Projeto Fotográfico 6 On 6 / Caixa De Fotos

Retirei da minha Caixa De Fotos, registros com os companheiros da espécie Canis, tão especiais que não sabemos se seríamos como somos se não fizessem parte de nossa história. O que sei é que somos melhores por eles e com eles.

2024

Bethânia é daquelas que quando está dentro, quer sair. E quando está fora, quer entrar. Atenta a tudo ao seu redor, orelhas levantadas para captar sons para nós inaudíveis; olhos em direção ao objeto de interesse, ela gosta de latir para o mundo, por puro gosto e direito de expressão.

2023

Lolla Maria é tão pequena quanto possessiva, ela inteira. Sobrevivente de percalços que apenas supomos, antes de seu encontro com a Família Ortega, quando a sua mãe tem que se ausentar, já procura quem estiver em casa para se aproximar e alcançar recompensas.

2022

Bambino, meu neto, vivia entre mulheres que não perdiam a oportunidade de acarinhá-lo a todo momento. Quando estava comigo, não queria outra coisa senão cafunés e passa mãos.

2013

Esse amor chama-se também Penélope. Enquanto esteve fisicamente presente, só despertou os melhores sentimentos em todos os seres que a rodearam. Como uma estrela, em torno de si agregava amigos-planetas. Não sei quando deixou de estar entre nós, porque nunca percebemos que nos deixou.

2012

Essa é Dominique. Ela entendia o que eu falava e tinha como principal talento responder com os olhos. Expressivos e belos, quando chegou a nós, estava sem metade dos pelos, pintava de verde, para a diversão de brutos. É outro ser especial que fez nossa existência mais rica.

Troca De Estações

“Sou paulistano. E antigo… a ponto de ter visto São Paulo sem Metrô. Quando surgiu o primeiro trecho, em 1974, um dos programas favoritos do morador desta cidade era percorrer a Linha Norte-Sul, como era conhecida (antes de se tornar Linha 1 – Azul), por dentro dos túneis, apenas pelo prazer de saber-se dentro da terra. Tanto quanto assistir as decolagens e aterrissagens dos aviões no Aeroporto de Congonhas.

Trabalhei na primeira unidade do McDonalds da cidade, na Avenida Paulista, em 1980, quando as estações que se estabeleceriam na “mais paulista das avenidas” eram somente sonhos de prancheta. Para voltar para casa, na Zona Norte, saía às 23h30 do edifício perto da Gazeta e caminhava a pé até a Estação São Joaquim, a mais próxima do local, a tempo de chegar antes do fechamento de suas portas, à meia-noite.

A construção da malha metroviária tem sido uma história com manobras complicadas, com atrasos reincidentes e prazos não cumpridos. Alegam-se vários fatores, desde a topografia acidentada, composição do solo, desapropriações contestadas e dificuldade na dotação de verbas, sendo que o principal seja talvez a volubilidade do dinheiro, que insiste em ser mal-educado, para não dizer qualquer outra coisa que não possa não ser provado, apesar de provável.

Ainda que não consiga conhecer todas as linhas e estações, nunca me senti tão desorientado quanto há uma semana quando, por poucos minutos, me perdi na confluência das estações Paulista e Consolação. Antes que possam alegar sinais da chegada da idade, foi um erro de cálculo totalmente razoável, já que devido ao organograma um tanto desajeitado na construção do Metropolitano, a Estação Paulista sai na Rua da Consolação, enquanto a Estação Consolação desemboca na Avenida Paulista.

O estranho é que apenas nessa ocasião percebi essa troca de nomes das estações. Quando nomearam a Estação Consolação, mais antiga, de 1991, foi pela proximidade, quase esquina, com essa rua que, aliás é maior e mais larga que muitas avenidas em boa parte de seu trajeto, com duas pistas e quatro faixas cada. A inauguração da Estação Paulista só se deu em 2010. “Já que uma ocupava o lugar da outra, por que não retribuir a dádiva?” — Deve ter imaginado algum iluminado.

O fato é que deu um tilt (como no antigo fliperama) no HD do véio aqui e lá estava eu a tentar entrar na correnteza humana na contramão em pleno horário do rush. Tentei por duas ou três vezes. Piorou quando quis ajudar uma jovem mãe que carregava o seu neném no colo, ao levá-la ao elevador. Quando vi que nem conseguia apertar o botão, acabei fechado. Fingi que iria para o mesmo caminho, mas esse ato de solidariedade apenas me reconduziu ao ponto onde havia iniciado o meu último mergulho na procissão de corpos a caminhar com destino traçado, o que não era o meu caso. Finalmente, perguntei a dois seguranças que acabaram por me indicar a saída da Estação Paulista. Quando, com a luz do sol à esquerda, dou de cara com o trânsito intenso da Rua da Consolação, a 200 metros da esquina com a Paulista, atrasado para a minha reunião ali perto, mas que se provou ser mais longínquo que imaginei.

Como a pessoa que eu iria encontrar é daquelas que gostam de indicar até quantos passos deveria dar até onde marcamos, designou que, ao sair da Estação Consolação, eu deveria descer 50 metros à esquerda na Haddock Lobo, o que se provou errado quando, nas mensagens seguintes (às quais não li), passou o sentido contrário. De tudo isso, restou uma caminhada acelerada para cima e para baixo, tantas vezes quanto necessária para ativar a minha circulação sanguínea em dia de temperatura amena. Quando finalmente me foi passado o número do local (talvez por pena de minha esbaforida condição) consegui tomar o rumo certo, ainda que tivesse que atravessar a Paulista na faixa de segurança distante 100 metros para além da rua.

Fiquei a imaginar o que um forasteiro deve sofrer quando são fornecidas informações que acabam por atrapalhar mais do que ajudar para se localizar em um novo espaço. Igualmente, me solidarizei imediatamente com todos confusos que não sabem nem onde estão… e não somos poucos…”

O texto acima é de 2017. Naquele ano, assumi definitivamente que o meu senso de direção era falho. Depois de me perder nessa ocasião, outras vezes emergi em confusas incursões por outras vias públicas e estações de Metrô, como a Paraíso e a Santa Cruz, quase perto da China, de tão profunda. Quanto aos nomes, a explicação que me passaram é que são escolhidos de acordo com pontos notáveis pelos quais as linhas cruzam. Como a Estação Consolação fica próxima a essa rua, esse foi a nomeação mais adequada. Isso, antes da ampliação da Linha 2 – Verde. Ao meu ver, para ajudar na melhor identificação de ambas as estações, poderia haver a troca de nomes. Se a justificativa for a possível confusão que causaria, creio que seria apenas no início. Afinal, é comum nossos políticos alterarem pontos toponímicos com a maior facilidade quando querem homenagear a algum ilustre desconhecido ou um poderoso de ocasião.

Dark, Now

Dark

Estamos envolvidos no enredo da Pandemia desde meados de março. Apenas para reafirmar, estamos em 2020. Essa marcação seria desnecessária, se o eventual leitor deste texto estiver no presente. Porém, quem estiver correndo os olhos por estas palavras em um futuro distante deste episódio da vida planetária, estará vivenciando em seu presente, consequências advindas deste passado. Estabelecido o quando, cumpre dizer que estou no Brasil (ou estive) e talvez quem me leia repercutirá o que leu no meu hipotético futuro, em que estarei fora deste território ou, fortuitamente, fora desta dimensão.
Estou passando uns dias fora de Sampa. Mais propriamente, na Praia Grande, no litoral sul paulista. Quanto ao tempo, me refiro à importância que este local representa em minha história pessoal. É como se o que experimentei aqui no passado tenha sido tão forte que retorno às vivências ensolaradas e delas me alimento na minha atualidade, mesmo sendo este um dia frio de julho. Nesta vacância forçada pelo isolamento social, aproveito para ler, escrever e praticar atividade física. Faço exercícios localizados, caminhadas e ciclismo, com o uso de máscara, atento que estou ao contato com os aerossóis.
Você, do futuro, que talvez não esteja entendendo ao que me refiro, saiba que o contágio pelo novo coronavírus poderia ocorrer de variadas maneiras  ̶  pelo ar, contato com objetos infectados e pelo toque. A depender do futuro em que esteja, o uso de roupas impermeáveis ou objetos similares já é uma realidade para uma parcela da população, a se considerar que as diferenças sociais não terão sido superadas, como aliás, é uma característica intimamente ligada às sociedades humanas e a brasileira, em particular.
No atual contexto, o uso de máscara e a incorporação de medidas preventivas quanto à Covid-19  ̶  doença ocasionada pelo novo coronavírus ̶ tornou-se questão política. Não quanto ao modo de como implantá-las, mas se faz para negá-las. O grupo político então no poder do governo federal, comandado por um celerado com ideais ditatoriais de viés fascistas-milicianas, associa sua implementação a reivindicações ligadas à esquerda, como se viver em condições sanitárias ideais, com a coordenação de um programa público de saúde se confunda com ela. Contudo, nem sei qual tipo de sociedade acabou por se desenvolver. Se me lê no futuro, é bem capaz que a Democracia tenha sobrevivido.
O fato de nós, brasileiros, termos nos metido nesta armadilha da Democracia, mesclada à nossa pobreza estrutural ̶ social, ideológica e econômica ̶ talvez tenha sido inevitável. De certa maneira, foi a consequência de ações equivocadas por parte de quem estava no poder anteriormente, que não percebia a História como resultado da lei de causa e efeito, em que os tempos ̶ passado e futuro ̶ se misturam no presente, com repercussões dramáticas. Porém, nada mudou e a atual direção caminha no mesmo sentido equivocado.
O vento e a chuva do dia anterior mexeram na posição da antena da TV Digital, impossibilitando que eu assistisse os canais da rede aberta. Quando quis acompanhar o noticiário da tarde, não consegui. Para verificar se a Internet estava ativa, fui aos aplicativos da programação. Estavam funcionando. Entre eles, a Netflix, que me sugeria Dark, com 99% de aceitação.
Bem, naquele momento, não tinha nada a fazer e cliquei no primeiro episódio da primeira temporada. Nesse mesmo dia, assisti aos 7 primeiros. Da tarde até a noite, a assistência foi acompanhada por uma anacrônica festinha dada pelos vizinhos da casa da frente, com músicas de todos os tempos ̶ de Disco dos anos 70 a Sertanejo atual (para nós). Como tenho certa capacidade de abstenção (um tanto criticada por quem convive comigo), só percebia o tempo presente entre um intervalo e outro. Como a série é (ou foi) popular entre os expectadores que a assistiu estará a entender este texto certamente imperfeito, mas que carrega conjecturas que pareceria sem nexo, antes.
Ainda que a série tenha investido no improvável uso de máquinas e vórtices ou “buracos de minhoca” tempo-espaciais para que os efeitos sejam vividos por seus participantes, o enredo faz com que reflitamos em como as nossas ações, por menor que sejam, repercutem ao longo de nossa vida, criando círculos concêntricos tal qual uma pedra jogada no lago existencial. Cavernas que aludem ao Mito de Platão e ao Fio de Ariadne, constantes do riquíssimo repositório das antigas filosofia e cultura gregas, entre outras citações (das que percebi até agora) introduz fortemente a viagem do passado humano em nosso presente, alterando o nosso futuro passado. Como budista iniciático (faz uns 40 anos), busco viver o presente. Aliás, como propõe o título de um dos episódios da primeira temporada, sei que tudo acontece agora.

Sobre O Jogo*

 

Sobre O Jogo
Esquema Tático Do País

O jogo está assim – terminado o primeiro tempo, estamos perdendo por 5X0! Jogamos em casa, carregamos a mística da camisa tradicionalmente vencedora, porém a preparação já havia demonstrado que só isso não bastaria para alcançarmos a vitória. Ainda assim, torcemos com fervor! Enquanto começamos a apontar os culpados – os jogadores, a comissão técnica, comandada por um gerentão ultrapassado, a cúpula diretiva. Mas aqueles que os colocaram para jogar se dizem isentos de responsabilidade.

Apesar de muitos acreditarem que o jogo começa apenas quando é dado o ponta pé inicial em campo, tudo é uma questão de preparação prévia. O jogo se inicia antes. A ação em campo exterioriza uma condição em que, além do talento natural, tática bem concebida, uma estrutura bem montada, com saúde aprimorada, boas instalações, educação, ética e cultura desenvolvidas colaboram para obtermos um bom resultado. Sim, nas atividades esportivas, assim como na vida comum, devemos confiar que as nossas qualidades sejam aprimoradas, para estarmos preparados para jogar.

Estranhamente, ao longo do tempo, a nossa precariedade ajudou a desenvolvermos um estilo de jogo único, em se sobressaíam as mudanças de direção, os malabarismos, os dribles – chapéus, canetadas, bicicletas, pedaladas – para enganar os adversários. Identificamos como heróis os que sãos primorosamente aquinhoados com a capacidade de inventar saídas mirabolantes para certos lances. Quase os identificamos como mágicos. É na magia que nos fiamos para resolver vários problemas, dentro e fora de campo. Normalmente, é comum encontrarmos aqueles que jogam para a torcida, sem efeito positivo no resultado final. Quando é escassa a safra de vários bons jogadores, chegamos a acreditar em possíveis Salvadores da Pátria para chegarmos à vitória, mas eis que esses supostamente foras-de-série são pessoas e pessoas, como sabemos, são falíveis.

Na virada para o segundo tempo, ainda há quem acredite que tudo possa mudar, mesmo estando o time a perder sob todos os critérios de avaliação, incluindo o placar adverso. Esse fator chega a ser irrelevante para quem torce e distorce. Na segunda etapa, mesmo fazendo um golzinho, sofremos mais dois. Perdemos nos dois tempos. Enfim, perdemos o jogo todo. Na verdade, perdemos um tempo enorme…

*Texto de 2014