16 / 11 / 2025 / Blogvember / Cada Vez Perdendo Mais Cor

como se chovesse em nossas lentes
plúmbeos nossos olhares se entristecem
cada vez menos cor
talvez refletindo cada vez maior dor
maior pendor para o sofrimento
cada vez menos luz
como se fossem toldada por voos de milhões de urubus
de asas abertas
sem vazamento de raios solares a vida encoberta
porque vivemos tempos nublados de furacões
tufões
e bufões
que deixam nossa existência acinzentada
empalidecidas nacaradas sem azuis
vermelhos
verdes
cores
como posso deixar de ver-tes?

Participação: Lunna Guedes

Foto por Gu00fcl Iu015fu0131k em Pexels.com

23 / 08 / 2025 / BEDA / Lua E Estrela

“A Lua e a Estrela, anel de turquesa…” — Trem das Cores (Caetano Veloso). 

Sônia Braga interferiu no cancioneiro nacional através de duas composições: Tigresa e Trem das Cores. E, sabe-se lá, talvez muitas outras do mesmo autor. Fosse eu o compositor, certamente não deixaria de me inspirar em tamanha força da Natureza feito a atriz intensa e talentosa. Eu cheguei a escrever um conto chamado Tigresa em homenagem a ela. A Tânia não gostou dele porque achou o narrador um tanto capacho demais. Falo de um homem totalmente preso à sua irresistível paixão em que somente algumas migalhas de carinho bastavam para enternecê-lo. Libertária, a minha Tigresa passava como um trator por cima dos homens e assim como alguém já disse em uma conversa solta, “não passava vontade”. Enfim, uma mulher digna de inspirar o melhor dos homens a melhorar o mundo com poesia da maior qualidade.

Foto de Sônia Braga por Jean-Pagliuso-Photography-Inc

22 / 07 / 2025 / Tempos

Passou-se todo um dia.
Do cinza à cor,
caminhou os meus olhos
pelo horizonte diverso.
Registro de tons e dons,
com quantos tempos se faz um dia?

Caçar com os olhos.
Arrebatar com a retina.
Beijar a tarde em queda.
Amar em cores.
A rima fica por conta da beleza…

21 / 06 / 2025 / Mudanças Climáticas*

Em 2015, escrevi: “Dia de sol inclinado e temperatura fria. O inverno chegou! Mexericas ainda não colhidas, revelam as bicadas dos pássaros e as picadas dos insetos ou, ainda, apodrecem no pé. Podemos até desenvolver um sentido de desperdício quando nós, os humanos, não aproveitamos o máximo das potencialidades que a vida nos oferece, mas outros seres, dos alados aos rastejantes, talvez discordem disso…”.

Outra imagem semelhante registrei nas primeiras horas do Inverno primaveril de 20 de Junho de 2024* e escrevi: “As árvores, confusas com o calor tépido, florescem fora do tempo devido. É como não descansassem e os outros sinais de veranico fora de época nos mostrasse que o processo de mudanças climáticas se acentuarão dia a dia. Quando vim para esta região da Zona Norte, no final dos Anos 60, os morros do entorno amanhecia neste período com a vegetação coberta de geada, transformando o amanhecer em um espetáculo de múltiplas cores produzidas pelo reflexo solar. Hoje, o mesmo local está recoberto de moradias”.

Li que esta geração será a última a ter visto vaga-lumes a voarem por entre as plantas. Os machos da espécie sofrem a concorrência das luzes artificiais e não conseguem mais fecundar as fêmeas. Assim como as abelhas que também sofrem com as anomalias produzidas pelos homens, estamos nos condenando gradativamente à extinção. Pior para nós, melhor para todas as outras milhões de espécies animais do terceiro planeta desde o Sol — desde insetos até as maiores — terrestres e marinhas.

06 / 03 / 2025 / BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Ao Cair Da Tarde

A amante
da Luz recebe em seu corpo
os oblíquos raios solares
desta manhã outonal…
Ela ama o calor que aquece
mas não queima…

Que preenche os seus lábios,
cabelos
e olhos
de amor luminar,
a escorrer por seu colo
até o peito
e umbigo…

A amante
da Luz vive, também,
o Outono de sua vida…
Já foi Primavera,
já foi Verão
Os seus olhos já viram
muito mais do que verão…

A amante da Luz sabe,
e, mais do que isso,
deseja,
não ver chegar do Inverno,
a escuridão…

Outros tons de cores…
Outros ângulos da luz solar…
Entre as nuvens e a poluição,
poemas visuais se fundem
e se dissolvem
diante de nosso olhar…

Algo de muito perturbador existe em mim
Que prefere um céu nublado a azulado
As nuvens me trazem a ilusão de festim
Enquanto limpo, parece de tempo fechado…

Ao cair da tarde
antes à tarde do que nunca,
também é tempo de encontros
e reencontros.
Mesmo que não falte alguém a nos esperar,
voltamos à solidão de sermos sós…

O Sol é uma usina de energia e calor
nos entrega vida e suporte
mesmo que esteja invisível
há quem não o suporte
como se fosse nos dado a escolher
sua existência ilumina a dor
e o prazer de viver.

meio do mato ilha de civilização
meu encontro ímpar
e impermanente com a água
olhei à direita descia a neblina
dentro do líquido líquido que sou mudo
permaneço sendo aquele que se sente
um com o todo percebo que faço
parte de tudo…

Participam: Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Silvana Lopes