Poética

A Poesia tem um poder circular
Sanguínea, etérea, cíclica, cinética
Mística e concreta, razão e paixão
Inspiradora, desestabilizadora, transcendente
Nos mata e nos faz viver o amor
E, do prazer, o gozo, a dor
O preenchimento e o vazio
Nos exalta e nos falta
É e, em sendo, deixa de ser
Para no fim encontrar sentido
Sem direção, livre ou rimada
No começo de tudo, no nada…

Foto por Yaroslav Shuraev em Pexels.com

Quando Perdemos*

A bola veio de encontro ao craque. Poderia ter sido rebatida para o outro lado do campo, mas, como se diz, a bola parece procurar “quem sabe”. Muito provavelmente tem mais a haver com a noção de ocupação de espaço que os quem sabe têm do jogo. Era preciso pará-lo de qualquer forma!… E assim foi feito! O menino bom de bola, desde cedo acostumado a enfrentar os parrudos zagueiros dos times adversários, utilizava o seu alto desenvolvimento do tônus muscular esquelético para escapar meio segundo antes das entradas maldosas vindas de frente, do lado e até de algumas mais furtivas, por trás. No entanto, a oportunidade, unida à rapidez, chegou zunindo “zunigando”, zás-trás, com força e má intenção, com o joelho apontado para as costas do alegre inimigo, certeiro como uma bala perdida que atinge um inocente em seu berço.

Por um instante, a dor fez com que a vítima perdesse o ar e que, pior, tivesse a plena sensação de que ali se encerrava um ciclo. Bem possivelmente, chegou a passar por sua mente que a função para qual nascera para exercer também se encerrava. Acostumado a ser visto e reverenciado por sua irreverência, saía do “campo de batalha” ferido e em prantos, colhido que foi pelo trem desgovernado e carregado dos vários matizes das dores físicas e mentais.

Este país que produz tipos tão diferentes quanto um franzino garoto do litoral ou um “Hulk” no interior brasileiro, tal e qual a personagem de um quadro de Portinari, e os reúnem em um mesmo time, agora tem que ver os seus filhos darem um pouco mais de si para alcançarem a vitória contra uma equipe mais equilibrada, estável e bem dirigida, representante de uma nação que é mais desenvolvida em todos os setores da atividade humana, da cultura ao esporte, da economia à política. Bem por isso, não prescinde de se fazer prevalecer também no futebol.

Se passarmos pelos alemães, e chegarmos à final, não seremos melhores que eles nos outros aspectos, mas nesse, pelo menos, poderemos arrogar superioridade. O rato rugirá mais alto do que o leão, Davi derrubará o Golias e mais um épico moderno se consumará. Esperemos…

*Texto de 4 de Julho de 2014

Posfácio

O texto acima foi feito no calor da hora, tendo os dados imediatos como referência. O tempo passou, há dez anos as circunstâncias eram contraditórias, visto que claramente houve superfaturamento nos custos na construção dos estádios – uma festa para políticos de ocasião – enquanto o povo festava a possibilidade de um hexacampeonato. A maioria das personagens permanece como protagonistas de novos escândalos e outros foram ultrapassados pelas novas condições do movimento cíclico da História.

Uma dessas personagens que diminuiu em conceito foi o protagonista da crônica. Enquanto evoluía em termos de ganhos financeiros mais decaiu em minha avaliação pessoal. Apesar de absolvê-lo inicialmente de algumas peripécias, não houve como deixar de perceber que o ser humano em questão não passava de um macho escroto, politicamente aliado à causas espúrias, metido em negociatas, amigo de estuprador que pagou a fiança. Alguns diriam que foi fiel ao amigo. Eu diria que ele ajudou a si mesmo a fugir de acusações como a que o amigo se envolveu.

O então governo Lula esteve no centro das acusações de desvio de verbas na construção dos estádios. Precisou haver uma ameaça de Golpe de Estado no horizonte para reabilitá-lo como figura política viável e, apesar de ter as críticas, tem realizado um trabalho razoável, dada as condições contrárias, já o Congresso Nacional está eivado de agentes do Reacionarismo. Continuamos perdendo, de uma forma ou de outra…

BEDA / Cadeados Invisíveis

“Nenhuma das chaves que possuía podia decifrar os segredos dos [invisíveis] cadeados”, por Flávia Côrtes, em As Estações

o que queremos nem sempre é o que queremos
muitos são desejos que queiramos que os queiramos
outros são quereres emprestados de gerações mortas
estamos vivos desejando nos libertarmos de tantas demandas
são fôrmas externas que nos modelam desde tempos imemoriais
violência contra os nossos corações imaturos
vá por esse caminho de destino conhecido ficará a salvo
me salvará de que?
se quero experimentar o caminho tortuoso da indecisão e do inesperado?
estabilidade sensaboria insensibilidade 
sem uma dor para chamar de minha?
perderá tempo oportunidades se perderão…
perdição é o que eu quero se não gosto do que espero
e o que esperam de mim…
há quem queira decifrar segredos de cadeados atados a ferrolhos pesados
quero o impossível decifrar códigos 
de  invisíveis cadeados de querências sem fim
ir pelas manhãs de cidades fantasmas
adentrar por portas sem batentes seguir por portais
para o outro lado de muitos mundos
invadir campos não explorados
e não cercados de horizontes marcados
lusco-fusco de meu olhar atravessado e profano
quando quero chegar não existe resiste
é o quanto desejo me aprofundar 
me aproximar do âmago
do nada redentor e definitivo
estarei morto e feliz a sentir que não tenho fronteira
apenas um estado de nenhuma beira…

Foto por Mayumi Maciel em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Insônia

eu tive um episódio de insônia
acordei às 4h da manhã
fiz exercício para voltar o sono
tomei um chá de mel gengibre cúrcuma
quem sabe um leão me domasse
comi um tomate para preencher o estômago
mergulhei no nada eclipse mental
acordado mas sem acordo com a realidade
estou retomando a consciência aos poucos…
à base de notícias de terremotos
assassinatos assaltos mortandade
pelo trânsito devemos continuar
a circular a performar produtivos estáveis
mergulhados em sangue e dor
os oceanos aquecidos águas-vivas
medusas mães-águas alforrecas
envenenam os corpos que invadem o reino marinho
muita chuva enchentes
seca intensa deserto assumindo a paisagem
sobreviverão os insetos
imortais depois de milhões de anos
crise respiratória aguda os vírus revivendo
o seu poder de nos colocar em nossos devidos lugares
seres passageiros ainda que anjos
ainda que bestas feras
seremos extirpados indiscriminadamente
porque a natureza não discrimina cor da pele
posição social financeira arrogância
suposta proeminência importância
eliminados enfim da equação
a terra voltará a brotar livre de nossa pulsão
de morte vazio desejo frustração…

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.


Fevereiros

QUARTA

2016. Quarta-feira de cinzas — que nome apropriado! Quase que automaticamente, os nossos olhos começam a devassar a realidade e perceber que o colorido evanescente das fantasias apenas escondia o concretismo do cinza… Ou, não! A esperança é de seja somente a típica sensação da ressaca, marca registrada de quem bebeu sonhos demais…

Hanna (à esquerda) & Marina

O PRAZER DA DOR

2021. Ubatuba. Qual o prazer de ser lido? Como escritor, só teria prazer se ou quando fosse, de alguma maneira, compreendido. E mesmo assim, resta saber se a minha palavra permanecerá na memória de quem me leu e/ou compreendeu o meu texto; se fez diferença de alguma forma ou tenha causado, ao menos, alguma passageira emoção — um sorriso ou uma lágrima. Eu diria que, como escritor, devo me desapegar de qualquer expectativa. O que já é um pouco de dor…

INDECÊNCIA

2021. Ubatuba. Hoje, o azul imperou durante a maior parte do dia. E o Sol, posto a nu ou desanuviado, queimou peles e pensamentos. De manhã e à tarde, no entanto, as nuvens o vestiram, deixando a temperatura menos indecente.

ANIMOTEL

2013. Santa Isabel. “Pela estrada afora, eu vou tão sozinho”… mas, caso eu esteja bem acompanhado, sempre haverá o Motel do Cowboy, na Via Dutra. Já imagino o barulho de esporas das botas dos cavaleiros, rivalizando com o relinchar dos cavalos. Logo depois, vim a me lembrar que os modernos cowboys perderam a graça e só devem chegar ao local montados em roncos de motocicletas e pick-ups robustas. Para passar o tempo, começo a pensar em um novo negócio no ramo da satisfação animal — o ANIMOTEL — em que poderão adentrar ao local quem estiver montado em cavalos. Nada impediria que dois amantes ou mais chegassem em um só, mas como sou defensor dos direitos dos bichos, não incentivaria tal prática. Para evitar especulações fora de propósito, a montaria (o cavalo) deverá ficar em um pasto reservado, usufruindo de boa alimentação e água. Viajei demais?…