A Alma Encarnada

quando encontramos alguém
que a atenção nos chama
pode mesmo sem nos tocarmos
acender uma chama
arrepiar a pele
aquecer a alma
fazer brilhar os olhos
estando encarnados será
por sua linguagem física
que a atração espiritual
se dará
porque também exclama
através do desejo carnal
a possível confirmação
do amor em ação
sem medo
sem moderação
com entrega total…

Foto por Mariana Montrazi em Pexels.com

BEDA / Se Deus Quiser

“Se Deus quiser!” — ouvi pelo menos três vezes em pouco tempo. Fiquei a imaginar a que Deus essas pessoas se referem. Duas delas a proferiram olhando para o alto. O “Céu” supostamente é onde estaria o Paraíso e, nele, se sentaria um homem de imensas barbas num trono emitindo uma luz dourada. Eu já desacreditei há algum tempo nesse deus humanizado, feito Zeus, com sentimentos e inclinações humanas, como ira e sentimento de vingança. Desde os 16 anos fui me inclinando a “sentir” algo que escaparia a imagens bíblicas, de influência judaico-cristã. Percebi que as religiões ou filosofias orientais refletiam as minhas ideias mais conectadas à energia espiritual do que à materialidade.

No passado o Céu era interditado ao acesso humano. Com o advento dos veículos que nos levaram em direção às nuvens, passamos a perceber que a morada divina de fato passou a se estabelecer em lugar incógnito, a não ser para quem crê que tudo não passa de algo interpretativo. Para mim, em crendo na transcendência do espírito, os olhos físicos não alcançam a plenitude da energia cósmica. Todos nós, em se estabelecendo que a criação do Universo se deveu a uma explosão inicial (voluntária ou não) somos seres que, no mínimo fisicamente, temos uma origem comum. Em se considerando que desenvolvemos consciência sobre a vida e a vida sendo a medida que indica consciência de existirmos, estabelecemos um ciclo que se fundamenta na fluidez energética, em sua variabilidade universal.

Foto por Gyu00f6rgy Lakatos em Pexels.com

12 / 02 / 2025 / Grana*

*Há dez anos antes, escrevi:

“Apenas hoje, ao passar pela milésima vez, ou mais, por aquela esquina, foi que percebi a sequência de edificações ocupadas para diferentes finalidades — um estiloso motel, uma agência bancária e a unidade de uma igreja cristã. Pensei em fazer uma observação atilada de como aquele espaço expunha o poder das necessidades básicas dos sentidos, dos sentimentos humanos e do desejo de poder pelo poder, passando pela feição espiritual e ou educacional.

No entanto, uma faixa de “Aluga-se” na frente da entrada do prédio onde ficava a igreja, me demoveu momentaneamente de fazer um comentário de efeito moral. Ao final de tudo, niilistamente, não deixo de constatar que esta é uma cidade em que reza a grana e qualquer outra coisa vem a reboque.

Como já disse Caetano é “… a força da grana que ergue e destrói coisas belas…”. Caetano compreendeu bem o processo que permeia as relações em um lugar como Sampa, para usar um codinome que ele consagrou para esta cidade. Mesmo porque, quando mudou para cá nos finais dos Anos 60, veio justamente atrás da sobrevivência financeira e da divulgação de seu trabalho musical. A aparente contradição reside no fato do dinheiro que enquanto ergue belos monumentos, enterra a História — exemplo determinante da personalidade deste lugar.

Não tirei foto porque trata-se de instituições particulares, principalmente o banco, com o apelo de sua fachada. Mas a configuração é esta — um motel em estilo kitsch, como tem que ser, dividindo o muro com o banco, que divide o muro com a igreja batista que, junto com escola que mantinha, mudou de endereço — sexo, dinheiro e fé — ainda que pé quebrado…”.

Mã*

Mães, eu desejo a todas vocês um dia em que possam usufruir do amor de seus filhos, estejam por perto ou distantes, fisicamente, o que não talvez não importe tanto, principalmente porque mães e filhos apresentam uma conexão umbilical, literal, durante a gestação, e espiritual, sempre.

Não conheço nenhum vínculo tão íntimo quanto o de uma mãe e seu filho. De certa forma, para confessar um sentimento menor, eu invejo esse poder incrível que vocês, mulheres, detêm. Quando as minhas filhas reclamaram por não ter o dia exclusivamente voltado para homenagearem a Tânia, brinquei que elas só eram suas filhas porque um dia eu decidira ser pai e formar família. Foi apenas uma tentativa canhestra para caber nesse amplo sentimento de gratidão e benção.

Porém, sempre haverá um porém, essa ligação natural também passa por ser construída e, portanto, pode ser destruída quando emoções efervescentes vêm a tona, conflitando os relacionamentos bastante fortes entre dois seres que se amam, mesmo quando não querem admitir.

Afora isso, os filhos têm dificuldade em aceitar que as mães sejam, também, mulheres, que carregam sonhos pessoais que fogem da alçada circunscrita a eles, seus filhos. Segundo essa postura, mães separadas de seus pais não poderiam ter desejos, não deveriam querer arranjar namorados, não precisariam de outra pessoa ocupando os seus pensamentos ou ter ideias que não sejam voltadas exclusivamente para eles. Onde já se viu?

Se ela vier a conseguir vencer as resistências, tenderá buscar para si alguém que igualmente pareça ser um bom pai, uma concessão ao fato de ser mãe, além de mulher. Por tudo isso e por muito mais, ser mãe é sofrer com todas as contradições, por ser a maior, por ser a melhor, por ser a total, por ser a absoluta definição do amor.

A foto acima é de Maria Madalena Nuñez Y Nuñez Blanco Prieto Ortega, ao completar 77, em 2009. Ela nos deixaria fisicamente em fevereiro do ano seguinte.

*Texto de 2015. Essas definições de uma mãe, parte da minha experiência com a Dona Madalena. Atualmente, mesmo tendo passado apenas oito anos, mudei muito fortemente parte das minhas posturas. Principalmente quando vim a saber sobre episódios de trauma pós-parto em que a puérpera pode vir a sofrer, com sintomas de medo intenso, desamparo, perda de controle e horror, podendo rejeitar a seu bebê. Ou quando por circunstâncias evitáveis, mães prefiram fechar os olhos para os assédios sexuais sofridos por suas filhas ou abusos físicos e psicológicos por aos filhos perpetrados pelo novo companheiro.