Deve saber que há muitos que o procuram em vão, não?
Onde se esconde?
Tenho por mim que, de tão perfeito, você passe despercebido em forma de cumulus nimbos que interdita a luz do Sol apenas para refrescar o calor.
Ou passa disfarçadamente como uma simples sardinha num grande cardume no Atlântico.
Com certeza, morou por um instante nos olhos verdes da moça triste.
Dever caminhar em grupo de pinguins que se juntam para enfrentar a tempestade de neve.
Estou quase certo que o vi de relance no arabesque preciso da bailarina.
Tenho por mim que esteja no beijo de boa noite de uma mãe em seu filho… também. Mas não apenas.
Sei que está no gesto de carinho do namorado no cabelo da amada, ainda que se restrinja a existir em tempo escasso, diante do cotidiano de dissabores.
Todos o desejam eterno, mas somos mortais e nossos desejos urgentes, sem compromisso com o que é permanente. Está nas ondas do mar que se quebram em ruídos d’água espumosos. No entendimento de seu fluxo e refluxo.
Está no quarto 102 de um hotel barato do centro em que os amantes se bastam por tempo determinado.
Caminha nos primeiros passos claudicantes da criança que meses antes mergulhava na barriga materna.
Outro dia, eu o encontrei numa palavra singela, mas que me fez perceber a sua eternidade — “é”.
Amor Ideal, sou dos poucos que desacredita em sua existência sempiterna.
Eu me surpreenderia se eu o encontrasse por aí, ao procurá-lo com insistência. Assim como a Felicidade, deve estar em momentos de descuido…
Sou Adão e sou fiel… Tenho uma natureza fidedigna, que preza o outro. Porém, mais que ao próximo, tenho a tendência em satisfazer às minhas paixões…
Vivo a contradição – como ser fiel a mim mesmo, ao meu desejo, ao que considero ser o melhor ou mais gostoso para o meu ego – e manter-me fiel a quem me é amável, sem feri-lo?
Não há como ser feliz sem magoar… Ou magoamos a nós ou ao amado… Muitas vezes, aos dois… Prefiro o gosto da maçã à inocência que ignora o que é certo e o errado…
Que mérito eu teria se não pudesse escolher? Para justificar as minhas escolhas, culpo ao outro por elas…
Dessa maneira, satisfaço a minha curiosidade de criança mimada e continuo a comer uma fruta após a outra, até conhecê-las todas e nomeá-las…
Para não dizer que minto (mais uma falta), digo, em pureza d’alma: sou fiel a minha traição…
Quem é aquela jovem mulher que desce a escada? Olho de novo e busco saber de onde a conheço Busco a bela moça em minha memória escavada Perco-me por dois segundos, desde o fim até o começo
Aquela parece ser minha filha menor, parece ser a caçula Que desce do andar de cima com um novo andar Que deitou menina pequena e acordou qual mulher de fábula Transformada em novo ser, com um novo olhar e menear
Como ocorreu de maneira tão célere essa passagem? De bebê à criança, à menina, à moça, até ser mulher? Como se deu a consumação desses dias em voragem? Qual o nome da força que mal consigo, por um instante, conter?
Será a vida, irrefreável e absoluta, que nos coloca o prumo? Será o tempo, impassível e frio, como um rio a transbordar? Já antevejo o dia em que a levarei ao altar, para um novo rumo E o ciclo a se completar, tendo no colo o futuro a me recordar…
O Facebook me fez lembrar que, nesta data, há exatos 27 anos… eu tive uma filha — a Romy.
Ter também me parece um verbo insólito… todos nós — pais, que vivemos a paternidade em seu pleno alcance — sabemos que não somos nós que temos uma criança… é a criança que passa a nos possuir.
E, ter a Romy… me assegurou de que eu também me tivesse. Aconteceu em um final de semana, no qual se comemoraria o comercial Dia dos Pais — era um sábado… e foi mais forte para mim, pois ganhei o meu Presente: justifiquei o meu Passado e inaugurei o meu Futuro.
*Texto constante no livro de crônicas REALidade, o primeiro pela Scenarium Plural – Livros Artesanais, em 2017, participante do BEDA: Blog Every Day August.
O Facebook não sei quanto mais tempo durará. Quando surgiu o Orkut nem cheguei a usar todas as suas possibilidades e não participava de grupos. O Facebook passou por cima dele rapidamente como um trator e logo se tornou hegemônico. Poder que se estendeu para outras formas de apresentação, como o Instagram. Hoje, fazem parte de um conjunto de aplicativos que compõem a Meta — em referência ao Metaverso — uma espécie de universo virtual paralelo. Enquanto vivia a sua primeira fase, eu utilizei o Facebook como repositório de textos, imagens e assuntos tão aleatórios quanto crepúsculos ou observações sobre temas cotidianos. Eis alguns exemplos.
Metalinguagem (2021)
Em tempos de falsa concretude, das palavras cada vez mais estioladas, das imagens empobrecidas, dos pleonasmos cada vez mais reais, dos passos maldados, do ladrão de verbos e verbas, pede-se encarecidamente — não pisem na metalinguagem!
Asas… (2020)
A cada dia que perguntamos algo ao céu, ele responde de forma diferente. Mas o sentido é o mesmo — a vida é movimento e transformação…
Moema (2020)
Ao ver o sol se pôr em Moema, atravessei o meu olhar através dos prédios, casas baixas, árvores, colinas, vales e rios para cada vez mais fundo no Tempo. Moema tem origem no Tupi “moeemo”, calcado no gerúndio, que quer dizer “adoçando”. Transformado para o feminino, significa “aquela que está adoçando”. O nome foi criado pelo Frei de Santa Rita Durão, para um personagem do seu famoso poema “Caramuru”, que conta a história do náufrago português Diogo Álvares Correia, no tempo em que viveu entre os índios Tupinambás. Por alguns instantes, voltei a eles. Inocente do destino do meu povo que morrerá-morre-morreu. Outra possível versão sobre o significado de Moema é “mentira”…
Bethânia (2017)
Bethânia… É comum me sentir como ela… Sempre tentando me adaptar aos humanos…
Mooca (2011)
São Paulo convive com características de cidade pequena, em várias de seus caminhos, mesmo os mais movimentados. Na Rua dos Trilhos, que fica no Bairro da Mooca, podemos presenciá-las à esquerda, em casinhas que resistem com a mesma fachada desde que foram construídas, nas primeiras décadas do século passado. À direita, resquícios de uma das últimas linhas de troleibus da cidade.
Sarah (2015)
Este é o túmulo de Sarah. E quem foi Sarah, que faleceu aos três anos e meio de idade, em 1999? Não sei, mas ao passar mais uma vez junto ao Cemitério da Saudade, aqui em Caieiras, onde estou trabalhando, não deixei de me emocionar ao ver a sua foto, através do muro baixo, onde o seu corpo descansa. Em uma placa sobre a lápide, ao lado dela, pode-se ler: “Sarah, você é o sol que brilhará eternamente”. Estou de TPM — Temporada de Piedoso Melindre — momentos em que tenho vontade de chorar por qualquer coisa, desde o latido de um filhote de cachorro até a imagem de uma Maria-Sem-Vergonha se abrindo. Caminhei algumas quadras com a expressão pesarosa de quem perdera alguém muito próximo, em um dia em que o Sol se fez ausente, como a anunciar a chegada do Outono. Logo, tive que me refazer, não sem antes deixar cair uma ou duas lágrimas por aquela criança que mal ultrapassou a primeira infância como tantas no Brasil…