Com o temporizador. Como contemporizar o tempo com o corpo e a mente? Como, quando muitas vezes a mente voa para além e o seu corpo começa a sentir o peso dos anos, retardando o seu passo? Como temporizar a dor, para que saibamos o seu tempo e lugar? Como continuar, quando em tantas oportunidades, devemos priorizar o compromisso marcado no tempo para depois apostarmos no dia em que teremos tempo para estarmos juntos de quem amamos? Ao final de tudo, creio que haja um temporizador universal que adia o tempo fatal para o nosso corpo, enquanto eterniza o nosso espírito — ele se chama amor…
Naquele momento, olhos nos olhos, nós nos surpreendemos amantes… Flor de lótus…
Corpos isolados que se fundem, tão unidos, que se confundem… Busca do âmago do outro em si, espraiando-se em fluídos…
Em um átimo, o mundo todo se aparta… nos devoramos e nos regurgitamos em um parto, com dor e prazer…
Para cada dia dos namorados inventado, existe aquele tempo verdadeiro em que tudo acontece em um instante… Que se faz presente para todo o sempre, amém!
casamento mulher grávida 5 meses eu branco ela rosa separados pais unidos na cerimônia espanha arrozal volta redonda são paulo leste norte família família meu norte primeira filha estranha sorte deixei trabalho cuidado constante fiquei parado ano e meio meia-lua no sangue da menina mais linda que já existiu corridas repentinas hospital queda hemoglobina intervenções cirurgias muitas vezes vaso oclusão quase para o coração dor… dor… dor… dor… dela minha nossa da mãe avós de quem ama com dor conviver sobreviver viver segunda filha alento alegria gordinha sorriso banguela espevitada indômita amada vida que segue que siga consigo melhorar melhor ar para respirar muito trabalho pesado estressado como previ ainda garoto nasce a terceira menininha quero carninha nossa miquinha brilhinho no olhar lindinha estava bem mal feliz infeliz sem saber o que quis o que diz corpo sofre frustração somatizado separação coluna cervical gastrite hemorragia intestino minha filha em crise pareci 6 de hemoglobina quase pereço não me importa destino amargo ressentido anjo torto revivo renasço outra vez luto permanente luto por alguns dos meus eus engordo feito porco 105 quilos tomo coca 2 litros misturo achacolatado açúcar me afogo docemente meu corpo desfigurado em silêncio desejo partir inflado exacerbado monstro nervoso insuportável transformado a minha secura sedento de morte hiperglicemia setecentos e um quarto termino internado u.t.i. um quarto renasço querendo transformação antes da extrema-unção busco melhorar emagrecido agradecido revisitar minhas prioridades ultrapassar minhas idades morrer não é ruim pior viver sem ter fim e não saber nada de mim.
*Poema de 2021
Imagem: Foto do casal, Tânia e eu, em 2009, aos 21 anos de casamento, dois anos após a crise hiperglicêmica.
mãe e três filhos desterrados 12 horas de viagem rumo à tríplice fronteira foz do iguaçu mais 6 para chegar ao marido fugitivo exilado posadas missiones argentina estava na casa sua mãe nossa vó dora ex-trabalhadora-do-sexo que deixava o pequeno na parte de fora não diga que sou sua mãe o filho do filho outro menino de cinco anos se lembra de altas palmeiras caminhos de terra mate quente amargo riram quando pediu açucarado convivência com o companheiro da avó militar aposentado homem de chapéu e bigode severo e reto noites estreladas sol forte minha mãe começando a fumar cigarro o amigo que nunca mais a abandonou ao contrário do homem com seus desmandos que a deixou só entre estranhos observando a nós crianças simples pobres alegres nadando nas águas do paraná ao lado frigorífico da cidade cheiro forte carne putrefata carcaças boiando na correnteza banhos de canequinha no quarto em tinas d’água morna esquentada com lenha melhor acostumar nosso banho seria assim por anos um dia voltamos todos sete anos entrei no grupo escolar falando espanhol usando poncho no inverno outros meninos rindo do esquisitinho chamado de orelhudo nunca esqueci meio do ano mudei de bairro de escola escrevi antes que me ensinassem li dois livros antes que a professora pedisse puxava água do poço cortava bofe que fedia comida para os muitos cães moía milho fazia quirela fiz xixi na cama até os oito pai vivia sumido perdia a paciência quando voltava briga entre irmãos por besteira chamar a atenção do senhor me jogou na parede tirou válvula da tv ninguém assiste nada planeta dos macacos nunca vi completo eu era o oitavo homem me sentia experimento cientista maluco desafiava a morte em duelos de florete fazia o z do zorro na cabeceira da cama homem aranha pendurado na beira da laje dormia no corredor acordávamos cedo 4 horas da manhã entrávamos por trás ônibus lotado ficava no motor olhando o motorista uniformizado quepe sapato lustrado mãos destras no câmbio longo com certeza seria motorista hoje nem sei ligar um carro passamos fome vendíamos seres a duras penas à espera das poedeiras ofertarem ovos para comer gostava de abacate com açúcar pãozinho cortado foguete para render bananas das bananeiras goiabas da goiabeira carregada de maribondos amava priscila nossa porquinha cor-de-rosa um dia sumiu por um tempo comemos melhor saído da prisão o senhor da casa nunca voltou para o leito da senhora minha mãe preferiu dormir no galpão do lixo dos objetos dispensados recolhidos nos jardins papéis metais plásticos nossa primeira bicicleta sem pneus um pé de patins aprendi a andar livros eu guardava dava prejuízo lia não trabalhava juntava discos comecei a ouvir bach na velha vitrola o patrão senhor meu pai brigava mas deixava o menino quieto que considerava inepto que amarrava suportes com barbante colava com cuspe no parque infantil mário de andrade eu macunaíma sem caráter formado até os doze na barra funda escola de viver amigos brigas esportes natação futebol um dia se matou professor querido na sala da diretoria depois de atirar na amante servidora que se salvou a culpei criança idiota se metendo em caso de adultos saí de lá para outra história viver meu bairro outra escola chance de mudar meu comportamento minhas violentas certezas outras companhias influências nasci pela segunda vez aos 13 cabeça cheia de tramas e visões através de meus quatro olhos recém adquiridos escrever minha dor preferida.
Poderia não comentar, mas não há como ficar isento nessa questão de assédio que tomou conta de nossas conversas deste ontem. Como sabe quem me conhece, tenho três filhas. Sempre tomei o máximo cuidado para não passar preceitos machistas, apesar de brincar com as possibilidades com a questão do sexismo. A Tânia, como muitos também sabem, é uma mulher ativa e consciente. Igualmente, mostrou através de seu exemplo, o quanto uma mulher pode se colocar como profissional e cidadã independente em nossa Sociedade que é, em vários aspectos, retrógrada.
É no âmbito familiar que vemos surgir o comportamento ultrapassado e incongruente do homem brasileiro que crê que a mulher está ali para servi-lo em todas as instâncias. No caso da moça que denunciou o caso de assédio de José Mayer sobre ela, Susllem Tonani, muitos especulam sobre a demora da denúncia. Na minha opinião, se deveu por vários motivos — a posição de poder do assediador em questão, a dúvida que surge entre o elogio puro e simples e a ação do avanço realizado, até o episódio que culminou com a decisão de levar adiante o caso, quando foi agredida verbalmente diante de colegas de trabalho — equipe técnica e outros atores.
O fato dela ter colocado a situação de forma aberta através da mídia eletrônica talvez tenha sido o recurso que encontrou porque, provavelmente, essa situação não é inédita. Ou somos ingênuos em acreditar que tenha sido o primeiro caso de assédio no âmbito de trabalho global e outros? Trabalho no meio e sei que o assédio não se dá apenas em uma direção, mas de forma inversa também, bem como de homens sobre homens e de mulheres sobre mulheres.
Então, vemos ultrapassar a situação de assédio sexista como o assédio que acontece por derivação de posições de influência — o moral —, que é, infelizmente, muito comum no ambiente de trabalho e, obviamente, familiar, na Sociedade brasileira. Dessa forma, devemos todos rever as nossas posições diante dessas circunstâncias específicas e perceber o quanto somos, muitas vezes, assediados e assediadores, em termos morais, raciais, sociais, etc. Caso investiguemos mais detidamente as relações pessoais em nossa sociedade, perceberemos o quanto devemos repensar as nossas atitudes cotidianas.