Véu

Véu
Véu…

Estou muito cansado…
Ainda não consigo dormir nas calçadas,
embaixo de marquises, pontes, viadutos,
frestas de paredes ou praças,
como os meus companheiros de descida
ao inferno…

Por um tempo,
consegui ficar sem uma dose de ilusão
sólida-líquida-gasosa…
Porém,
logo terei que tomar um trago,
fumar uma pedra…

Esperei o Metrô abrir para me abrigar,
encostar o meu corpo dolorido
e desabitado
em alguma parede.
Viva a República!

Cubro a cabeça com um lenço branco,
sujo,
diáfano a ponto de não impedir
que a estação da luz fria me fira os olhos…
o suficiente para que alguém
não perceba o fantasma…

Muito rápido,
virá o sono a me salvar de mim,
de meu pesadelo…
Até vir um agente me acordar,
serei sonho…

Se bem que esteja a perdê-la pouco a pouco,
não obstante
me envergonho de minha identidade…
Dos meus desejos,
anseio pelo momento
em que não mais me reconhecerei…

Quimera

Figura in: https://www.oversodoinverso.com.br/misteriosa-lenda-da-quimera/

Ouviste certa vez o chamado atávico e o teu corpo
Transformaste em instrumento de vida dos pés ao metacarpo
Resultado de encontros de vultos de épocas anteriores
Estavas preparada para aceitares a vocação de sonhadores
Os teus pés, adaptados para saltar, além de caminhar
Deslizavam, além de se mover, comoviam, quando te viam transpirar
Transpôs o óbvio com os teus passos construídos de dor
Quando tinha que comer, viveu apenas de ar e bebeu apenas suor
Segurou o ar quando tinha que se expressar, calou a palavra
Para emudecer de emoção uma multidão com a arte de tua lavra
Leoa com andar de serpente, és um monstro, uma quimera
Quem pensa que a conquista, em verdade não considera
Que é consumido pelo fogo da qual é filha, mãe e senhora
Concedes a atenção obsequiosa de quem é servil portadora
Da graça suprema de seduzir e encantar, de prometer o Paraíso
Ao alcance do olhar, de sereia que faz o navegador perder o juízo
Mas vives na terra, apesar de viajar pelo amplo, para além, para o espaço
E fulguras, diminuta figura com as asas de Ísis, a voar para além do chão escasso.

Balada

Globinho
Face luminosa da lua…

Filas se formam para adentrar à bolha. Desejosos por perderem os sentidos, embalados por batidas em RPMs cada vez mais acelerados, seres vivos entregam seus corpos às frequências-repetitivas-circulares. Em meio às ondas sonoras, luzes psico-estroboscópicas não permitem que se formem pensamentos, apenas reações. Conduzidos por substâncias lícitas e ilícitas, civilizados repetem antigos rituais coletivos tribais-gentis.

Mantras eletrônicos-aliciantes se sucedem em cascatas no salão de cima a baixo, lado-a-lado, para-dentro-para-fora, em frenesi que transcende o indivíduo e assume proporção de tsunami mental. Por instantes, pode-se sentir reverberar a presença do amor químico, entre suores e salivas. O mundo vibra como substância etérea. Visita à face oculta da lua.

Tudo é espontâneo, permitido, nada é sem sentido. Entregar-se a si e a outra pessoa é satisfatório, natural. Sexo sem penetração. DJ é Deus, reverenciado como tal, a ser contemplado com chupadas das meninas e meninos mais entregues, enquanto outras línguas pronunciam cânticos-grunhidos-gemidos ritmados em resposta à condução do maestro do som oscilante.

Depois de horas, exangues, fruídos personagens retiram-se do ambiente onde oraram enlevados pelas seitas pagãs-dionisíacas do movimento, em estertores de membros e cabeças. Voltam à vida comum, social-insaciável em consumação de pensamentos encadeados-ordenados em números e proporções, regras e utilidade civil… até que chegue o próximo sábado.

Mar Em Mim

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Morador do planalto, os meus olhos se enchem de Mar toda vez que desço a Serra, rumo ao Litoral… Pareceu que retornei cinquenta anos na existência, quando encontrei o Atlântico pela primeira vez. O meu corpo, como que atraído de volta ao útero, quis se atirar contra as ondas. Adulto, caminho decidido pela areia, solto a mão da Mãe Terra e me uno à Mãe Água – geradoras de todos os seres. Pai Sol me envolve de calor e sinto-me pertencer ao Universo.

A grandiosidade da força natural do Mar me reposiciona na condição de ínfima parte do átomo. Depois de apenas alguns minutos, me sinto recebido em minha casa – líquido amniótico. Num átimo, sou recriado. O movimento de fluxo e refluxo das ondas me banha de espumante respirar. A sintonia como o meio líquido me torna um bailarino de atávica dança ritual. Eu me junto a milhões de seres humanos de todas as eras que se lançaram dos Continentes e Ilhas às correntezas que nos trouxeram ao futuro – hoje – e torno-me atemporal. Sou todos em um – eu.

Mergulhador, mitigo a dor de viver sem aparas, ao boiar ao sabor das ondulações. Dejeto da civilização, perdoo-me dos pecados em batismo sagrado ao nadar sobre a fímbria marinha, a linha do horizonte a me confundir os sentidos. Devo ir mais longe? Extinguir de vez a solidão? Morrer para a Terra, consubstanciar-me em Mar? Unir as moléculas elementares do meu corpo-Água a ele?

Quando retorno à minha consciência terrena, de volta à unidade física que me identifica como apartado do mundo, sinto-me um apátrida. Volto para a firmeza inconstante da areia. Acovardo-me do casamento com a vida real por aquele momento, à espera da revelação do instante que deverei ser, para sempre, Água…