BEDA | Antes Do Salto No Precipício

Rua 2 e Corredores
Lançamentos Scenarium

Sempre quis saltar. Apenas não sabia que caminho tomar para chegar à borda. Escolhi escrever. Decidi me expor aos olhos dos possíveis leitores. Estar sob crivo alheio, além de si próprio. Não é um exercício agradável. Mas para quem quer se jogar, todas as consequências são dolorosas, apesar de aguardadas. Ser publicado é o salto. E há sempre gente disposta a ajudá-lo dar o passo sem chão. Um dia antes do lançamento de Rua 2, repasso mentalmente suas histórias em minha cabeça.  Procuro não ter expectativas.

Sobrevivente de um primeiro salto, em “REALidade”, deveria estar preparado para um segundo. Nunca se estará. Outro projeto, outra vertigem. Quase certeza de que não se alcançará êxito em concluí-lo. Dúvidas sobre tudo. Sobretudo, incertezas, muitas. Salto no escuro. Para saltar no precipício, há um trabalho em equipe. Sem o que, o espaço, além de vazio, será sem sentido. Ouso dizer que é um trabalho realizado por muitas mãos, até chegar às mãos definitivas.

O livro, materializado, é a precipitação pensada. Vácuo vital. Chuva no deserto. Tinta seca a fecundar o papel branco. Palavras a ventar pelas mentes que as acolhem. De alguma forma, aconteço pelas páginas em sequência, em números embaralhados. Chegar ao coração vivo, matando e morrendo. Suportar todas as contradições, sendo coerentemente contraditório. Confuso, com fuso e difuso.

Hoje, logo mais, Rua 2 e outros projetos da Scenarium Plural – Livros Artesanais, estarão disponíveis para serem apreciados por leitores e amigos. Mariana Gouveia, caminha junto comigo através de “corredores, codinome: loucura”. O projeto “Sete Luas” nos ilumina com a participação de autoras do selo. A Revista Plural – “Clandestina” – porque escrever não deixa ser um ato quase ilegal. Todos convidados para testemunharem saltos no precipício. Regado a café e abraços. Dor em nos revelarmos. Prazer em recebermos e sermos recebidos.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Dança Das Entidades

ENTIDADES
A dança…

O dia frio e úmido destoava da sensação que o corpo de Thiago sentia – ar tão abafado que as mãos estavam molhadas – como se tivesse sob um sol escaldante. No entanto, corria a noite… Sabia que sua febre não era puramente física. Don Diego, que o acompanhava e, eventualmente era convidado a assumir o seu corpo, ardia de saudade… Não que fosse represália por Thiago ter brigado com Diana, que carregava Saphyra, seu amor. Apenas acontecia.

Thiago e Diana também já se amaram. Mas viviam às turras, com diferenças quanto a objetivos e posturas. Thiago era mais tranquilo e retraído, quase tímido. Timidez que se esvaía quando colocava sua roupa de cigano e dançava as vibrações-referências de todos os lugares do mundo por onde o seu povo passou, desde quando os ciganos deixaram o Egito e a Índia, passaram pela Pérsia, Turquia, Armênia, chegando à Grécia, onde permaneceram por vários séculos antes de se espalharem pelo resto da Europa, com influências húngaras, russas e espânicas. Don Diego era mestre na dança flamenca.

Saphyra, de origem grega, também sofria. Com o corpo da esfuziante Diana, fazia uma mescla estonteante de flamenco e árabe. Quando conheceu Don Diego, no corpo de Thiago, imediatamente se apaixonou. O casal-entidade forçou para que Thiago e Diana ficassem juntos. E assim aconteceu, não sem antes causarem as separações dos casais que os abrigavam, também ciganos. Apesar da dor causada pelos rompimentos, os respectivos cônjuges se conformaram diante da explosão passional de beleza e efervescência emanadas quando as entidades dançavam nos corpos de seus companheiros. Sabiam que não havia como impedir o rompimento diante do jorro de energia pura que se precipitava salões afora por onde volteavam.

Thiago, por Don Diego, do qual gostava muito, decidiu chamar Diana para conversar. Ela aceitou, por Saphyra e porque o desconforto que passava a estava impedindo de trabalhar. Marcaram de se encontrarem longe do Recando Santa Sarah, em cujo salão de eventos, dançaram pela primeira vez, causando frisson entre todos que os assistiam, em uma festa com a presença dos Guardiões da Noite do Oriente, com a participação de várias famílias ciganas. Entre volteios e braços erguidos, cruzaram os olhares dentro dos olhares, longos cabelos jogados pelo espaço. A grega e o espanhol formaram a dupla que encheria de força cósmica todos os encontros nos últimos cinco anos.

Fora das festividades, Thiago e Diana tiveram que lidar com o cotidiano massacrante de professor e enfermeira. Nos momentos de encontro amoroso, usufruíam do poder do chakra sacral – Swadhisthana – livre e ativo. A conexão entre Don Diego e Saphyra se consolidava a cada encontro, enquanto Thiago e Diana perdiam suas identidades. No entanto, a massa de energia era tão grande que se espraiava prazerosamente por todos os poros de seus corpos. As peles, depois de cada refrega, permaneciam sensíveis a qualquer toque por quase 24 horas, como se fossem queimaduras. Apesar de todo o prazer que sentiam, os efeitos também concorriam para se sentissem desconfortáveis juntos, quando conscientes.

O ex-casal se encontrou em um Café no Paraíso, subiu as escadas e se posicionaram em um dos cantos do mezanino. Estavam calmos e inicialmente conversaram amenidades sobre saúde e rotina. Sentiam-se estranhos por estarem ali naquele ambiente impessoal. Contudo, talvez fosse o ideal para evitarem certas repercussões que já ocorreram antes. Como fariam? Senhora Avelar teria condições de liberá-los? Orações para Santa Sarah? Intervenção do Mestre Kalé?

Em determinado momento, por mais que evitassem, olharam-se nos olhos. Foi o que bastou para quererem se tocar. De mãos unidas, olhos flamejantes, perceberam que seus corpos perderam peso e praticamente flutuavam milímetros acima dos estofados. Seus corpos começaram a vibrar levemente e seus pelos e cabelos se eriçaram a olhos vistos. Trocaram um beijo longo, acompanhado de um suspiro profundo. Testemunhas disseram que sentiram uma lufada de ar quente a percorrer o salão, enquanto a luzes variaram de intensidade. Em pouco tempo, tudo cessou. A temperatura baixa deste Agosto voltou a prevalecer. Thiago e Diana se olharam como desconhecidos. Don Diego e Saphyra haviam partido..

Participam do BEDA: ClaudiaFernandaHanna LunnaMari

BEDA | Lixo

 

LIXO
Jóias descartadas…

Ao passar pela calçada que ladeia o piscinão, tive uma espécie de déjà-vu ao encontrar objetos antigos jogados junto ao gradil. Parecidos com esses, já os encontrei no gramado lateral à Avenida Inajar de Souza. Como já havia encontrado vários na minha adolescência, quando eu e meu pai catávamos lixo nos bairros mais nobres de São Paulo, com a nossa Gertrudes, uma Kombi. Era um lixo especial – livros, brinquedos, metais, papel, papelão de excelente qualidade – e discos. Como os que encontrei hoje. Movido por um impulso do antigo catador de recicláveis, reuni e recolhi os mais de vinte Long-Plays, datando do final dos Anos 60 até o início dos Anos 90, justamente à época que os CDs – Compatic Discs – começaram a imperar.

Esses exemplares são como jóias do tempo. É inacreditável que tenham se desfeito delas sem ao menos considerar doá-las ou até vendê-las para alguém interessado. Várias capas estavam umedecidas ou um pouco mofadas, mas os discos estavam preservados, necessitando apenas de uma limpeza mais atenta. Não podia deixar de homenagear o esforço humano na realização de obras de uma época em que praticamente não havia pirataria e a vendagem de discos correspondia à real dimensão do sucesso de um artista. Não teriam sobrevivido tanto tempo, se fossem CDs, mídias que, apesar de mais recentes, provaram-se menos duradouras que os antigos vinis.

Havia produções de soul, samba, jovem guarda, disco, folk, populares coletâneas de novelas e rock. Ou seja, um acervo de gosto bem eclético, reunido provavelmente ao longo de anos. E, então, descartado. Suponho que por uma pessoa que não considerasse tão importante preservá-lo, apesar de uma possível conexão emocional. A minha intuição é que não tenha sido o antigo proprietário, talvez já morto, mas alguém próximo, porém desvinculado sentimentalmente desses porta-emoções-passadas.

Uma característica de nossa pobreza é associar à grande produção de lixo o status de riqueza. Considerado descartável, acaba por se tornar um desperdício de excelente fonte de recursos. O advento da coleta seletiva poderia responder a isso, mas em quase nenhum lugar do País encontramos vontade política para implementá-la. Outro sinal de nosso atraso é tratar um produto cultural com desprezo, principalmente por vivenciarmos a cultura da descartabilidade. Enquanto isso, ainda que atualmente a produção musical seja mais virtual do que física, a sensação é que cada dia mais o lixo está a invadir nossos ouvidos e nosso espaço mental…

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari