Cauby Peixoto*

Cauby Peixoto, se apresentando no antigo salão social da S.E. Palmeiras, por ocasião do aniversário do clube, em 2005.

Grandioso. Estrela no palco. Protagonista na vida. Voz cristalina, mesmo com o corpo envelhecido e alquebrado. Donde suponho que a sua voz incrível não era daqui. De onde quer que ela tenha vindo, voltou para onde veio… A minha mãe brincava que poderia ter sido o meu pai… Por vários motivos, sabemos que seria impossível…

Mas Deus me deu a oportunidade de estar algumas vezes com ele, ouvindo-o de perto, através do meu trabalho. Uma de suas características era falar bem baixinho quando não cantava, tanto para se comunicar quanto para se fazer ouvir entre as canções. Na ocasião da foto acima, um dos espectadores reclamou que a sua fala estava quase inaudível, ao que respondeu que não era nossa culpa, mas porque ele tinha o costume de preservar a sua voz o máximo que pudesse, a não ser quando cantava. Para ouvi-lo no camarim, tínhamos que nos aproximar bastante devido a essa precaução.

Outro de seus costumes era o de chamar de “professor” a cada um dos colegas de trabalho – incluindo músicos e técnicos – equiparados num título de deferência. Educado e apesar de no final de sua carreira estar perdendo a audição, não saía fora do tom equilibrado. A minha admiração por ele crescia conforme o tempo o debilitava, ainda que mantivesse a excelência no canto. Provavelmente um artista de ouvido absoluto, num projeto do qual participei, observou discrepâncias nos arranjos que estavam sendo montados para os shows. Foi a única ocasião em que o vi se alterar um pouco, ainda que mantivesse a elegância.

Que seja bem recebido de volta às outras estrelas, ao brilho que tentava reproduzir em suas roupas. Obrigado por compartilhar conosco da sua magia, Cauby!

*Texto de 16 de Maio de 2016, por ocasião do passamento de Cauby Peixoto, um dia antes, aos 85 anos.

O Pancadão De Van Gogh*

Sentado numa cadeira na varanda, esperava o entardecer avançar sobre nós. Ansiava que nuvens, que até então não se faziam presentes, viessem a adornar o crepúsculo de final de outono. Sempre a provocar excitantes e variadas formas como pano de fundo que avivam a imaginação. Uma brisa fria me deixava desperto ainda que o Sol intenso me forçasse a fechar as pálpebras-cortinas do palco de 80% da minha percepção sensorial. Sobre elas, a luz dos olhos meus não competia, mas adivinhava o brilho daquela estrela que emprestava o calor gerador da vida na Terra.

Observar o entardecer era um ritual que repetia sempre que estava em casa, mas que consegui exportar para outros lugares sempre que o tempo e o horizonte aberto me permitissem presenciar o efeito da revolução terrestre que cotidiana e silenciosamente ocorre sem que os seres que se dizem inteligentes a sintam. Sapos, tubarões, viúvas negras, borboletas, abelhas, alces e elefantes, golfinhos e beija-flores a sabem por uma questão de sobrevivência. As aves, seres revolucionários, descendentes diretos dos senhores do planeta por milhões de anos os dinossauros a conhecem para poderem migrar de um ponto a outro do hemisfério ou até entre os hemisférios. Baleias, salmões e tartarugas a usam para encontrarem o lugar ancestral para procriarem. Resta a mim, como um mísero animal ignorante dessa sofisticada ciência, aplaudir os ocasos como mapas de percurso.

Como era sábado, outros rituais humanos menos silenciosos que o meu, principiavam. Para além do estímulo visual, a audição ganhava preponderância. O som de gêneros musicais diversos e seus praticantes forrozeiros, sambistas, sertanejos e funkeiros competiam para ver quem venceria uma batalha perdida. Era como se para se deslocarem da vida comum necessitassem de colossais massas sonoras para se transportarem. O Sol, tão distante quanto pode ser um astro-rei, se despregava de seu ponto ilusório até outro. Abstraído-encantado, me ausentava de onde estava, surdo para as brigas de casais, o molejo da morena, as descidas até o chão e arpejos de sanfoneiros verdadeira barafunda de acordes em desacordos.

Mal pude acreditar quando pela chegada discreta da nebulosidade e do vento alto que a dispersava, a visão do entardecer se transformou em obra impressionista, em que fios de cabelos luminosos vangoguiavam a paisagem. Por mais furioso que tivesse o volume sonoro, nada impedia que me sentisse embevecido pela Natureza a reproduzir na tela rota da Periferia de Sampa, pinceladas do triste e belo pintor holandês, ao ritmo do pancadão.

*Blogagem Coletiva 
Tema: o que faz brilhar seus olhos?

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso

Cantora Maior

ANGELINA

Uma das maiores cantoras deste planeta e, atualmente, minha preferida, tem 13 anos de idade, é norueguesa e costuma se apresentar liricamente descalça. Seu nome? Angelina Jordan. Sua curta carreira, no entanto, já ocupa mais da metade de sua vida. Ela se mostrou ao mundo aos 7 anos na edição da Norske Talenter 2014. Desde a sua primeira apresentação, todos ficaram embasbacados – juízes e público – devido a grandiosidade de sua voz especial em corpo pequeno. Sentenciaram: tratava-se de uma “old soul“, tanto pela maturidade vocal quanto pela escolha de repertório – standarts de jazz.

Em seu canal do Youtube, em que faz covers de várias canções, as interpretações de Angelina vem a demonstrar, ano a ano, seu crescimento musical. Tudo assombra nesse ser tão jovem – a talentosa utilização de melismas, vibratos e gradações tonais, variações de voz de cabeça e de peito, além de seu exímio controle vocal, alicerçado pelo desenvolvimento de seu timbre único, profundo. Além das peças jazzísticas tradicionais – Billie Holiday, Dinah Whashington, Nina Simone, Frank Sinatra, James Brown, sua preferência desde o início – começaram a ganhar espaço interpretações de canções pops mais atuais, de Lana Del Rey, Whitney Houston, Amy Winehouse, Rihanna, John Legend a Adele, entre outros. O toque refinado no tratamento de suas versões trouxe frescor e maior sofisticação a elas. A única vez que nos foi dado ver perda de controle total sobre sua emissão vocal foi na homenagem a seu avô, com “You Were Always On My Mind”, bem no finalzinho da canção. Só os pouco sensíveis deixariam de se emocionar.

A menina Angelina Jordan Astar, aquinhoada de uma personalidade grandiosa de artista-referência, tal como foi Michael Jackson, chegou para ficar no panteão das grandes cantoras. Evidentemente, a não ser que mude tremendamente de estilo, ela não alcançará a penetração popular do Rei do Pop. Mas quem puder acompanhá-la no lançamento de suas incríveis interpretações, viverá o prazer sempre renovado na apreciação de uma música popular de qualidade. Entre as minhas buscas de suas interpretações, encontrei no Youtube a seleção feita no final de outubro de 2018 por Martin Cropper (https://www.youtube.com/watch?v=WhmLra5lAlk), ainda que seja de um e meio antes, mostra um pouco de sua trajetória. Algumas de suas faixas estão entre as melhores versões já feitas.

No início de janeiro, para a minha grata surpresa, Angelina se apresentou na edição 2020 do America’s Got Talent – Champions. Assim que entrou no palco, simpática e desenvolta, fiquei apreensivo por ela se apresentar diante de um público normalmente estimulado por pirotecnias vocais mais simples e efetivas. Respondeu às perguntas dos juízes com simplicidade, elogiou Simon Cowell – uma lenda, segundo ela – e foi se posicionar para a sua apresentação. Fiquei impressionado com a sua altura. Mesmo descalça, ombreava com os técnicos que ocupavam o palco na mise-en-scène improvisada-ensaiada na preparação do espaço. Minha expectativa era de que interpretasse um dos clássicos do jazz que a catapultaram ao mundo artístico.

À emissão das primeiras notas de Bohemian Rapsody, do Queen, percebeu-se que não ouviríamos algo comum. A nova versão de um dos maiores hits de todos os tempos iniciou-se por versos da metade da terceira estrofe. Angelina sopra-sussurra as palavras, a causar o efeito do ar a circular pelos ouvidos dos presentes:

“Anyway the wind blows
Doesn’t really matter to me
To me…”

Ainda a nos acostumar com a estranheza estilística inicial, em vez do tradicional piano da gravação original, um plangente violão nos encaminha para os próximos e cortantes versos, entoados com a voz “jogada para trás” de Angelina, ao contrário da voz aberta, bela e límpida de Fred Mercury:

“Too late, my time has come
Sends shivers down my spine
Body’s aching all the time
Goodbye everybody, I’ve got to go
Gotta leave you all behind
And face the trut”

Neste momento, Angelina sobe o tom para alcançar a dimensão do desespero:

Mama, oh!
I don’t want to die
But sometimes wish
I’d never been born at al”…

Em seguida, volta à calma aparente de quem está conformado com o crime que sabemos que cometeu, pela versão original, cantando apenas a parte final dos versos que mostravam a luta interna da alma da personagem, atormentada por visões dantescas:

“Oh baby, can’t do this to me baby
Just gotta get out
Just gotta get right outta here”

O encerramento se dá com os mesmos versos originais. Angelina entoa lindamente a segunda linha da estrofe, trazendo extrema leveza à certeza de que nada realmente importa, afinal:

“Nothing really matters
Anyone can see
Nothing really matters
Nothing really matters to me”…

Os cortes realizados na letra original, necessários para fazer a longa Bohemian Rapsody caber no formato da apresentação para o programa – um minuto e meio – em vez de prejudicá-la, acabou por expor a dor excruciante da personagem que decidiu se matar. Os versos escolhidos para a versão de Angelina acabou por me convencer que o homem a quem matou foi ele mesmo, ao contrário do que eu supunha até então pela quarta estrofe: “Mama, just killed a man / Put a gun against his head / Pulled my trigger, now he’s dead / Mama, life had just begun / But now I’ve gone and thrown it all away” – trecho ausente na canção de Angelina.

Ao final da apresentação, o público – que acompanhou sua apresentação entre “uaus”, silêncios e luzes de celulares acionados – aplaudiu de pé e ovacionou a menina-cantora-maior. Os quatro analistas teceram elogios rasgados, incluindo o temido Simon Cowell. Apenas faço o reparo ao que ele disse quando sinalizou que a versão de Angelina tinha a marca da “simplicidade”. Atrás do que parece simples, de fato se esconde um trabalho meticuloso na escolha do que cantar e como cantar, dando valor de obra-prima a uma versão de Bohemian Rapsody que ganhará outros intérpretes. Heidi Klum a elegeu para o Golden Buzzer, dando direito de ir direto para a Final do concurso/reality show.

Para quem não a conhecia, surgia uma nova estrela no firmamento. Para quem a acompanha desde os 7 anos, como eu, fã de programas de calouros do mundo todo, além de vídeos musicais desde garoto, era a confirmação de um talento especial. Que ao conhecer o que é tradicional tem maiores condições de inovar. Que a exposição que venha a sofrer com a continuação do programa, de grande audiência nos Estados Unidos e visto no planeta todo, seja encarada com a devida maturidade e a simplicidade que tem a caracterizado.

Apresentação de Angelina Jordan no America’s Got Talent – Champions 2020:

https://www.youtube.com/watch?v=VPuAl7ux7VY

https://www.youtube.com/watch?v=rn6nkX0h6Xw

Canal no Youtube:

https://www.youtube.com/channel/UC1Pwa4nFvIPbtYVLcBGDpjA