#Blogvember / Tempo Presente

“Enrolo em laços e fitas a linha do tempo presente”, por
Nirlei Maria Oliveira, em palavr(Ar)

Dona Generosa afastou-se um pouco para me ver nos olhos. Estava cada vez mais impressionado com a profundidade de seu olhar. Eu me senti um tanto intimidado, como se ela pudesse ler os meus pensamentos. Voltou a encostar a sua cabeça no meu peito, ouvindo o meu coração acelerado.

– Ele ainda está aqui… – disse.

Convidou-me para entrar pela porta de sua casa simples, mas estranhamente majestosa. A cozinha ficava logo na entrada, perfumada de bolo de fubá e café. Ela, ao me ver salivar, perguntou se aceitava um pedaço de um e uma xícara de outra dádiva de vida. Sorri que sim. Desviei o olhar para o lado e vi uma moça que amamentava uma criança sentada num sofá do que parecia ser uma sala contígua. Pedi desculpas, mas a jovem sorriu e disse que não havia problema. Completou que a neném, uma menininha com olhos de jabuticaba, a assaltava de uma em uma hora, gulosa que era.

Ao contrário do que aconteceria antes, mesmo sendo uma moça muito bonita, eu não encarei a cena como algo para além do que era. Ela se comportava de maneira tão natural naquela circunstância, que me identifiquei com aquele ambiente como se tivesse vivido nele a minha vida toda. Agir sem malícia ou segundas intenções, fazia com que eu me sentisse bem comigo mesmo. Passei a ter certeza de que o jovem Geraldo, filho da dona da casa, morto aos 22 anos, era um rapaz muito especial. E que seu coração, que agora batia no meu peito, me tornava uma pessoa melhor. Não completamente, porque chegava a invejá-lo por sua mãe, sua mulher, sua casa e sua filha…

Apenas para confirmar, perguntei a Dona Generosa se sabia quem eu era.

– Eu estive no hospital ao saber que você receberia o coração do Geraldo. Pelo menos, isso… Orei durante toda a intervenção cirúrgica. Quando soube que tinha dado tudo certo, fui embora.

Mais uma situação que me fez perceber a natureza ímpar daquele ser iluminado. Olhei de lado, enquanto a moça recolhia uma das mamas intumescidas de leite que acabara de alimentar a pequenina neta da anfitriã. Perguntei o seu nome.

– Meu nome é Sarah. E esta é Viola… – apontando para o pequeno ser humano que agora dormia profundamente.

– Tem seis meses. Geraldo pode vê-la antes de partir. Começou a trabalhar mais para poder nos dar o máximo que pudesse. Preferia que estivesse conosco…

Sarah emoldurou um sorriso melancólico e seus olhos se tornaram uma piscina onde eu mergulharia de tão translúcida quanto as águas das praias onde passava os meus melhores momentos. Quebrou o silêncio momentâneo com a frase que me fez apaixonar por ela completamente:

– Que bom que o senhor nos trouxe um pouco dele para nós…

Aquele “senhor” saindo de sua boca, me fez sentir um tanto desconfortável. Chegara aos 40 anos com um corpo de 60, mas o coração era de 20 – o do seu amor, Geraldo. O sentimento que passei a ter por Sarah era algo mais evoluído. Ela, aos 20 anos, parecia ter a maturidade de uma mulher experiente e não duvidava disso. Por ser preta, viver onde vivia, em condições que antes eu consideraria precária, apesar de rica em referências valiosas, devia tê-la temperado feito aço no fogo.

Perguntei para Dona Generosa se poderia vir mais vezes. Que ela me fez sentir em casa e tão bem quanto não chegava a me lembrar dessa sensação. Aliás, voltando para o Passado, não me lembrava de estar nesse estado de contentamento como naquele momento. Queria, como num pergaminho precioso, “enrolar em laços e fitas a linha do tempo Presente“. Ela respondeu que a casa era minha. Que voltasse quando quisesse. 

Ao me despedir, o meu lado empresarial, acostumado a projetar as suas ações, já havia traçado todo o percurso que faria para “limpar” a minha biografia, Eu me separaria da dupla Carla & Djanira, lhes daria uma pensão generosa para que ficassem longe de mim. Promoveria algumas ações na empresa que tornasse o ambiente de trabalho menos pesado – uma creche para as crianças e outra para os pets, uma cafeteria a preços promocionais, local para descanso nos recessos dos períodos de trabalho. E, certamente, tentaria ajudar, sem tentar ser muito invasivo, Dona Generosa, Sarah e Violinha.

Sabia que, apesar da falta de condições materiais, pareceria ofensivo que eu considerasse que não vivessem bem. Ao contrário, por mim me mudaria, junto com a Petúnia para aquela casa menor que a minha sala de estar. O meu senso de proteção foi aguçado de tal maneira que finalmente percebi a importância da família – a criação de um elo de amor, proteção, confiança e uma casa para qual tivesse vontade de voltar. Finalmente, eu sentia estar me tornando um homem.

Participam: Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes / Roseli Pedroso

#Blogvember / Caixa De Joias

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Caminhando para o lado de dentro de Mariana Gouveia, leio – “Guardo-te na caixa dos segredos como se joia fosse… espio-te com lupas microscópicas”. Percebi o quanto essa frase se adequa ao meu comportamento contigo. Eu te preservei do mundo, como se fosse somente minha. Assim como tu faz parte do grande segredo que preservo do olhar mundano. Fiquei imaginando o quanto, mesmo sem nos conhecer, quem escreve pode nos alcançar em nossa intimidade.

Eu te vi crescer, perscrutei tuas jornadas, amizades, estudos, amores, teu desenvolvimento rumo à identidade livre de preconceitos. Eu te protegi de ações que te impediriam de ser quem quisesse ser caso ficasse sob o jugo da família de teu pai. Quando fugi da casa-prisão na qual queria nos guardar, lutei por teu futuro, por poder caminhar por tuas pernas, seguir tuas prioridades.

Quando neste ano lutamos juntas pelo bem do País, cantando, dançando, chorando para livrá-lo de mais quatro anos de um desgoverno a desviar de rotas sociais que nós ambas nos identificamos, soube que fiz o certo em deixar-te distante daqueles que estão do outro lado do muro do Apartheid que querem nos manter. Entre eles, teu pai. Fugi do Estado, mudei de identidade, trabalhei muito, me mantive discreta, te eduquei para ser livre, independente, franca, sincera, participativa, íntegra, amiga fiel, mas sei que é tua essa preciosa personalidade de grande mulher que acredita na igualdade na diversidade. Como é linda tua natureza pessoal!

Maria, esta pequena carta apenas lerás quando eu me for. Espero que entenda ao conhecer a tua origem e do quanto te amei para te guardar longe de tanto mal, da face horrível do ser humano dessa classe que se acha superior somente por ter mais dinheiro.

Um cheiro, meu amor!

Tua mãe, Mariana!

Participam: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins

Livre Pensador*

Alexandre, O Pequeno (resgatado na rua) e eu…

Sou franciscano. Porém, não sou católico. Tenho certeza que São Francisco me permite essa rebeldia. Ele mesmo se rebelou contra o que era imposto como regramentos que impedissem viver o que o seu coração mandava vivenciar. Homem do mundo, foi transformado pelas experiências do mundo. A violência, a fome, a precariedade da vida, todas essas facetas vividas enquanto servia em uma das guerras de ocasião, o transformaram. Ele começou a se conectar consigo mesmo, a se abrir para as coisas tangíveis e intangíveis, a ouvir vozes interiores e exteriores – expressões para quais normalmente fechamos os sentidos d’alma.

Ele teve coragem para empreender a viagem mais árdua, que quando se inicia, não há volta – ser pequeno. Um dia, pensei em seguir o seu caminho. Tentei seguir os mandamentos da Igreja para tal percurso. Cheguei a visitar um seminário franciscano que me influenciou de maneira decisiva. Gostei do ambiente, dos estudantes, dos objetivos propostos, mas… ainda mantinha dúvidas de qual sentido seguir. Lá mesmo, em um canto dos muitos corredores do prédio estava uma maquete que mostrava os vários caminhos para chegar a Deus. Um desses caminhos era a formação de uma família. Eu tinha 26 anos e desde os 16 havia enveredado profundamente por uma religiosidade que não respeitava limites. Estudei o Cristianismo, o Maometismo, o Hinduísmo, o Budismo, as demais filosofias orientais, as crenças africanas e tudo mais que dissesse respeito à transcendência do espírito. Construí uma crença amalgamada que só fazia sentido para mim. O que fizesse o meu coração bater mais forte eu me identificava. Percebi que a Verdade tem muitas facetas, tal qual um diamante que reflete uma luminância diferente dependendo da forma que a luz o toca.

Naquela altura da minha vida, eu estava dividido entre a vida monástica e o conhecimento do mundo que havia rejeitado até então – a familiar. Sabia que enfrentaria grandes obstáculos para manter o controle sobre a minha sanidade ao escolher tanto um quanto outro caminho. Hoje, depois de estabelecer uma profissão, conhecer a minha mulher, Tânia; conceber as minhas três filhas – Romy, Ingrid e Lívia –; construir uma casa, cuidar de cães, passarinhos, tartarugas, porquinhos da Índia e plantas – formei um lar. É um desafio constante manter o equilíbrio entre tantas demandas pessoais e profissionais, mas creio que tenho caminhado cada vez mais para dentro de mim e para fora do meu próprio corpo. É como voltar da guerra todos os dias e me reformular. Sei que sou, fundamentalmente, um franciscano em meu procedimento. Desde que ouvi o chamado de Francisco de Assis, nunca deixarei de ser, idealmente, um frade menor…

*Texto de 2016

Dente De Leite

De 1961, aos 61…

Fazia cerca de quatro anos que não ia ao dentista. Considerando o tempo fracionado em antes e depois da Pandemia, dois anos sem comparecer ao lugar onde já sofri muito. Mas não me lembro das dores que senti, então é como se eu fosse testemunhar algo que aconteceu com outra pessoa. Assim como me esqueço das dores de minhas unhas do pé encravadas (hoje, domadas), dores de cabeça (chatas, mas relevadas), de estômago (uma delas se tornou uma gastrite hemorrágica), contusões no futebol.

Aliás, parece que joguei futebol em outra vida. Parei quando os meus contemporâneos deixaram de jogar ou de me chamar para as peladas. Nós finais de semana, normalmente estava em atividades profissionais e nem sempre podia estar presente. Ainda sonho que jogo futebol, quando normalmente não consigo chutar, correr ou sequer fazer um passe correto. São quase pesadelos se eu não percebesse a tempo que fosse sonho e forçasse acordar para não sofrer mais. Tenho por mim que fomos “criados” – nós, seres humanos – para sermos felizes, tomando a mim mesmo como exemplo. A memória claudicante ajuda…

O incrível é que carrego uma melancolia da qual não quero me desfazer. Além de me martirizar por coisas que não posso controlar. Eu me pego muitas vezes surpreendido por circunstâncias que, de tão óbvias, até crianças percebem de antemão. Uma forma de ingenuidade doentia. Tento controlar minhas palavras e ações para que não diga ou faça algo que acabe por ferir alguém, mas acontece. E como dizia a minha mãe, o “Inferno está cheio de bem-intencionados”.

Outra faceta de meu comportamento é começar por um assunto e desmembrá-los por outros tantos. Tenho outras várias distorções de comportamento. Uma delas é de não avaliar ou julgar ninguém de antemão. Ainda que dê muito valor à minha intuição. Por presunção ou desejo, cada ser vivente que observo considero que tenha uma história para contar. Antes que possíveis personagens, são pessoas que merecem consideração como tais. Não importando o status aparente que carregam. Bem sabemos que fatores exteriores e aparência não definem caráter de quem quer que seja.

Estava contando que fui à dentista. Na avaliação feita pela Drª. Ana, além do dente quebrado no fundo de meu “bocão” (um siso, que decidi retirar), ela voltou a mencionar o meu dente de leite. Sim, vindo à luz em 1961, às 2h manhã de uma segunda-feira, portanto, completando hoje 61 anos fora do útero de Dona Madalena, carrego um firme e forte dente de leite, logo à frente da minha arcada dentária. Ao comentar sobre ele, aduzo que morrerá comigo. Como disse, costumo viajar por temas supostamente simples e comecei a especular se não seria eu a morrer com ele. Sei que os dentes e ossos resistem muito mais tempo materialmente, calcificados e sem vida.

Os dentes de leite ou decíduos fazem parte da primeira dentição e decididamente “nascem para cair”. A função é ocupar espaço na boca e ajudar a criança nas primeiras mastigações. Começam a cair por volta dos 6 anos de idade, ou seja, o meu dente de leite de estimação resiste há dez vezes mais anos do que o normal. A sua composição é menos mineralizada do que os dentes permanentes. Deveria não suportar estar em minha funérea arcada dentária por muito mais tempo. Isso, se não fosse a minha pretensão ser cremado. Mas como não estarei consciente para me auto incinerar e nem pretendo fazer uso do suicídio pelo fogo, talvez me façam juntar o meu corpo ao do meu pai (só dessa maneira para estar ao seu lado) no jazigo da família.

Para quem ache estranho a falar de morte de maneira tão natural é porque sei que sendo a medida real da natureza humana, a morte torna a vida minimamente suportável e intensamente misteriosa. Para quem versa sobre a existência como eu, não faço segredo do quanto a vida é um presente em que o Presente deva ser vivido com toda a força, apesar do Passado nos trazer surpresas todos os dias. Desejo viver plenamente meu último quarto de vida. O Futuro é hoje.

A Cabeleira

Eu e meu irmão, Humberto, em Matão, no início dos 80′.

Sempre fui uma pessoa passadista. Desde garoto, gostava de viajar por tempos idos, buscando e encontrando a minha identidade em outras épocas. Isso não me impedia que fosse para um futuro imaginado. H.G. Wells, Monteiro Lobato e Júlio Verne, entre outros, além de filmes de ficção científica, me descolocavam para outros lugares e idades imaginados.

Lendo muito, visitei versões de Grécias, Romas, Pérsias e Egitos. Decidi fazer o curso de História, ao mesmo tempo que era atraído por Filosofia, Psicologia e Sociedade. Definitivamente, eu era um sujeito de Humanas, ainda que os números me fascinassem. Apenas porque me eram incompreensíveis. Embora, perfeitos per si só.

O fato é que quase nunca estava no Presente e no mesmo Espaço do meu corpo. Ausente das pessoas, passeava distraído da minha própria presença, numa espécie de alienação que me custou lembranças apenas resgatáveis por imagens e relatos de terceiros. Como nesta foto em que estamos, meu irmão e eu, na praça central de Matão, para onde fomos para rever terras que foram da família adotiva de meu pai, no início dos Anos 80.

Os meus cabelos desgrenhados tentavam tanto refletir os ecos cada vez mais distantes do movimento Power Flower, como denotava a influência do movimento black. Eu era atraído pela Soul Music e o R&B norte-americanos, bem como pelo samba-rock, uma vertente brasileira do Funk de James Brown, que também apreciava.  Chegava a usar garfos para pentear os meus fios, assim como no banho, os lavava com sabão de coco, baixava a cabeça e deixava a água cair para os deixar encaracolados.

Porém, outra utilidade da cabelereira era me proteger. Sentia-me normalmente desambientado e em contrapartida não fazia nenhuma questão de me entrosar. O que o futebol com os amigos e colegas de classe contrapunha para que não fosse uma situação mais grave. Ligado à espiritualidade oriental, o meu desejo sempre foi o de transcender em vida. Um erro, já que a minha evidente inexperiência se transformou em profunda inaptidão para a vida prática. Mas talvez por minha aparência alternativa, chamava a atenção. Os meus sempiternos óculos ajudavam a bloquear olhares que o manto peludo deixava apenas entrever.

Para evitar possíveis gozações, mantinha uma postura marrenta e um tanto distante. Enfim, um rapaz esquisito que amava as mulheres tanto quanto fazia questão de mantê-las afastadas. Sentia-me inseguro quanto ao que dizer e quando falava alguma coisa, receava que fosse inadequado por não usar o jargão cotidiano da turma. Afinal, Machado de Assis era o meu escritor favorito e volta e meia utilizava termos que os olhares denunciavam incompreensão ou estranhamento jocoso. Que fosse considerado estranho era menos doloroso do que me acharem doido ou, pior, causasse dó.

Consegui ultrapassar todas essas barreiras erguidas por mim mesmo e chego até aqui podendo versar sobre essa época em que estava sempre por um fio em minha sanidade. Não no sentido de loucura, mas de saúde mental mais prosaica – ansiedade – que descobri que tinha desde pequeno, além de “crises existenciais” seguidas por saber que não conseguiria me contrapor ao Sistema. Quando decidi abandonar o projeto de me tornar Frei Franciscano, empreendi o caminho de cumprir o destino de pai de família, microempreendedor e, finalmente, escritor. Pertenço ao Sistema ao qual sempre defenestrei, mas sei que com amor tudo pode ser diferente.