Pelos amigos, fui chamado para versar Sobre a expressão dos bichos no campo O zumbir dos grilos, dos sapos, o coaxar Não os vejo mais, tal e qual o pirilampo
Vivo na cidade — duro asfalto, frio cimento Apenas os busco na terna e fugidía memória No reencontro da infância, no pensamento Chego a pensar que são invenção, uma estória
Serão esses seres originários de ficção? Sonhos de uma vida que tive ou ainda terei? Como o brilho das estrelas, uma mera ilusão? Pois mesmo já mortas, as vejo e ainda as verei?
O que me diz Diovani, o bardo cristalino? O que me conta Marineide, a fada central? Vivemos todos uma igual fantasia e destino? Mentimos a mesma verdade universal?
Neste último sábado, Humberto e eu, pela Ortega Luz & Som, trabalhamos em um evento em RibeirãoPires. Era o aniversário do Guidu, ao qual intitulou de Guidustock, em referência a Woodstock, fá de rock que é. Além da muito boa BandaCaxamblues, o Elvinho foi a outra atração, da qual fizemos a sonorização e iluminação. Chegamos mais tarde do que gostaríamos, mas com o tempo necessário para fazermos a montagem com uma antecedência confortável.
Quando iniciei a minha atividade de prestador de serviços na área de eventos, trabalhava para uma banda que me deu a experiência de que o imprevisto é sempre possível ocorrer. Então, para nos anteciparmos ao previsível imprevisto, sair antes do horário pode evitar maiores tribulações. Na quinta-feira, foi assim, em um evento em VargemGrande, perto de Jundiaí. No caminho, na RodoviaTancredoNeves, há 15 minutos de chegarmos, o cabo do acelerador da Tímida (uma de nossas Kombis) quebrou. Paramos no acostamento, o Humberto trocou o cabo e 45 minutos depois, chegávamos ao destino. O evento foi realizado com sucesso e decidimos usar a outra Kombi para o evento de ontem.
Para provar que tudo está por um fio, eis que em determinado ponto da longuíssima AvenidaJacu-Pêssego, o cabo da Tigresa quebrou, também… Qual seria a chance? A chance do previsível imprevisto, tanto que o Humberto disse na quinta que poderia acontecer, o que refutei. Costumo brincar que a minha positividade a laLippi se contrapõe ao “Oh, vida! Oh, azar!” do meu irmão Hardy. Para quem não gosta de rotina, é um prato cheio o que fazemos. Somos como ciganos ou trabalhadores circenses que vão de um lugar ao outro, montando o acampamento ou a lona do circo. Enfim, a última imagem (a despedida do palco do Elvis (Elvinho) mostra que tudo ocorreu muito bem. Foi um sucesso! Cada vez mais me apaixono por meu trabalho…
carreadouro passeio de formiga rua de cafezal corro por entre alamedas virgens de passos meus violentadas pela indiferença com a qual inauguro mais uma visita que terá de diferente nessas casas geminadas de famílias iguais? o céu divisado por um olhar enviesado de sol inclemente que invade janelas descortinadas e lambe portas fechadas convidando ao não e ao talvez quem sabe haja um mar particular quartos e histórias de dilúvios e aluviões de minas auríferas platinas ou cristais ou lama açude seco areia movediça pasto duro salas de piso de antigos tacos que soltam e revelam relevos incongruentes onde um dia crianças brincaram indelicada a vida tripudia em vez de grandes planos urde mínimas ilusões carrega no quengo concomitâncias com o sofrimento dos escravizados o que era imposto antes agora não apenas é aceito assim como é desejado – quero que me comprem – me consumam um motivo para viver para beber para comer para querer para dever porque eu não me basto como fogo me alastro e destruo o que vem pelo caminho pelo desvio pelo sentido direção e chegada sem fim permissão para fenecer expirar todo o ar dos pulmões enxarcados de vazios desencarno os pés nas pedras hirsutas e candentes de sons inaudíveis como vozes surdas e suspiros partidos intuo que perguntem que será que sou quem estou?
O
onde está que não responde? dedicação de dez anos me usou fui útil agora passei página virada curva fechada some no horizonte o barulho das ondas na arrebentação parece se apequenar em minha memória de sóis poentes e brisas mornas areia macia pés de bailarina arcos impossíveis manobras abissais nesses momentos dançávamos as mesmas notas o último encontro únicos membros tantos quartos desocupados eu dormia no catre ao som das trombetas de jéricó d. pedro que levantava a espada e penetrava no âmago da liberdade prazer que gemidos confirmavam eu ao telefone enquanto me engolia edição de fotos que esbravejava o golfinho como testemunha mergulho abaixo às aguas transparentes da tarde que morria noite a lua enluarava como se predissesse que não seria apenas o fim do mundo mas também dos sonhos de eternidade amor em terna idade houve momento em que pensou que iria morrer a imensidão a cercando pouco a pouco como se o céu caísse em si enquanto os seus olhos esverdeados se agigantavam rompendo nuvens fendendo camadas alcançando a derradeira circunferência de onde não mais voltaria pedi para que lhe visse passar ao menos tripudia de minha distância enquanto aumenta a dissensão se transfere para outra dimensão e fico aqui neste ponto em reticências…
M
mulher que bebeu de minhas melhores emoções refestelou-se fui intenso fui imenso diante de seu corpo nu mais crescia mais me apetecia jogar-me do alto do abismo estive apaixonado uma vitória sobre minhas defesas ao chão prendeu-me seu sorriso desbocado sem dentes naturais feito prótese que o tempo tratou de compor mas amava porque estava você a me beijar debruçada entre as minhas pernas provando-me entre soluços de choro sentido estávamos finando em cada tempo que imaginávamos recomeçar foi como uma descida de um avião sem asas partidas em pleno voo em dor espiral expirávamos em fogo e riso da lembrança do fauno com os cascos sobre o balcão que disse: “ele está lá encima” enquanto a banda marcial executava hinos pátrios foi assim que adentrou ao átrio com saltos altos que ouvia desde o corredor eu a recebi à base de beijos línguas serpenteando seu hálito de cerveja para tomar coragem de invadir a minha vida de vez na segunda incursão do dia revelou o presente do primeiro encontro: “eu amo você!” enquanto pensei ela não precisa de mim para chegar ao ápice queria estar ali mesmo que somente como expectador da performance da artista dedicada ao monólogo o meu corpo como seu palco de atuação teatro moderno a plateia como coator quase sempre contracenava sendo os outros que de mim saltavam pelos poros em desespero de expressão como a gritarem – nós existimos! comecei a sentir o poder do demiurgo a corromper as minhas ações queria comer todo mundo mas recuei me assustei como pode um ser empoderar tanto o outro assim?
B
benditos os que amam amar é radicalismo posto em prática caminho sem volta quem amou um dia amará para o todo o sempre congelado no tempo será a sua história tão preciosa quanto dolorosa tão aguda quanto plana tão simples quanto confusa tão extrema quanto definitiva feito o ponto final posto na última palavra da última página de um livro incompreensível que o cupim comeu feito james joyce caminhando no chão forrado de carvão incandescente como prova de humildade intelectual apenas que não ocorre intervenção da mente na paixão é doença cerebral obliteração dos sentidos os sentimentos invadindo as texturas e fibras orgânicas as transformando em vetores sinergéticos para entregar à oblação oferta em sacrifício no altar do gozo tão fátuo quanto viciante desejo de voltar a ter a mesma sensação da primeira vez viagem sem volta mas talvez o esquecimento intervenha e venhamos a percebê-la como cicatriz que coça de vez em quando mais ou menos de tempos em tempos feito o sangue que passa pelo coração percorre o corpo todo atinge o cérebro e repercute em algum ponto da pele dedos cotovelos peito costas barriga coxas e entre as coxas nada que uma das mãos não resolva…
O
ondas do mar invadem o meu peito atravessando as vértebras e banham o meu coração de saudade ainda que não acredite nela como algo que denota falta mas é presença na ausência quando os meus pés ultrapassam as linhas aquosas fronteiras entre as matérias me integro me entrego me torno água perfuro fluo seguro o ar fecho os olhos as três dimensões se dissolvem me santifico batizado pelo sal renovado as avarias lavadas retificadas as pancadas silentes dormentes silenciosamente se curam abençoadas pelo sol clemente beijando a minha tez indígena embranquecida eu sou transfigurado pelo elementos desde a areia para a areia não persigo mais a redenção pessoal sou redimido pela falta pelo vazio criativo prestes a ser preenchido de nadinhas maiores e menores incisivas perfurantes duras feito diamantes ainda a serem lapidados tudo me interessa ninguém me acolhe me sinto só com o tudo a me costurar o mundo nas costas carrego feito sísifo de quinta categoria o peso que rola a montanha abaixo me cristianizo ofereço a outra face para que o sistema me esbofeteie organizo a minha dor uma de cada vez em uma fila da qual não vejo o fim porque redivivas sorriem como bebês satisfeitos após a mamada espero que adormeçam para que continue a subir o morro e morrerei curioso para encontrar a substância ou a escuridão abstrativa isso é encontrar ou se desencontrar? sei que irei para alguma cadeia molecular de carbono ou que talvez integre átomos que se perfaça em flor definitivamente serei deus…
I
independência não existe fome sim dependemos de nos alimentarmos para sobrevivência isso nos torna fracos se dispersos egoístas unidos podemos fazer tudo como destruir o mundo que nos nutri mas criamos estratégias de dependência dos mais fracos a um sistema abjetamente os despossuídos se integram ao paraíso como serviçais tocam mas não podem possuir cheiram mas não podem comer veem mas não podem desfrutar alcançam de forma indireta a fruição da possibilidade isca lançada servem aos senhores dos meios e dos fins a terra inteira destruída em nome do poder de alguns até esses dependem de que a ilusão perdure para que continuem a serem mandatários no entanto se todos tivessem os mesmos recursos o planeta não suportaria tamanha pressão sete gaias não aguentaria a demanda da podre riqueza feita de guerras messiânicas acionadas de forma mecânica para o aumento do fluxo sanguíneo que alimenta a sociedade organizada…
O
ocasional o meu futuro o meu presente é solidificado sou o que sou ainda que não me conheça por inteiro estou em construção e desmantelamento agrupamento e dispersão desencaminhado e perseguido por minhas dúvidas e questionamentos continuo em contínua inconstância traço de causa consequência coerência cansado de não perseverar não vejo saída a não ser prosseguir a ser observador da vida que passa passo junto perpasso par e passo sonhando ser pássaro em revoada mas fazendo parte de um comboio acorrentado a vagos vagões viajando em trilhos sem rumo aparente sabedor de minha nossa exiguidade não me sinto perdido a não ser em mim sem sins jardins jasmins e festins não sou enganado porque não estipulo cláusula pétrea para nada y nadie mas carrego um traço de inocência que me deixa surpreso com muita coisa coisa é algo incomensurável indizível coisada se acredito acredito que a vida é um milagre seja sob que forma for sem aforismos ou regras apenas fruição se oro é para o deus mudança transformação transmutação locomovido em locomotiva desgovernada maquinista despersonificado me sinto como se fosse uma novidade no universo sem encarnações anteriores mas com um fim consciente num tempo indeterminado pelo destino se pudesse nomeá-lo que nome daria: sorte de principiante?
Embolei as ideias fiz um nó depois desatei (Nirlei Maria Oliveira)
Florzinhas “vagabundas” pelo caminho…
Gosto de caminhar. Aclara as minhas ideias, estabelece um rumo, enquanto desando em pensamentos fugidios. Percebo o caminho para além das marcações de asfalto, guias, calçadas e buracos. Por vezes, enquanto passo, passam personagens. Dois deles que formavam um casal de idosos, saíam pelos portões de seu condomínio e encetaram os seus passos lentos e encurvados de presumíveis 80 anos.
Ao ultrapassá-los, os cumprimentei com um bom dia de reconhecimento, ainda que nunca os tivesse avistado antes. A senhorinha respondeu com a sua voz fraca, mas o senhor apresentou um tom forte e estável, de quem vivia os seus 50. Foi uma agradável conversa entre as idades. Porque não são apenas frases longas que perfazem um diálogo. Deu vontade de interceptá-los e saber sobre as suas histórias — união, filhos, netos — se os tinham.
Mas me lembrei de itens que faltavam em casa e mudei o rumo para o supermercado. Ao passar pela caixa, uma simpática moça me ofereceu um panetone, há dois meses do Natal. Respondi que não gostava de frutas cristalizadas (foi o menino que fui respondendo). Ela disse que também só gostava de chocotone.
O que ficou de saldo, além dos itens pelos quais paguei foi o de como as idades que vivemos se intrometem vez ou outra em nossa vida, sem mais nem menos. Atualmente, tolero panetones com frutas cristalizadas, mas o diabético tem a desculpa de não poder comê-los. Desandei em novos pensamentos. Embolei as ideias, fiz um nó depois e os desatei. Outra desandança…
Porém, nem sempre equaciono as minhas dúvidas, das mais simples às mais complexas. Muitas vezes, deixo permanecê-las numa caixa de mistérios, como se fossem brinquedos com os quais escolho brincar quando mais nada me acompanha — de pessoas a sentimentos, de emoções a ações. Vou lá, abro o repositório e os toco com a reverência de quem vive conexões misteriosas a serem desvendadas.
Em minhas andanças em busca de flores pelo caminho, tem sido comum passar por pombas mortas. Tão acostumados a ciscarem pelo asfalto, distraídas ou lentas, os carros as atropelam, desfazendo o acordo que anuncia: quando estes passam, aqueles ratos alados devem voar (George Constanza, em Seinfeld).
Domesticadas, a morte não se dá por predadores comuns, mas motorizados. Nós, que as atraímos com o nosso comportamento de “sujismundos”, estamos a abatendo esportivamente por atropelamentos. Aliás, este último parágrafo aconteceu sem mais nem menos, resultado de meus desandados raciocínios. Acidentes articulados pelo meu precário des… tino…
Larga Vida larga Sempre se impondo Sobre a morte amarga A corajosa largatixinha Larga a antiga casa Larga a vidinha Rasa Fechada Que tinha E se torna Do seu destino Rainha.
Igreja nossa que estais na terra Onde um ritual divino se celebra Se eleva a alma e desce a lágrima Que seja o amor a sua obra prima.
Caminho… a cada passo no chão, deixo marcas dos meus pés nas nuvens…