DIA DOS ENAMORADOS

Meu bem querer, distante como está (fisicamente), disponho da memória e da imaginação para lhe alcançar a pele ao toque de minha mão. Sei que pode parecer uma desculpa oportunista, mas fico a imaginar se consigo fazer com que saiba que eu a desejo para mim. Egoísmo? Sim! Quando queremos algo ou alguém, pensamos apenas no que isso possa oferecer de bom, de belo, de prazeroso, de transcendente para além do aqui e do agora. Mas o tempo passa e sofremos pela ausência mútua de nossos corpos se unindo, bocas se entretendo de volumes e reentrâncias, invadindo abismos ao som de frequências guturais.

Há namorados e os enamorados. Os primeiros se sentem eternos, mas passam. Os segundos apreciam a sensação de permanência dessa energia ao sentir o amor ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço. A lembrança é como se fosse a própria presença na ausência. A saudade é pungente, dói. Quando a matamos, renovávamos o seu poder. E sofremos. Lágrimas substituem o suor. A dor se faz onipresente como se fosse corroer nossos corações, por amarmos.

Qual seria a alternativa? Deixarmos de nos ver, de nos ter, de nos entregarmos? Ah, meu bem querer, neste dia comercial, prefiro ser aquele que é enamorado de você, um sentimento de permanência, sinónimo de estabilidade. O que é uma contradição. Porque quem ama vive na corda bamba. Isso não é desejável, mas compõe a vivência de quem se apaixona. A paixão é explosiva e deixa um rastro de mortos pelo caminho. Só sobrevive quem a ultrapassa para entender que esse fogo queima, mas também nos regenera a alma encarnada. Estamos vivos e voltaremos a nos encontrar sentir peito contra o peito os corações a bater. As línguas a falarem a linguagem do amor.

Feliz Dia dos Enamorados!

Foto por Sergio Fdez em Pexels.com

17 / 02 / 2026 / O Carnaval Da Ingrid

Eu, meu neto Bambino no colo e a Ingrid junto à minha neta Maria e meu neto Faraó

Mais uma vez, estive trabalhando numa data que se conflituava com um dia importante para mim – o do nascimento da Ingrid. Desde pequena, demonstrava uma personalidade vibrante, a aquariana. Todos os anos, ela costuma sair em blocos em que desfila a sua personalidade vibrante e alegre. Mas não é uma alegria inconsequente, mas necessária. É quando ela combate o seu profundo mal-estar com o mundo e se entrega ao lado lúdico da vida. Foi durante um dia de Carnaval que ela viu um homem bem grande que lhe sorriu e foi ao seu encontro. Certa vez perguntei ao gigante como é que ele, do alto de seus dois metros de altura, vislumbrou a jovem mulher de um metro e sessenta no meio de tanta gente. Ao que ele respondeu: “Ela brilhava!”… Nunca duvidei.

Ela consegue reunir em torno de si amigas e amigos especiais, além de ser uma referência para as suas irmãs que a admiram e lhe amam. Dia 17 de Fevereiro caiu numa Terça-Feira de Carnaval. E é como num samba-enredo feliz que ela sublima a dor e sua história se desenvolve, apesar das mazelas às quais é obrigada a conhecer como advogada que luta por desvalidos e injustiçados. Se há um nome que possa ser dado a esse enredo é o de “A Pequena Que Se Agiganta” quando trabalha como defensora da dignidade humana.

Parabéns, filha querida!

09 / 12 / 2012 / Ausência Presente

de vez quando eu lembro de seus olhos furta-cor
muitas vezes eu a recordo sentindo dor
do corpo da alma do passado do presente do incerto futuro do amor
ao mesmo tempo elogiava o meu membro duro
que lhe trazia o prazer da fuga da vida fugaz enquanto mergulhava
no sentido do desejo puro
até que me disse sem pestanejar como se fosse vaticínio de cigana
que um dia tudo iria acabar quando decidi que era o momento
tempos depois revelou — você sabe que ainda poderia estarmos juntos
que a vida em equilíbrio precário devia ter seguido seu curso
que deveríamos estar no amando pelos cantos em pelo e pele
da cidade entre prédios e becos caminhos inusitados lugares
de esgares urros e gemidos onde todas vocês em si
se encontravam com todos os meus em mim
essa multidão ficou órfão de paixão num átimo
caminham a esmo em busca de outras bocas
em delírios sonhos e pensamentos
até perceberem que tentam voltar a se perder em nossas próprias bocas
nossos corpos nossos seres
e mesmo que na penumbra da luz indireta da tarde que esvai
é o que dizem a luz dos nossos olhares…

Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com

03 / 12 / 2025 / Carta Ao Velho Que Sempre Fui

Eu nasci velho. Banguela, meu sorriso de menino era de quem suspeitava que as coisas aconteceriam como se fosse uma reprise. Eu, quando comecei a crescer, encarava como se vivesse um dèjá-vu diário. Não era incomum que me imaginasse revisitando situações já vividas. Quando novo, já havia decidido não me casar. Não queria participar de um jogo de cartas marcadas, mesmo porque nunca fui bom em carteado. Aliás, pouco aprendi a viver e a jogar. Cheguei à vida adulta totalmente despreparado para viver sob as regras de um homem maduro. Aliás, quando me vejo em situações de adulto mais velho, como aquele que estou a me tornar, percebo que sou mais sensato do que os que jogam sob as regras do Sistema. A medida é não passar por cima das pessoas para me sentir melhor, como é comum acontecer frequentemente. Tanto no trânsito, quanto nos espaços que frequento como cidadão. Ser homem deveria ser uma vantagem neste mundo, mas como me envergonho muitas vezes de pertencer a esse gênero, tento passar despercebido como tal. É claro que sendo alguém que não se permite deixar de ver as degradações de nosso País, protesto, escrevo textos, converso a respeito, me coloco como antípoda desse processo degradante sob o qual vivemos. Mesmo que soubesse que dificilmente as circunstâncias mudassem radicalmente — estudante de História desde sempre — já tive esperança de que mudássemos de rumo, mas o animal humano não consegue deixar de ser autodestrutivo. É bem possível que essa capacidade nos leve à extinção. O pior é carregar conosco todos os outros seres que compartilham o planeta como residência. Eu sei que podemos desejar nos matar. Já passeei por essa trilha. Sei o quanto podemos visitar a escuridão e o desejo (mas já não mais) de cessar tanta dor.

Registro de 2019, com a presença de Cheetara.

30 / 11 / 2025 / Blogvember / Desci As Escadas Do Dia

… tentei buscar um pouco de refrigério para a minha dor…
tantas vezes me vejo magoado por ser como sou
queria infringir minhas próprias regras
matar a imagem que fazem de mim e que assumi como se fosse eu
mas estou preso à minha própria mentira
de tal maneira que não saberia viver sem ela a me dar suporte
como se reconhecesse o meu fracasso em não ser aquele que me reconhecessem
aquele que não sou que sou
desalentado
recebo a luz que se esvai por trás do horizonte na esperança
de me deitar e sonhar comigo não sendo…
amanhã…

Participação: Lunna Guedes