar de não ter mais os cuidados de D. Nina, falecida há três anos. Os dois filhos, desde então, pressionavam pai viúvo a sair de casa para um retiro, já que viviam em apartamentos que não suportariam a presença de mais um, ainda que ele não tivesse problemas de saúde aparentes; ainda que fosse um avô amoroso. Em contrapartida, era pouco visitado.

Restou como único companheiro o gato angorá, tão antigo quanto alguns dos móveis da casa. Portento de resistência e pelos, postado sobre a cômoda que ficava no corredor de entrada, Gato foi a primeira coisa que Sorriso viu ao avançar com seus passos tímidos casa adentro. O miado quase inaudível foi acompanhado do olhar sonolento. Confirmada a presença de seu velho cuidador, Gato fechou os olhos de brilho preguiçoso.

Sorriso tinha diante de si uma casa ampla e de opressora solidão. Tudo cheirava a cortinado e mobiliário antigo. Velho disse para que Sorriso ficasse à vontade. Indicou o banheiro caso quisesse usá-lo e a cozinha, se estivesse com fome. Sorriso já não sabia quando estava com fome. O estômago, porém, o sentia continuamente vazio. Disfarçava com uma pedrinha de vez em quando ou, com sorte, um pó. Não gostava de maconha, por causa da larica. Após lavar as mãos, foi ver o que poderia encontrar na cozinha. Com pão amanhecido e queijo branco um tanto amarelado, fez um sanduíche simples. Perguntou se Velho gostaria que preparasse alguma coisa. Respondeu que poderia ser o mesmo que o dela. Para incrementar, ela esquentou o pão na frigideira e ao queijo acrescentou um tomate perdido na geladeira. Disfarçou a velhice do queijo com orégano e o serviu com a última lata de cerveja.

Aquela ação enterneceu o coração de Velho. O preparo do lanche simples o fez viajar para anos antes, quando Nina ainda conseguia erguer os braços e caminhar. As dores reumáticas começaram a impedir que pudesse fazer o mínimo esforço sem muito sofrimento. Desgostosa em não poder mais servir ao seu companheiro de meio século, definhou até falecer. Quando aconteceu, os filhos não estavam presentes, em férias, o que deixou Velho bastante abatido. Desejou acompanhá-la na viagem sem volta e só não o fez pelo compromisso assumido: cuidar de Gato.

Após o lanche, Sorriso perguntou o que ele queria que fizesse. Velho, franco e jovial, sorriu. Por um instante, ela chegou a vislumbrar o jovem que o velho um dia foi através da luz do tempo emanada de sua boca. Disse que queria que Sorriso tirasse a roupa e se deitasse ao seu lado. Acrescentou o convite para que dormisse ali, naquela noite.

– Atrapalha o seu trabalho?

– Não! Já estou no final do expediente. Há muito tempo, ninguém me espera!

– Ótimo! Não precisa acontecer nada. Estou cansado. Mas também vou tirar a roupa.

Ato contínuo, começou a despir-se do elegante terno preto de anos, mas bastante preservado. Deitou-se logo após. Sorriso pousou uma das pernas sobre o corpo de Velho e, se sentindo realmente segura e confortável, dormiu quase imediatamente.

Velho, comovido, fechou os olhos. Com a pele jovem a lhe tocar pernas e púbis, inesperadamente, teve uma ereção. Sentiu-se homem de novo. Adormeceu.

Beda Scenarium

 

BEDA / Separação

dry rose flower next to broken heart shaped cookie

Eu me separei…
Deixei casa – paredes, nas quais lembranças pendiam paralisadas…
Portas, por onde muitas vezes passei com desejo de amar e que,
em tantas outras ocasiões, tive urgência de sair,
com vontade de nunca mais voltar…
Janelas, pelas quais divisei paisagens, movimentos, sol, chuva, vento –
protegido das intempéries e dos olhares alheios…
Naquela casa me sentia acolhido ou albergado,
a depender dos olhares, dos humores, dos tons e frissons…

Eu me separei…
Deixei aqueles braços que acolhiam e afastavam,
que imperavam e hesitavam,
que mentiam avidez enquanto aceitavam as minhas obrigações…
Amor ainda existe, ainda nos queremos, queremos amar…
Porém, não quero que, de legado delicado,
tudo se transforme em prisão, a vermos nossas pernas atreladas a grilhões…

Eu me separei…
Mas sei que nunca serei independente do que recebi como patrimônio –
memória de paixão, cumplicidade, comunhão, vivência de amorosa divisão…
Ao perceber que o nosso amor está ameaçado de ser auto fagocitado,
não posso permitir que a incapacidade de ser menos para ser mais
devaste a nossa união…
Amor, por amor, hoje me separei…

 

Beda Scenarium

O Capítulo Perfeito

Alice
Criatura & criadora

“… “quantos anos são necessários para se sentir velho?”

Janeiro, normalmente chuvoso e abafado, é um mês que na minha área de atuação, as atividades diminuem. Época propícia para realizar tarefas postergadas em outros dias que se amontoaram no calendário como se tivessem formado um lapso no espaço-tempo. Se não fosse pela imposição necessária pela organização das tarefas marcadas a ferro, fogo e escrita, mal saberia dizer o que fiz no ano que passou.

Este Janeiro tem me saído um pouco mais penoso devido a uma persistente dor nas costas pela hérnia de disco. Há três anos não faço exercícios resistidos e a saudade das dores gostosas provocadas pelas atividades físicas tem sido repetidamente adiadas por questões alheias a minha vontade. Além disso, minha mente parece estar em recesso, como se tivesse cercada por uma espessa parede branca.

Para o WordPress, tenho reeditado textos antigos, antes apresentados no Facebook ou não lançados na Rede. Um assunto atual ou outro me instiga a comentá-lo. Porém, alguns textos de anos ganham atualidade porque percebo claramente que repetimos muitos erros e reeditamos poucos acertos em nosso cotidiano preguiçoso de criatividade. Estranho mesmo é vermos suceder “novas” vetustas, de décadas que já deviam ter sido superadas.

Hoje, ao ler um capítulo de “Alice”, de Lunna Guedes, chorei em pleno vagão do Metrô que me conduzia ao Paraíso. Por algumas estações, estive em Teodoro, cidade fictícia criada pela autora. Nos capítulos anteriores, nos é apresentada a personagem que nomeia o livro. Nós a descobrimos ferida por dentro e por fora, assustada e fechada em si, sem saber exatamente o que ocorreu. Na página 83, Lunna, sem revelar exatamente os motivos de sua dor, nos faz intuir (pelo menos àqueles que já conhecem tantas casos-situações parecidas) o drama que se desenrola em sua vida-alma.

Foi difícil conter uma lágrima traiçoeira que insistiu em descer pelo rosto barbado-antigo. Lembrei de todas as mulheres que vivenciaram as mesmas vicissitudes, próximas e distantes, mas unidas no mesmo processo de desintegração da personalidade até se tornarem tão aplainadas que poderiam ser confundidas com qualquer pano de chão. Puído. Lembrei de minha mãe que, no entanto, um dia soube dar um basta.

Um dia desses de limpeza da casa – papéis antigos, lixos eletrônicos, objetos descaminhados de suas utilidades – encontrei uma carta ditada por Dona Madalena que eu mesmo havia passado para o papel. Por algum motivo, não lembrava dela. Na carta, minha mãe faz uma prestação de contas ao meu pai e pede uma ajuda para entregar o nome dele limpo, já que ela havia solicitado, em pleno setenta anos, o divórcio, que foi adjetivado pelo Sr. Ortega como “uma punhalada nas costas”, depois de trinta anos de separação de fato. Durante todo esse tempo, ele manteve um relacionamento estável com outra mulher.

“Alice”, o livro, está apenas no meio do caminho percorrido por mim. A vida dela agora me pertence, no melhor sentido que há – com liberdade de ser. Eu a leio, me identifico, sinto necessidade de lhe dizer palavras que lhe bafejem ares de amor. Com certeza, as repudiaria, acostumada que está, a esta altura da história, com a mão pesada das bofetadas – ilações que faço agora.

Ao encontrar a autora hoje, a parabenizei por criar-reproduzir uma Alice que poderia ser tantas. Fazer uma resenha de um capítulo apenas parece estranho, mas esse que termina na página 93 me surgiu perfeito. Resume uma vida inteira em suas linhas. Proclama o desamor e faz inspirar amor, cuidado, atenção aos pormenores e ao sentido de ser-estar-ir-partir. Continuarei com Alice em mãos e, agora, no coração. Vou cuidar dela com todo o desvelo, sabendo que vivi em sua casa antes que soubesse que lhe pertencia.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Por Onde Andei…

“Por onde andei
Enquanto você me procurava?
E o que eu te dei?
Foi muito pouco ou quase nada…” (Nando Reis)

6O6-20-1

Ano viçoso, de novo que é, em seu sexto amanhecer – Dia de Reis – me fez querer falar por onde andei nestes últimos tempos. Lembro que era comum iniciarmos o ano letivo com redações a discorrer sobre o que havíamos feito durante as férias. Naqueles anos, restávamos rememorar eventuais idas às casas dos tios ou descidas à Praia Grande, onde minha avó paterna tinha uma casa. Nessas viagens rumo à praia, comecei a desenvolver um relacionamento íntimo com o mar. Mesmo que, por algumas horas, em intervalo de trabalho em Caraguatatuba, no último dia de 2019, tive um encontro com as águas salgadas do tempo. Mergulhei em mim…

6O6-20-2

Passei o Natal com os familiares da Tânia, em Arrozal, Distrito de Piraí-RJ. Desde que comecei a visitá-la, mudou bastante – ampliou o número de residências e moradores – mas não deixou de apresentar características de Interior – pessoas que se cumprimentam na rua, mesmo sem se conhecerem, casario antigo e movimento muito menor do que em qualquer bairro paulistano. No entanto está cada vez mais tornando-se uma extensão do Rio e seus problemas. Ainda resta quem adorne seus jardins de flores e luzes, observáveis através de muros baixos.

6O6-20-3

Fiz uma caminhada por Arrozal, a revisitar pontos que não via há três anos. Busquei novos ângulos, tentando encontrar referências perdidas na memória do lugar, como se buscasse seu espírito antigo. A cada lugar, me ausentava do presente e tateava as paredes desbotadas para ouvir histórias que me contavam. Passei frente ao portal da Igreja de São João Baptista e, respeitosamente não entrei com os sapatos sujos de meus preconceitos e descrença. Apenas apontei a câmera do celular para registrar a simplicidade do altar. Quando fui postar a foto, divisei a presença de uma fiel, nos bancos à esquerda. A nave, aparentemente vazia, estava plena da verdadeira comunhão de quem crê e ora…

6O6-20-4

No segundo dia de caminhada, logo cedo, tive a companhia de um jovem cachorro que se juntou a mim quando passei pela praça central. Não era por minha causa, mas pela Bethânia. Vim a descobrir que, mesmo castrada, ela ainda pode liberar o odor que atrai os machos da sua espécie para o acasalamento. Ela estava irritada com o assédio. E o tipo não ousava se aproximar tanto, não apenas por mim, mas também pela rejeição da donzela. Em uma das ruas, me detive uns dez minutos. Observei um belo cavalo que se alimentava do capim do terreno baldio. Ao me aproximar do gradil, Pi (o chamei assim devido ao símbolo que carregava no corpo) também se aproximou de mim. Não demonstrou medo e aceitou meus afagos em sua majestosa cabeça. Em tempo, eu não monto. Certa ocasião, tirei uma foto em cima de um cavalo manso, no qual as crianças subiam como se fosse o meu antigo cavalo de vassoura dos tempos pueris de cowboy. Depois do registro, logo que pude, desapeei. Terminada a troca de olhares e palavras mudas com Pi, voltei à praça, na tentativa de me livrar do acompanhante indesejado. Deu certo. Ao perceber que estava em um lugar com cheiros familiares, ficou a observar por um tempo nos afastarmos, como a decidir se deveria correr atrás de seu amor de verão ou não. Voltou o dorso e se foi.

6O6-20-5

No último domingo de 2019, fomos, Tânia, Romy, Niff (um amigo) e eu, ao Bar Estadão, típico ponto culinário da cidade. Aberto 24 horas por dia, serve ao povo paulistano desde 1968, com movimento assíduo de boêmios, músicos e trabalhadores da noite e do dia – de empresários a empregados, em ambiente democrático. Estacionamos o carro em uma rua próxima e caminhamos através de uma feira livre em pleno Centrão. Estava no final do expediente. A turma da xepa se fazia presente, assim como os que estavam simplesmente atrasados. A aparente discrepância entre as tradicionais barracas de frutas e legumes e o fundo recortado por espigões, apenas acrescentava charme à esta cidade que amo. Mais tarde, subi à Paulista, fechada ao trânsito de carros. As pessoas, fora de seus veículos, carregavam os mesmos erros de bom comportamento na fluidez dos seres. Muitos desconhecem o Princípio da Impenetrabilidade, amparada na chamada Lei de Newton, que ensina que “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo”.

6O6-20-6

Em minhas idas e vindas por estradas e caminhos, meu olhar passeia pelos cenários de forma mais rápida que os meus sentimentos possam objetivar. Porém, em suma, percebo crescer em mim um êxtase quase religioso pela Natureza. De horizontes a perder de vista a flores que me perfumam a imaginação; dos pássaros que voam livres na matas e montanhas, aos seres que pisam e rastejam na terra úmida ou dos que evoluem em rios e mares – tudo e todos merecem a minha reverência de coadjuvante que sou em uma jornada na qual estamos todos imersos. Que em 2020, possamos fazer crescer a consciência de unicidade e respeito à vida em todos os seus níveis. Sentimento crescente, principalmente quando parece que há grande interesse em crestar o chão e poluir as águas do planeta.

 

Também andaram por aí…

Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Mariana Gouveia — Lunna Guedes