BEDA / Quase Quebrado*

Quem disse que lavar roupa não é perigoso? Na quinta-feira, lavei roupa e a água que resultou da lavagem utilizei para lavar o chão da varanda do Boiler Laje, escadas e churrasqueira. Após terminar uma parte, lá estou eu de chinelão, distraído, a descer, quando piso errado na escada escorregadia e de uma queda vou ao chão, quatro metros abaixo, batendo costas, pernas e braços até o final dos degraus. Não bati a cabeça porque o judô praticado na infância sempre me ajudou a protegê-la em todas as muitas quedas desde então. Acudiu-me uma cavalheira, a Lívia e um cavalheiro, Pablo, seu namorado. Pensei que houvesse apenas escoriações superficiais, mas à noite não consegui dormir direito devido às dores que surgiram depois. Hoje, estou melhor. Mas tive que reviver na boca da Tânia, da Romy e da Ingrid, além da Lívia, poucas e boas. Acabei por me lembrar da minha mãe, Dona Madalena, que ralhava comigo todas as vezes que eu aparecia “quebrado” em casa por causa de carrinho de rolimã, patins ou futebol em campo de várzea ou quadra. Quase cheguei a confundir a dor aguda e passageira do corpo com a dor tênue e permanente da saudade. Se chorasse, talvez fosse mais pela última…

*Texto de Agosto de 2020

BEDA / Romy

Há 37 anos vinha à luz do dia a primogênita da Família Oliveira Ortega. Quando chegou depois de um processo longo e doloroso de trabalho de parto, acabou por se decidir pela cirurgia para retirá-la do útero da Tânia. Quando a vi pela primeira vez, estava envolvida em panos simples, assim como era simples a estrutura da Maternidade da Casa Verde, já fechada. A Tânia, experiente na sua profissão de Enfermeira, pediu que eu a retirasse de lá urgentemente. Na época, ela trabalhava no Albert Einstein, então diante da enorme discrepância de qualidade de atendimento, ela não viu alternativa senão ir embora, com 16 horas de operada. Em casa, percebemos com o tempo que a icterícia que eventualmente ocorre com recém-nascidos, não declinava. Foi o início de nossa saga para entender o que ocorria. O resto é história de alguém que redefiniu a minha vida e a de muitas outras pessoas. A 12 de Agosto de 1989, o grande sucesso musical no Brasil era “Bem Que Se Quis”, de Marisa Monte.

por mais que eu quisesse ser feliz
nem saberia dizer como se daria
a trama que envolveria tanto amor e dor
a vida que medrava como flor
delicada
que deveria ser cuidada
todos os dias todas as horas
que orava que o sofrimento não se desse
que o seu corpo-flor sofresse
eu feito um jardineiro
em que doía o coração por não poder evitar
que o vento frio lhe arrebatasse
a pele o peito braços pernas cabeça
mas o espírito leonino persistia
a lhe conduzir o caminho
a lhe angariar simpatia
a trazer amizades e alegria
a agora mãe de Cora e Coralina
cuida de vidas dependentes
gatas que são vorazes por comida
assim como a mãe é pela vida
que a sagrada família perdure
que a alegria a cure em sua passagem
e que os momentos de felicidade
seja a marca de sua mensagem…

DIA DOS ENAMORADOS

Meu bem querer, distante como está (fisicamente), disponho da memória e da imaginação para lhe alcançar a pele ao toque de minha mão. Sei que pode parecer uma desculpa oportunista, mas fico a imaginar se consigo fazer com que saiba que eu a desejo para mim. Egoísmo? Sim! Quando queremos algo ou alguém, pensamos apenas no que isso possa oferecer de bom, de belo, de prazeroso, de transcendente para além do aqui e do agora. Mas o tempo passa e sofremos pela ausência mútua de nossos corpos se unindo, bocas se entretendo de volumes e reentrâncias, invadindo abismos ao som de frequências guturais.

Há namorados e os enamorados. Os primeiros se sentem eternos, mas passam. Os segundos apreciam a sensação de permanência dessa energia ao sentir o amor ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço. A lembrança é como se fosse a própria presença na ausência. A saudade é pungente, dói. Quando a matamos, renovávamos o seu poder. E sofremos. Lágrimas substituem o suor. A dor se faz onipresente como se fosse corroer nossos corações, por amarmos.

Qual seria a alternativa? Deixarmos de nos ver, de nos ter, de nos entregarmos? Ah, meu bem querer, neste dia comercial, prefiro ser aquele que é enamorado de você, um sentimento de permanência, sinónimo de estabilidade. O que é uma contradição. Porque quem ama vive na corda bamba. Isso não é desejável, mas compõe a vivência de quem se apaixona. A paixão é explosiva e deixa um rastro de mortos pelo caminho. Só sobrevive quem a ultrapassa para entender que esse fogo queima, mas também nos regenera a alma encarnada. Estamos vivos e voltaremos a nos encontrar sentir peito contra o peito os corações a bater. As línguas a falarem a linguagem do amor.

Feliz Dia dos Enamorados!

Foto por Sergio Fdez em Pexels.com

17 / 02 / 2026 / O Carnaval Da Ingrid

Eu, meu neto Bambino no colo e a Ingrid junto à minha neta Maria e meu neto Faraó

Mais uma vez, estive trabalhando numa data que se conflituava com um dia importante para mim – o do nascimento da Ingrid. Desde pequena, demonstrava uma personalidade vibrante, a aquariana. Todos os anos, ela costuma sair em blocos em que desfila a sua personalidade vibrante e alegre. Mas não é uma alegria inconsequente, mas necessária. É quando ela combate o seu profundo mal-estar com o mundo e se entrega ao lado lúdico da vida. Foi durante um dia de Carnaval que ela viu um homem bem grande que lhe sorriu e foi ao seu encontro. Certa vez perguntei ao gigante como é que ele, do alto de seus dois metros de altura, vislumbrou a jovem mulher de um metro e sessenta no meio de tanta gente. Ao que ele respondeu: “Ela brilhava!”… Nunca duvidei.

Ela consegue reunir em torno de si amigas e amigos especiais, além de ser uma referência para as suas irmãs que a admiram e lhe amam. Dia 17 de Fevereiro caiu numa Terça-Feira de Carnaval. E é como num samba-enredo feliz que ela sublima a dor e sua história se desenvolve, apesar das mazelas às quais é obrigada a conhecer como advogada que luta por desvalidos e injustiçados. Se há um nome que possa ser dado a esse enredo é o de “A Pequena Que Se Agiganta” quando trabalha como defensora da dignidade humana.

Parabéns, filha querida!

09 / 12 / 2012 / Ausência Presente

de vez quando eu lembro de seus olhos furta-cor
muitas vezes eu a recordo sentindo dor
do corpo da alma do passado do presente do incerto futuro do amor
ao mesmo tempo elogiava o meu membro duro
que lhe trazia o prazer da fuga da vida fugaz enquanto mergulhava
no sentido do desejo puro
até que me disse sem pestanejar como se fosse vaticínio de cigana
que um dia tudo iria acabar quando decidi que era o momento
tempos depois revelou — você sabe que ainda poderia estarmos juntos
que a vida em equilíbrio precário devia ter seguido seu curso
que deveríamos estar no amando pelos cantos em pelo e pele
da cidade entre prédios e becos caminhos inusitados lugares
de esgares urros e gemidos onde todas vocês em si
se encontravam com todos os meus em mim
essa multidão ficou órfão de paixão num átimo
caminham a esmo em busca de outras bocas
em delírios sonhos e pensamentos
até perceberem que tentam voltar a se perder em nossas próprias bocas
nossos corpos nossos seres
e mesmo que na penumbra da luz indireta da tarde que esvai
é o que dizem a luz dos nossos olhares…

Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com