Projeto Fotográfico 6 On 6 / Coleção “As Idades” / O Feitiço Do Tempo

Há quem defenda que o Tempo não existe, de fato. Tradicionalmente, poderia se dizer que Tempo é a duração dos fatos — o que determina os momentos, os períodos, as épocas, as horas, os dias, as semanas, os séculos, etc. Teria surgido a partir do Big Bang, momento em que o Tempo começou a correr, avançando sem parar desde então. A palavra Tempo pode ter vários significados diferentes, dependendo do contexto em que é empregada. Eu, pessoalmente, em contraposição a essa ideia de Tempo contínuo de Cronos, também deus das Estações, gosto da vertente dada por Kairós, seu filho, que propunha uma não-linearidade do Tempo, o valorizando a vivência do momento oportuno. Teorias mais ousadas propõe que o Tempo caminharia em duas direções contrárias, como na mitologia da Roma Antiga, em que Janus, deus dos começos e fins, é geralmente descrito como um homem com duas faces olhando em direções opostas. Além das teorias baseadas na Física tradicional, através de experimentos matemáticos em Física Quântica foram realizadas simulações de como o Tempo funcionaria nessa dinâmica — sem usar a gravidade —, mostrando que o “Tempo Quântico” pode ser tão bizarro quanto os demais fenômenos na escala das partículas atômicas. Isso pode ser relevante para futuras tecnologias. Computadores quânticos que tirem proveito dessa “ordem temporal quântica” para executar operações poderão superar os dispositivos que operem usando apenas sequências fixas. Eu, pessoalmente, sem me ater a teorias de como o meu corpo se desgasta a cada tic-tac do relógio, a duras penas tenho conseguido viver o Presente que creio ser o único Tempo que importa. Há pouco Tempo, quando me desloquei para o Futuro, passei por uma crise pesada que quase me fez sucumbir. Porém, estando vivo, neste momento e lugar, estou festejando a minha história pessoal através do Passado, o que é sempre uma maneira de viajar no Tempo, ao mesmo Tempo que tento decifrar o seu feitiço.

Eu e meu neto, Bambino.

Aos 60 (2021)

Eu sou um homem às portas dos 60 anos, que completarei no libriano 9 de outubro próximo. “Casado, três filhas, tenho cultivado uma proverbial barba branca na tentativa de abrigar um aspecto mais maduro do que a minha alma juvenil (imatura) deixa entrever. A minha imagem veterana tem sido auxiliada pelo desenvolvimento de uma voz mais grave, graças ao envelhecimento das cordas vocais. Assim, como os olhos, pelos (que caem ou embranquecem), pele e outros órgãos que definham, certos aspectos da passagem do tempo físico (rotações em torno do sol) nos transformam gradativamente em outras pessoas ao longo da vida. Efeito do feitiço do Tempo. Somos os mesmos, mas outros. O que não muda é algo a que chamo de energia primordial — uma identidade pessoal — que não envelhece, transcende o Tempo e me acompanha até que venha a me desvencilhar do corpo que a carrega. A minha principal atividade como Obdulio é me procurar, me encontrar e me perder. Descobri dentro de mim lugares inacessíveis. Muitas vezes, quando chego perto de alcançá-los, desisto. Eu me sinto bem em me desdobrar em mistérios… Ou talvez seja apenas covardia. Enquanto não chega o esquecimento na dissolução de moléculas na revolução atômica da morte”.

Identidade (1967)

“Esta foto, tirada provavelmente aos seis anos, foi feita por ocasião da primeira carteirinha de identidade. A minha mãe era muito ciosa com relação aos registros sociais. Na verdade, tinha um medo, que se pelava, de me perder por aí…”. Identidade percebi que não fica restrita a um documento. Perpassa por tantas vertentes e variantes que apenas intimamente podemos saber quem somos… se formos totalmente honestos conosco ou tivermos discernimento e coragem para tal.

Ciclos da águas…

Água (2014)

“Esta foto pode parecer de suprema ousadia e talvez, até, politicamente incorreta, mas não se preocupem, esse banho durou apenas cinco minutos. Sempre disse que o maior recurso do Brasil era a água. Eu me penitencio de, mesmo sabendo disso, não ter tido muitas das vezes os cuidados necessários para economizar esse bem preciosíssimo. Agora que vivemos a pior estiagem dos últimos cem anos na região Sudeste, se bem que ainda mantendo vários hábitos impensáveis em alguns lugares realmente assolados por secas severas, como tomar um banho por dia, pelo menos, é imprescindível que aprendamos a lidar com a água de maneira a valorizar cada gota”. Passados sete anos, nossos administradores preferiram não acreditar no planejamento. Afinal, são tantos recursos disponíveis que ninguém notaria se, como num curso de rio, tiverem sido desviados para destinos ignorados que não a precaução com a seca há muito Tempo prevista.

Riponga (1999)

“Durante muito tempo adotei um perfil riponga, para a tristeza da Tânia, que não sei como aguentava o visual daquele cara desgrenhado. Do meu lado, a gordinha Ingrid, com cara de quem sempre estava disposta a aprontar”. Nessa imagem, visto uma camiseta que utilizava como uniforme do baile de Carnaval ao qual provavelmente iria fazer mais tarde.

No Outono de minha vida…

Outono (2021)

“Outono de 2021, no outono de minha vida. Mas ainda que as minhas folhas caiam, ainda posso dizer que espero ultrapassar o Inverno e alcançar a Primavera, mais uma vez. O que não será mais possível para centenas de milhares de pessoas neste País que nega direito à vida. O pior é que haja tantos palhaços que prefiram ver o circo pegar fogo, quando não são eles mesmos a acender o fósforo. O que realmente espero, além de sobreviver é que, nada mais, nada menos, venham a perceber o mal que ajudaram a propagar e sofram o pior dos arrependimentos”.

Aos dois, a dois…

Aos dois, a dois… (1963)

“Eu, então com dois anos e meio e minha irmã, Marisol, com menos de um. Desde então, já apreciava a bola”. A família morava na região central de São Paulo, no Largo do Arouche, e mamãe nos levava às praças arborizadas e bem cuidadas de então — República, da Luz, Princesa Isabel, entre outras. Passados quase sessenta anos, o movimento do Tempo “renovou” as orientações e vivemos um ciclo de declínio institucional. Isso, muito devido ao que viria a acontecer logo depois — o Golpe Militar de 1964 — que atrasou o nosso desenvolvimento nas práticas participativas e valorização do bem público como coletivo. O meu irmão caçula, Humberto, nasceria por volta de seis meses à frente, enquanto nosso pai passaria a ser perseguido por suas ideias pelo Regime de Exceção.

A Última Carta

“Meu amor,

foi muito bom reencontrá-la após tanto tempo afastados. Essa pandemia matou tanta gente… sobrevivemos fisicamente, mas acho que o que tivemos parece ter sido contaminado por algum vírus oportunista. Seria o da distância, o da palavra mal entendida, o do ciúme por termos ficado em casa com os nossos companheiros?

Duas semanas após voltarmos a trabalhar juntos presencialmente, eu a percebi lacônica, esquiva, tentando não ficar no mesmo lugar que eu. No refeitório, eu a vejo sorridente, falante, trocando palavras com amigas e colegas de trabalho. Sequer olha para mim… Eu me sinto quase se tivesse exalando o odor dos mendigos. E da maneira que tento chamar a sua atenção, não deixo de me sentir como um por mendigar um tostão de seu olhar por cima da máscara na chegada e na saída.

Tantos anos na empresa, se lembra como nos conhecemos? Você, na época era uma das secretárias do DP e me deu toda a atenção possível. Eu me senti distinguido, especial, mas nunca imaginaria que tivesse me visto de outra forma até conversamos sobre como desejávamos crescer na profissão, sobre os estudos e ambições. Quantas vezes eu quis estar a sós com você até aquele dia em que deu uma carona… Ao me deixar no Metrô, você me deu um beijo no rosto. Fiquei como um garoto que ganhou uma bola de futebol no Natal. Quer dizer, eu me senti dessa maneira porque você sabe como adoro futebol. Eu fiquei tão feliz!

Em vez de um e-mail — afinal nem tinha um computador na época — eu deixei uma carta no seu porta-luvas depois de outra carona. Sabia que punha ali a chave do apartamento e que a veria quando a pegasse. Nessa carta eu falava da minha devoção e de como a sua presença me afetava. Como eu a queria mais do que uma amiga e colega. Que o que eu sentia era muito maior do que o simples desejo de somente tê-la em meus braços. Na carta revelava como me sentia inseguro por não ser correspondido. Que estava mal por querê-la tanto apesar de sermos casados com outras pessoas. Que imaginava um futuro para nós dois juntos… mesmo sabendo que fosse quase impossível! Sabia que estava agindo como um garoto inexperiente, mas me permiti ser sincero e franco.

E foi isso que a cativou. Foi o que disse no dia seguinte. O mesmo da nossa primeira vez. E de quando nos apaixonamos intensamente. Quantas vezes conversamos sobre os nossos filhos, nos aconselhando mutualmente até em relação aos companheiros. Oferecendo palavras de consolo quando da morte de parentes ou doença nas famílias. E o sexo incrível que parecia ser sempre como na primeira vez. Depois de sete anos juntos, a pandemia nos separou. Não tínhamos mais desculpas para os nossos encontros, já que o trabalho havia se tornado apenas virtual. Aumentou a demanda pela atenção de nossos companheiros. Hotéis e restaurantes fechados. A preocupação para não contaminarmos a nós e às nossas famílias. As mensagens cada vez mais escassas…

Eu estou sofrendo muito, meu amor! Não suporto mais encontrá-la na empresa sem receber um olhar de reconhecimento. A sensação que eu tenho é de ser um cão sem dono. E não gosto nem um pouco da ideia de ser somente um colega de trabalho, tendo ciúme de cada homem com quem conversa. Estou deixando a empresa, deixando a sua vida. Já enviei uma carta de demissão ao Sr. Travis. Não se preocupe. Ficarei bem. Vou para outro Estado. A sua atitude me ajudou a decidir. Há um mês eu recebi uma proposta para dirigir a filial de outra empresa na mesma área de atuação que a nossa… Quer dizer, não é mais minha…

Você sempre disse que namorou bastante até se casar e que ficou amiga de todos os seus “ex”… Não serei um deles, não quero ser mais do que um amiguinho! Se não tem coragem de terminar definitivamente, eu tenho! Com muita dor! Esta é a segunda e a última carta que lhe escrevo. Você foi o grande amor da minha vida!

Adeus!”

B.E.D.A. / Vovô Viu O Avião A Voar*

Após alguns dias seguidos de trabalho intenso, com poucas horas dormidas, eu estava em um estado de torpor que transitava entre a realidade e o sonho. As imagens em minha volta se sucediam como quadros oníricos, maravilhosamente ajudados por um amanhecer roseado do décimo mês do ano. Este Outubro, especialmente, estava mais libriano do que o habitual, em sua característica mais incômoda: indeciso. A Primavera a espalhar pólens e luzes difusas concorria para que tudo rompesse em possibilidades de ser estados passageiros.

Mentalmente, estava a brincar com os dados visuais que se apresentavam ao meu redor: asfalto, prédios, árvores, céu, carros, cores, vento, nuvens… e o Sol nascente… De carona no veículo, como sempre (pois não dirijo), sentia os objetos a me atravessarem enquanto passava por eles. Antes de uma faixa de segurança, parado no sinal vermelho, um avião cruzou o meu olhar, quilômetros acima, em voo para algum lugar… Escrevi no meu caderninho mental: “Vovô viu o avião a voar…”. Era apenas um jogo de palavras, uma aliteração em “V”, como muitas que fazia, na maioria das vezes sem sentido, mas que me divertia.

Em algumas ocasiões, levo a sério algumas das frases que se formam a esmo. Fico a especular o que poderiam significar subjetivamente. Analisei aquela formação especificamente e me dei conta que estando na idade em que muitos de meus contemporâneos são avós, eu não o era. Brinco frequentemente com as minhas filhas sobre essa possiblidade, contudo, oficialmente, não levo sequer em consideração que isso venha a acontecer tão cedo. Mais radicalmente, muitas vezes especulo que talvez isso nunca aconteça… “Vovô viu o avião a voar…”. O meu irmão, de certa forma, já poderia ser considerado avô, já que acabou de criar os filhos pequenos de sua primeira esposa e dois dos três deles já geraram herdeiros. Porém a prestar atenção ao trânsito em terra, condutor que era do nosso transporte, não foi ele a ter visto o avião.

Certamente, eu me referia a mim como sendo um avô de netos que viajavam de carona na imaginação da minha existência imponderável (e aparentemente sem sentido). Mais o tanto desse fluxo oral silencioso me despertou do estado quase catatônico. A conversa comigo injetou certo ânimo amargo. Especulei…  será que — bem lá no fundo — eu acredite que a minha vida apenas apresentaria algum sentido se eu testemunhasse os meus genes passarem adiante?

Ao me referir ao Humberto como um avó, não levei em consideração que sua filha consanguínea, gerada em seu primeiro casamento, perfilava com as suas primas, minhas filhas, não especulam que, para se sentirem mulheres completas, não precisam gerar uma prole e constituir uma família tradicional. Todas foram criadas para que não adotassem os parâmetros sociais patriarcais como sendo seus. Se um dia as minhas filhas vierem a me dar netos, será porque quiseram. E o farão por elas, não por mim. São independentes o suficiente para optarem por quaisquer caminhos, cada vez mais longe da cartilha ditada por nossa sociedade.

Ao me dirigir (ou estar sendo dirigido) para a minha casa, aproveitei a minha personalidade libriana e decidi virar o disco, para usar um termo antigo (lembrem-se, tenho idade para ser avô). Percebi que os rumos da minha vida estavam abertos em direção e sentidos. Isso era bom em mais de um sentido. Objetivamente, a própria contingência de poder ver, um dia, nascerem pessoinhas ligadas a mim por laços genéticos não deveria considerar particularmente importante. Ou, por outro lado, deveria considerar tão importante quanto qualquer nascimento de qualquer criatura existente no mundo. Na significação que tal acontecimento representa de precioso por fazer parte da grande aventura humana. Pensei na beleza e não apenas na porção acre que é estar presente neste mundo em Outubro de 2016, de Primavera oscilante, libriana, em que algum vovô, que não eu, deverá a estar ver, em algum lugar, aviões a voar… os apontando para seus netos.

*Texto de 2016. Atualmente sou avô de Domitila, filha da Romy; do Bambino, da Ingrid e de Lola, da Lívia. Todos, seres peludos de quatro patas.

Participam do B.E.D.A.:
Cláudia Leonardi
Adrian Aneli
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Mariana Gouveia
Darlene Regina

O Velho

O Velho e o Belo

Ainda tenho chama, mas fiquei velho. Estou com a família desde o seu surgimento, quando o casal ainda morava em outra casa. Há mais de trinta anos. Passadas essas mais de três décadas, não os condeno por me deixarem de lado. Primeiro, falhei em uma ou duas das minhas capacidades. Em outra função importante, o meu rendimento diminuiu. Perdi pedaços. Em nossa sociedade, valemos o quanto rendemos para os outros e podemos devolver o que investem em nós. Há pais que fazem isso com os filhos. Acham importante que lhes sejam ensinadas as regras impostas pelo Mercado. Porque ser útil ao Sistema é o que lhes conferirá valor como pessoas.

Acho que tentaram buscar quem me curasse. Aproveitariam para me deixar mais apto, porém não encontraram quem fizesse o trabalho. Foi o que ouvi dizer, mas não descarto que a atração por alguém mais novo que fosse lustroso, bonito, moderno e de chama mais brilhante tenha pesado para que optassem por ele. Assim que a decisão foi tomada, passou um filme em minha frente. As crianças crescendo, as conversas na cozinha, as comidas que ajudei a fazer, os bolos, pães e assados que produzi. Os sorrisos que inspirei. A intimidade de gente que me tinha quase como um confidente. Em várias ocasiões, sobre mim deixaram cair algumas lágrimas. Sei que sentirão minha falta. Talvez, saudade. Fiz parte de fatos, situações, momentos que estão registrados nas fotos-memórias pessoais e físicas.

No sábado, chegou a hora de desconectar minha comunicação com o fornecimento do gás. Fui retirado do lugar no qual permaneci por quase trinta anos, desde que mudamos para cá. Fui deixado no lado de fora, no quintal. Não pude ver o Belo ser colocado no meu antigo nicho. Ainda cheguei a ouvir que há planos de melhorar aquele espaço para torná-lo mais acolhedor e prático, fazendo jus ao novo ocupante. Se aprendi algo com os seres humanos, é que fazem o que é melhor para eles, sem se preocuparem com detalhes menores. É quase natural que descartem algo que não cumpra adequadamente o que foi criado para cumprir. Como aquecer, cozinhar, ferver… Simbolicamente, pode se dizer que eu, um velho fogão, fui tratado como gente…