DIA DOS ENAMORADOS

Meu bem querer, distante como está (fisicamente), disponho da memória e da imaginação para lhe alcançar a pele ao toque de minha mão. Sei que pode parecer uma desculpa oportunista, mas fico a imaginar se consigo fazer com que saiba que eu a desejo para mim. Egoísmo? Sim! Quando queremos algo ou alguém, pensamos apenas no que isso possa oferecer de bom, de belo, de prazeroso, de transcendente para além do aqui e do agora. Mas o tempo passa e sofremos pela ausência mútua de nossos corpos se unindo, bocas se entretendo de volumes e reentrâncias, invadindo abismos ao som de frequências guturais.

Há namorados e os enamorados. Os primeiros se sentem eternos, mas passam. Os segundos apreciam a sensação de permanência dessa energia ao sentir o amor ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço. A lembrança é como se fosse a própria presença na ausência. A saudade é pungente, dói. Quando a matamos, renovávamos o seu poder. E sofremos. Lágrimas substituem o suor. A dor se faz onipresente como se fosse corroer nossos corações, por amarmos.

Qual seria a alternativa? Deixarmos de nos ver, de nos ter, de nos entregarmos? Ah, meu bem querer, neste dia comercial, prefiro ser aquele que é enamorado de você, um sentimento de permanência, sinónimo de estabilidade. O que é uma contradição. Porque quem ama vive na corda bamba. Isso não é desejável, mas compõe a vivência de quem se apaixona. A paixão é explosiva e deixa um rastro de mortos pelo caminho. Só sobrevive quem a ultrapassa para entender que esse fogo queima, mas também nos regenera a alma encarnada. Estamos vivos e voltaremos a nos encontrar sentir peito contra o peito os corações a bater. As línguas a falarem a linguagem do amor.

Feliz Dia dos Enamorados!

Foto por Sergio Fdez em Pexels.com

São Jorge

23 de Abril, hoje, é Dia de São Jorge, o santo que é representado, montado em seu cavalo, desferindo um golpe fatal contra o dragão da Maldade com a sua lança. Há vários outros soldados santificados pela fé em Cristo. Santos militares, ou “santos soldados”, são figuras que serviram em forças armadas (frequentemente no exército romano) e foram canonizados por sua fé e martírio. Os mais célebres, além de São Jorge (padroeiro dos soldados), são São Sebastião (protetor contra pestes), Santo Expedito (das causas urgentes), São Martinho de Tours e São Nuno Álvares Pereira, este, um estrategista português. 

Eu, um dia, quis ser “santo”. A minha luta era contra o egoísmo, a vaidade, a falta de autocontrole. Tirante esta última característica, que consegui ir removendo aos poucos, as outras também tenho conseguido minimizar. Quanto à vaidade, fui de um ponto ao outro. Descobri que, assim como todos nós, somos míseras bactérias que pululam este grão de areia que, ainda assim, é belo e é nosso lar. Busco transcender a realidade imediata, apesar de sofrer com os efeitos que o Capitalismo e seu maior defensor — uma besta fera feito um dragão — que se encastela ao norte do nosso continente – defende desferindo rajadas de fogo com a sua bocarra.

Eu, pessoalmente, sou contra a violência, mas há certos seres que vivem por ela e é bem capaz que, por ela tenham o seus CPFs cancelados — como se diz no Rio de Janeiro — que estabeleceu o Dia de São Jorge, feirado. E o Rio é, em suma, um lugar onde há as maiores discrepâncias sociais e o império do crime organizado divididos e conflitantes, além da Milícia, que conseguiu catapultar um político ligado a ela ao posto mais alto do País. Não é apenas um, mas vários dragões da Maldade.

Eu não discuto Fé. Muitas vezes, é o único estímulo para as pessoas continuarem a caminhar. Eu não tenho fé nem mesmo em mim. Sei que sou falho. Perfeito em minha imperfeição. Mas creio na Consciência Universal em que nós e vários outros bilhões de seres espalhados pelos Universos comungam a energia de ser e de serem múltiplos. Ainda que se possa caracterizar São Jorge como uma invenção da imaginação popular não deixa de delegar à sua figura o poder de existir. Porque a mente é um dado quase tão poderoso da realidade quanto a materialidade. Intervêm na convivência de tal forma que delegamos a ídolos de pés de barro poderes sobrenaturais e os elegemos para nos levar ao precipício ou alto da montanha.

Salve São Jorge!

Foto por Nino Sanger em Pexels.com