08 / 03 / 2026 / “Minhas Mulheres”*

Mulheres às quais pertenço: Lívia, Ingrid, Tânia e Romy

Hoje é o Dia das Minhas Mulheres, internacionalmente comemorado. Em todo mundo, tecem-se loas a ela, deitam-se versos em sua homenagem, fazem-se referências à sua luta pela emancipação no trabalho e nos estudos, além da sua capacidade de salvar o planeta pelo amor.

Por uma mulher eu nasci – minha mãe, Madalena – e por outras eu renasci, Tânia – minha esposa e namorada –– Romy, Ingrid e Lívia –– minhas filhas. Quando digo “minhas”, coloco em proporção contrária o tanto que sou “delas”. Pertencem-me, porque fazem parte de mim, de minha alma, de meu corpo. Mesmo a minha mulher por matrimônio entranhou-se de tal modo em minha pele e avançou tanto para dentro de mim, que não consigo imaginar-me sem a sua presença. Reciprocamente, de uma maneira extraordinária, e talvez não tão benéfica, interferi na proporção de seu corpo ao longo do tempo, ao gerar as nossas filhas.

Enfim, amo as minhas mulheres e confesso que as amo muito mais por serem mulheres, esses seres que me fascinam e busco codificar, muito provavelmente em vão. Talvez seja esse o segredo sobre elas – amá-las sem entendê-las, com todo o entendimento de saber que não as decifraremos totalmente. E olha que coisa incrível — pode-se continuar a ama-las ainda depois que se retiram de diante de nossos olhos e até muito mais, talvez. De outra maneira, como compreender que a minha mãe esteja tão mais presente em meus pensamentos, mesmo após o seu passamento físico?

*Texto e imagem de 2012

Dia Das Mulheres

Registro da Dona Madalena e filhos – Humberto, ela, eu e MarisolNatal de 2004, provavelmente

“O pior inimigo de uma mulher é outra mulher” – dizia o meu pai. De certa maneira, ele fazia uma campanha diuturna contra a minha mãe – a mulher mais próxima de mim. Mas eu não me identificava com ele, sempre distante, fugindo da repressão do regime ditatorial. Até que, traído por um amigo e companheiro de grupo, foi parar na prisão, onde foi torturado para revelar informações sobre a sua célula “terrorista”.

Talvez não tenha percebido que “o pior inimigo de um homem é outro homem” – frase que disse a ele alguns anos antes de partir. Após retornar ao convívio familiar (não por muito tempo), se opunha às ideias de minha mãe que, sozinha, empreendeu com a ajuda dos seus irmãos em várias frentes – dona de bar, criação de galinhas (na qual eu gostava de ajudar bastante) – e, em várias ocasiões, como cozinheira e faxineira na casa de outras famílias.

Meu pai, contando com a ajuda da minha avó Elóisa, sua mãe adotiva, decidiu investir num bar na Consolata ao qual registrou com o nome de “Rincão Alegre”. Desconfiado de Dona Madalena (como de toda mulher), não a tornou proprietária, mais sócia minoritária. Apesar da distância, não convivendo mais conosco, pediu aos filhos que a vigiassem caso percebessem que outros homens se aproximassem dela.

O que não era difícil, já que a minha mãe era uma mulher bonita e amistosa. Porém, nunca percebi qualquer olhar seu diferente do que genuínas amizades que carregou pelo resto da vida. Algumas, os filhos herdaram. Além disso, ela estava presa à criação que teve – uma lavagem mental patriarcal – que a impedia que deixasse de reverenciar o seu esposo. Fora, que sempre foi apaixonada pelo Senhor Ortega, sonhava o dia que ele voltaria para o lar que nunca assumiu cabalmente.

Como já disse antes, com a minha mãe, aprendi a amar as mulheres. Percebi que sendo cromossomicamente metade mulher, o alcance mental da condição feminina que desenvolvi me tornou um homem melhor. Ainda cheio de defeitos, as características das mulheres que mais me atraem têm a ver mais com as suas capacidades múltiplas do que pelas aparências, se bem que o meu olhar seja atraído pelas belezas intrínsecas a esses seres pelo qual apresento um conceito prévio básico – a sua superioridade. Visto pela ótica invertida, seria um preconceito. E é.

Feliz mais um dia da mulher, que são todos!

Menina Madalena Blanco