BEDA / Quase Sem Querer

Quase Sem Querer

Eu estava a caminho do meu trabalho, quando ouvi “Quase Sem Querer”, do Legião Urbana. Talvez passe das duas centenas a quantidade de vezes que a ouvi. Cheguei a cantar essa música para um afeto antigo em pleno ônibus na volta da faculdade pelos anos 80. Gostava da letra, apreciava a canção e a sinceridade do Renato Russo ao entoá-la.

No entanto, por uma dessas circunstâncias estranhas, no momento que a ouvi outro dia, o texto dela me fulminou com um raio. Muito do que era dito ali se encaixava perfeitamente em minha vida como se colocasse as últimas peças de um enorme quebra-cabeças. Quase me envergonhei por ver ressurgir o arroubo juvenil de trinta anos antes.

O meu gosto musical mudou bastante e muitas vezes, por critérios de suposta evolução cultural, abrimos mão de apreciar coisas do passado para parecermos mais elitizados ou para não parecer que temos um “presente congelado”. Talvez seja triste que algo feito há décadas repercuta em mim de forma tão veemente, talvez seja saudável.

Em resumo, apenas sei que declaro a minha cíclica humanidade, pois “tenho andado distraído, impaciente e indeciso e ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente… Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo o mundo que eu não precisava provar nada prá ninguém? Me fiz em mil pedaços prá você juntar e queria sempre achar explicação para o que eu sentia. Como um anjo caído, fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo… Já não me preocupo se eu não sei porque, às vezes o que eu vejo, quase ninguém vê e eu sei que você sabe, quase sem querer, que eu vejo o mesmo que você… Tão correto e tão bonito. O infinito é realmente um dos deuses mais lindos. Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando e foi então que percebi como lhe quero tanto… Já não me preocupo se eu não sei porque, às vezes o que eu vejo quase ninguém vê e eu sei que você sabe quase sem querer que eu quero o mesmo que você…”.

BEDA | Lucy In The Sky With Diamonds

Foi anunciado há alguns anos. Ocorrida há aproximadamente três milhões e duzentos mil anos, foi supostamente encontrada a “causa mortis” de Lucy. Diante de tantas mortes de todos os dias, causadas por homens-bombas, de suicidas que decidem levar mulher e filhos juntos, pelo trânsito criminoso, balas perdidas e por crimes, em suas múltiplas facetas, cometidos por uma sociedade “organizada” – essa morte me comoveu especialmente. Ou melhor dizendo, a suposta causa de sua morte me emocionou: Lucy teria morrido ao cair de uma árvore…

Lucy, um exemplar de Australopthecus aferensis, teve o fóssil de seu esqueleto descoberto, em 1974. Ele mostraria a passagem do chipanzé para um hominídeo mais desenvolvido, que já caminhava ereto. Lucy recebeu esse nome pela influência da música “Lucy In The Sky With Diamonds”, dos The Beatles, que à época tocava no acampamento dos arqueólogos. Informação transversa, de alguma forma, passa pelos Beatles a evolução de nossa expressão como seres sociais…

Lucy teria caído porque já era um ser que frequentaria mais o chão do que as árvores e talvez não conseguisse ser tão desenvolta quanto os seus antecessores. Por essa explicação ser óbvia, muitos especialistas duvidam da versão. Eu já a suponho mais plausível por ser exatamente corriqueira, ao mesmo tempo em que decisiva, por vários motivos, entre os quais por Lucy ser uma fêmea.

Há vários anos, li que uma das diferenças morfológicas básicas entre machos e fêmeas de nossa espécie – a quantidade de pelos – menor nelas do que neles, se daria porque as fêmeas, mais ousadas, frequentaram as águas para pescar, durante milhares de anos antes dos homens – uma atividade eminentemente de colheita, então. Pode ser que sim, pode ser que não, como todos os estudos sobre a nossa evolução como espécie, mas minha intuição com relação às mulheres, me faz acreditar que tenha tudo a ver.

Apesar da História oficial não apresentar a mulher como protagonista (porque eminentemente escrita por homens), a minha observação pessoal demonstra cabalmente que passa pela mulher a chave mestra de nossa evolução como “gente”. As fraturas que causaram a morte de Lucy demonstrariam que ela, ao cair, tentou cair de pé e se projetar para frente… Foi uma queda muito à frente de seu tempo…

Participam do BEDA: Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari