BEDA / Viver Em Sampa

Moro na Periferia. Numa avenida perto de casa há uma grande árvore — uma seringueira — que toma conta de vários metros quadrados junto a um gradeado que cerca o Piscinão Guaraú. Ao passar por ela ontem, percebi que alguém utilizou de de alguns materiais como lona, madeira, cordas, panos e outros que não consegui identificar para fazer uma instalação feito uma casa na árvore. Toda criança sonha em construir uma casa na árvore, se isolar dos adultos para estabelecer um território livre. Neste caso, foi a necessidade (mãe da invenções) de dormir em segurança, longe de possíveis agressões que estimulou quem a ergueu.

Na Avenida Cásper Líbero, uma das mais importantes do Centro da cidade, durante muitos anos se destacou de forma negativa a presença de um edifício invadido em péssimo estado de conservação. Essa foto eu tirei em 2009. Atualmente, depois de ser amplamente reformado, o prédio está sendo ocupado por moradores em boas condições de estadia. Passo por ele de vez em quando e abençoo o fato de que aquela área tenha essa condição de ocupação. Afinal, a cidade tem que ver o Centrão revalorizado.

Sobre a imagem acima, o ator e escritor Manogon comentou:

“Das janelas turvas a visão distorcida de um mundo cão, esperanças perdidas nas penumbras de um vão. Pelas paredes sujas, tintas envelhecidas e já sem vestígios de cor, escorriam até o aroma azedo que exalava do boteco do seu Lindo (Arlindo de nome, mas que pelo contraste e antagonismo entre forma e nome, era zombeteiramente chamado apenas de Lindo). No acabamento do prédio, que já se encontrava em quase ruínas, descia junto ao esgoto, entre águas fétidas, gordurosas e boas doses de merda, os sonhos e anseios de moradores sem rostos, sem nomes, sem destino certo, muitos sem hora pra sair pro trabalho, outros sem trabalho pra sair a qualquer hora, alguns sem se dar o trabalho de saber hora pra voltar o que poderia ter um nome de casa. Janelas turvas. Luzes amarelas. Janela quebrada. Luzes vermelhas intermitentes. Um corpo no chão. A tinta vermelha escorrendo pela valeta, misturando-se à água fétida, indo embora com toda aquela merda.”

Manogon

28 / 05 / 2025 / Cidade-Paraíso*

A “mancha” mais clara entre os prédios (sem conotação pejorativa) é Paraisópolis. Já fiz um evento junto à esse conglomerado de casas sem acabamento e me impressionou o fato de que ao lado da “entrada” da comunidade estava sendo terminado um muro alto que cercaria um condomínio de alto padrão recém construído. São as contradições desta cidade a ser constantemente decifrada.

*2015

25 / 01 / 2025 / A Invenção De São Paulo

Hoje, a cidade de São Paulo “faz” 471 anos de existência oficial. A palavra “cidade” é uma invenção ocidental para designar um grupo de edificações com funções específicas — moradia, administração, escola, segurança, prisão, local ocupados pelos de insurgentes às leis que regem o grupo de pessoas que residem nessa delimitação nomeada geralmente em homenagem à alguma figura pública importante. No caso de “nossa” cidade, o nome é de um discípulo e formulador de conceitos em torno da crença em Jesus Cristo como filho de Deus, criador da Terra e da Humanidade, além dos outros animais “para servi-la”.

Quando chegaram ao Planalto Paulista (nomenclatura europeia), os Jesuítas liderados pelo português Manoel da Nobrega com a ajuda do espanhol José de Anchieta, encontraram nos Tupiniquins, liderados pelo Cacique Tibiriçá, aliados que os auxiliaram na construção do local que se tonaria a escola destinada a ensinar aos originais da terra a revelação de uma entidade que estipulou dez mandamentos básicos que, caso não fossem seguidos, os condenariam à uma eternidade de suplícios, ainda que se apresentasse como um protetor amoroso.

Ontem, um dia antes de aniversariar, parte da cidade entre Oeste e Norte sofreu uma chuvarada que inundou os vales onde normalmente se assentam os rios, normalmente canalizados. É uma situação cíclica que com o advento da crise climática tem se tornado cada vez mais violenta, com consequências funestas com prejuízos materiais e vítimas humanas. Esta cidade que se localiza entre a Serra do Mar e a da Cantareira é uma área hiper “vascularizada” por rios, riachos, afluentes dos rios importantes como o Tietê, o Tamanduateí e o Pinheiros, bastante poluídos.

Enquanto dirigirmos as nossas forças em sentido contrário à Natureza, tanto São Paulo quanto outros conglomerados humanos estarão presos em armadilhas que em momentos extremos mata e que se mostra ineficiente para uma vivência digna durante os outros períodos, de “equilíbrio”. Que ainda assim, não deixa de apresentar oscilações negativas no trânsito de veículos, na convivência entre as pessoas, no desequilíbrio social, na falta de políticas públicas que contemplem a maioria desistida da população.

Entre a invasão de Pindorama por povos vindos de longe e o atual estágio de desenvolvimento humano, cinco séculos se passaram. Cada ano é um capítulo nessa odisseia que é vivermos num lugar que amamos e odiamos, vamos sobrevivendo na expectativa de não sermos atacados em cada esquina, de respirarmos um ar menos pesado de toxinas, em viabilizarmos que os seus habitantes se sintam mais seguros e menos doentes pelo ritmo enlouquecido de vida.

Foto: imagem realizada na Marginal do Tietê, ao amanhecer. Ciclistas se aventuram entre os carros e caminhões.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Paleta Urbana

Originalmente, paleta designa a peça de madeira ou louça, geralmente oval, com um orifício para enfiar o polegar, onde os pintores põem e misturam as tintas. Mas com o tempo, devido ao fato de haver sobreposições de tintas, passou a designar justamente gradações de cores percebidos em objetos, paisagens, pinturas e ideias que, convenhamos, são tão variadas e díspares que observamos que há pensamentos que vão da escuridão à luz plena.

A luz é o diferencial para expressar as cores de múltiplas formas. Nossos olhos a percebemos e a interpretamos a depender do que vivenciamos, ou seja, a maneira de olhar. Muitos de nós estão mais abertos à percepção da paleta que se nos apresenta a todo instante. Basta buscar com interesse especial, para além de vermos, para enxergarmos o inusitado, o diferente, mas não apenas. Porque contemplar o óbvio nem sempre é tão fácil.

Caminhando por aí, um olhada lateral e lá está algo que destoa do cinza imperante. Este registro foi feito numa área da região central de São Paulo, entre construções mais antigas e mais recentes, mas que não deixam de ter pelo menos trinta anos de construção. Uma surpresa bem vinda mais ou menos próximo ao Ponto Zero da cidade.

Há momentos em que o meu olhar viaja carregando a mim à bordo. Luz e Sombra se misturam a formas que podem não significar nada, a não ser fruição artística. Aqui, é como se o Sol e a Lua estivessem do lado de fora da janela contribuindo para que a imagem se revele como delírio.

Queria muito que São Paulo fosse conhecida como a cidade dos grafites. As diversas linguagens artísticas nesse campo trazem sempre expressões que vão do alucinação ao realismo. O que não significa que possa brincar com o entorno para criar algo novo.

Esta cruz fica na região de Guarulhos, cidade ao lado da região norte de São Paulo. A paleta que apresenta é simbólica. Fica em frente a uma igreja, do lado de um teatro onde trabalhei em alguns eventos. Fiquei bem impressionado não apenas pelo Teatro Padre Bento, mas pelo antigo estádio e as instalações do antigo hospital construído para tratar os hansenianos. O teatro foi construído pelos próprios internos e inaugurado em 1936, no bairro Gopoúva. Já o Hospital Padre Bento, de 1931, foi um sanatório referência no tratamento da hanseníase (conhecida na época como lepra). O modo escolhido para tratar os hansenianos foi a internação compulsória, oficializada por meio de medida decretada em 1933 por Getúlio Vargas. Os pacientes eram obrigados a ficar em lugares como o Padre Bento, construídos especialmente para abrigá-los. Passaram a serem liberados de locais como esse a partir da década de 1960. A simples adoção de um medicamento, a Poliquimioterapia (PQT) passou a curar a hanseníase, interrompendo a transmissão e prevenindo deformidades. Atualmente, está disponível gratuitamente em todos os postos, centros de saúde e unidades de saúde da família.

Esta imagem eu colhi perto de casa. É uma vista lateral de uma imensa árvore que pertence ao Piscinão Guaraú, onde ficava uma antiga plantação de hortaliças do sítio de japoneses, responsáveis por vários negócios na região. Havia também uma olaria e um lago, que recebia as águas de riachos que formavam a bacia do Guaraú, que desagua no Tietê. A paleta em gradações em verde é um refresco para os meus olhos todas as vezes que volto do centro cinzento.

Esse registro é tão aleatório que nem me lembro quando ou onde o fiz. Apenas gosto dele. São reflexos produzidos ao acaso pela passagem da luz filtrada por uma janela, porta ou algum objeto pendurado ou posicionado numa mesa. Não me lembro. Mas aí está porque foi produzido num local onde moram pessoas, na cidade que moro. Urbaníssima.

Participam>

Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Roseli Pedroso – Cláudia Leonardi

BEDA / Voo Emprestado*

Você me chamou e não a ouvi
Estava absorto na faina cotidiana
Navegava pelos rios de asfalto da cidade
Percorria os túneis de fuga terra adentro
Para fora de mim mesmo
Sempre apartado do meu corpo

O que poderia ser um sinal de independência
Não se cumpria
Pois os pensamentos arquitetados
Por outras mentes
Eram absorvidos pelos meus olhos
Invadiam o meu cérebro
E eram caminhados por minhas pernas
Se incorporando à minha rotina
Como se meus fossem através do poder de intervir
Consumado pela arquitetura citadina
Realizada pelos planejadores do ir e vir

Estava partindo para um lugar certo
Porém não pensava nisso
Mesmo querendo parecer borboleta
Ainda que formada e liberta
Voltava para o meu casulo
Que me atraía
Como tal, as minhas asas voavam um voo curto
Mais decorativas do que eficientes
E termino sendo um simples humano ser
Fingindo um próprio querer…

Foto por JESHOOTS.com em Pexels.com

Poema de 2019*, participante do BEDA: Blog Every Day August

Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Bob F / Lunna Guedes / Suzana Martins / Cláudia Leonardi / Denise Gals