BEDA / O Mais Longo Dos Meses

Hoje se inicia o mês mais longo dos meses. Nomeado em homenagem ao Imperador romano Octavio Augusto, foi introduzido em sua homenagem. Antes disso, se chamava Sextilis, já que era o sexto mês do calendário. Enfim, não é apenas atualmente que os mandatários interferem na vida do povo causando alterações no seu cotidiano com decisões que afetam a sua rotina referencial.

De qualquer forma, deveríamos estar vivendo o Inverno, mas há sinais da Primavera se fazendo presente com florzinhas se antecipando aos frutos que gerarão. logo mais. Em meu jardim, há um casal de Bem-Te-Vis glutões para os quais deixo pedaços de frutas e um Sabiá atrevido que rouba ração dos meus cachorros. Com o advento do El Niño, teremos cada vez vez mais intercorrências extremas no Clima, globalmente. A Europa passa por um momento terrível, com altas temperaturas e incêndios extensos em reservas florestais na França e Espanha.

Agosto tem certa má fama que vem do passado. Em uma rima que serve a Língua Portuguesa, ficou conhecido como o Mês do desgosto. O conceito de azar vem das antigas viagens de navio na Europa e em Portugal, onde muitos homens morriam no mar e deixavam suas mulheres viúvas, fazendo o povo evitar casamentos em nesse mês. Que seja um mês menos pesado, mas as pessoas parece não terem certeza que isso não ocorra. É um mês caro a mim, já que foi quando comecei namorar a minha esposa e o mês no qual nasceu a minha primeira filha.

BEDA / Profissão: Brasileiro

Em Agosto de 2011, eu usei esta imagem acima, extraída de um grafite realizado num muro da minha região, como foto de perfil. Justifiquei desta forma: “Imagem de nossa identidade pública, por autor anônimo. Cá, para mim, a chamo de “Brasileiro, uma profissão”. Completei: “Usamos fantasias, jogamos jogos de azar, acendemos velas para falsos deuses, rimos sarcasticamente da nossa “má sorte” e empunhamos a bandeira nacional como um estandarte de guerra!”

Talvez eu já sentisse no ar a guerra surda nos bastidores do poder ou constatasse cabalmente que agíamos contra nós mesmos desde os lares mais simples até os mais glamourizados numa espécie de autossabotagem de nosso destino futuro — hoje. Industrialmente, pelejamos para derrubarmos as nossas melhores chances de melhorar a nossa qualidade de vida como um todo. Quem chegou ao patamar desejável de estabilidade parece ir contra quem queira alcançar esse status, como se não tivesse lugar para todos. Fruto do egoísmo, talvez, é uma opção burra em rumo ao nosso subdesenvolvimento permanente. E que foi transformado em projeto ideológico por parte da população.

Enquanto existem ilhas de bem-estar em vários setores sociais, há aquelas frequentemente açoitadas por tempestades e furacões. Não apenas no sentido figurado, mas igualmente literal, graças ao desequilíbrio ambiental, para qual estou atento há 50 anos, desde o começo da minha adolescência, com a produção de textos pessoais e redações escolares em que insistia mostrar a opção tenebrosa de trabalharmos contra a Natureza. É como se o fato de sermos “brasileiros” — atividade de extração do pau-brasil — se configurasse em um destino irreversível. Atualmente, já liquidamos com 1/3 da nossa cobertura vegetal original. Como fumantes inveterados, estamos queimando o nosso pulmão, a Amazônia. Ao mesmo tempo que reduzimos a cobertura aquática do Pantanal a 4% de antes (!).

Enquanto certos setores produtivos vinculados à produção de comodities jogam contra o patrimônio universal dos ricos biomas, respiramos um ar pior, seco e poluído. Vivemos um clima instável, em que somos impedidos de nos locomovermos por causa das enchentes. Isso, quando não perdemos a vida, simplesmente. Enfim, construímos o paraíso da barbárie na Terra. No chão e fora das cercas que impedem (aparentemente) que os moradores de condomínios sejam afetados, vivendo fora da realidade da maioria. Mas quando se aventuram fora da proteção ilusória, muitos acabam vítimas da violência por causa de suas próprias escolhas na manutenção do elitismo segregacionista, ainda que supostamente inconscientes.

Nunca fui tão pessimista num futuro incerto quanto à sanidade de nossa sociedade. Ainda que muitos de nós procuremos agir de maneira diferente, somos afetados pela produção avassaladora de um modelo de vida que nos levará à catástrofe. Só os loucos de pedra, sobreviverão…

Clima*

visão do final de tarde
crepúsculo escavado em fogo…
duas horas depois noite feita
o clima mudou chuva se abateu
zona norte atingida
clima — palavra
que termina com o artigo “a” —
substantivo masculino
humor feminino…
indeterminado terrível exuberante.

*Baseado em texto de 2019

#Blogvember / O Tempo

meu kairós em transcendência vida e morte (Obdulio Nuñes Ortega)

Saturno ou Cronos, na mitologia grega, devora um dos seus filhos, é uma alegoria da passagem inexorável do Tempo.

Por mais que especulemos sobre a sua natureza física, mecânica, para o comum dos homens o Tempo não existe fora da nossa percepção no final das contas. E dá-lhe fazer contas de mais e de menos para mensurar o quanto vivemos, a estabelecer tabelas com as quais programamos as nossas agendas de encontros e desencontros, trabalho, vacância, lazer, nascer, permanecer e morrer. Efemérides que falham em designar a qualidade do momento que vivemos, o minuto que passa ou Kairós.

Ontem, me reuni com pessoas que se moveram para estar juntas de vários pontos da cidade. Fizemos algo que quase nunca tenho a disponibilidade para fazer: conversar. Falamos sobre assuntos sérios, outros nem tanto. Discutimos sobre o clima, as chuvas, as secas – de territórios e de mentes – o frio e o aquecimento. Este é um mundo que está morrendo. Já ouvi dizer que os entendidos em mudanças climatológicos calculam que em três anos, veremos caravanas de pessoas se movendo para as áreas menos inóspitas em termos climáticos. Projetaram que a continuação do processo que ora se desenvolve resultará, em 2050, em várias faixas das áreas junto aos Oceanos inundadas, engrossando os números dos refugiados do clima. Questão de Tempo.

É triste perceber que as minhas visões juvenis de cataclismas mundiais esteja perto de se realizar. Eu sempre fui muito imaginativo, mas não era isso que gostaria que as minhas filhas venham a vivenciar num futuro próximo. Os meus textos de garoto amante de escritores de ficção científica – Julio Verne, Isaac Asimov, H.G.Wells, Jack Finney – primavam pela revolta da Natureza frente ao continuado ataque dos seres humanos. Eu me tornei abstêmio de carne buscando minimizar os efeitos de minha presença como típico predador pertencente ao topo da cadeia alimentar por isso, também. Não são poucas as vezes que penso em voltar a essa fase que durou dez anos. Não resolverá a questão, mas talvez diminua a minha culpa…

Previsões se baseiam na soma de sequência de fatos passados com a repetição de fatos presentes, resultando em consequências práticas. A experiência da Humanidade na Terra me induz a imaginar que no atual andamento dos eventos, chegaremos a um colapso global em menos tempo do que se esperava. O atual sistema de produção que desenvolvemos ao longo dos séculos, empreendeu um aceleramento que está precipitando em descontrole sistemático. É como se víssemos Cronos devorando os seus filhos. Não terei condições de experimentar o meu Kairós em transcendência de vida, mas sim de morte…

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes

O Reverso*

O reverso da medalha…

O outro lado da moeda…

O tempo que retorna…

O Clima que responde…

Aos efeitos reiterados

Dos delirantes

E alienados!

A Terra gira se transforma!

Mas mantém a lei constante

De que tudo é inconstante

Incluindo o Homem

Que sobre ela pisa…

Volto no Tempo transmudo

A noite em dia

Trago o Sol

Para mais perto da chuva

De ontem

Mais longe da água que verterá

Amanhã

Festejo o interregno

Que hoje faz descansar

A cidade de pedra…

*Poema publicado em 2015