Projeto Fotográfico 6 On 6 / Olhares Invisíveis

Quando olhamos para algo, o objeto de atenção desconhece quem o observa, se tivesse consciência dessa observação, não saberia identificar de onde parte o olhar, invisível a ela. É comum acontecer de nós mesmos sermos o alvo de olhares aos quais não percebemos de quem parte. Por isso, eu me sinto sendo vigiado o tempo todo. Como se fosse o centro da atenção daqueles que nos circundam. O que talvez faça com que precisemos parecer que sejamos seres normais e ajamos com a parcimônia de quem é julgado pelo que faz ou não faz. Esses olhares invisíveis nos perseguem, ainda que não exista ninguém por perto. Nesse caso, talvez acreditemos que olhos supra-humanos estejam atentos aos nossos movimentos. Será?

Em meu quintal vive um casal de Bem-Te-Vis. São ariscos como devem ser num espaço de cães atentos a qualquer movimento. Meus olhos, invisíveis a eles, capturou um deles. Está preso na imagem que não mostra a sua real exuberância de quem tem asas para irromper o ar quando desejar.

Na volta de um dos eventos que a Ortega Luz & Som realizou encontramos a noite enovada, mostrando um ambiente que anoitecia feito uma paisagem de filme “noir”. Meus olhos assistiam ao entorno como se vivesse uma história em que a qualquer momento um crime se revelaria aos olhos da noite.

Os ser humano tenta o tempo todo deixar marcas por onde passa. Nós nos consideramos superiores a todos os outros residentes do planeta. Mas não é incomum que nossos companheiros de maneira involuntária (ou não?) se permitam mostrar as suas assinaturas pelos caminhos. O que não passou despercebido pelo meu olhar invisível.

É muito interessante reparar certas cenas em que o meu olhar invisível encontra referências a sinais de que somos descerebrados. Decerto, não precisamos assim de tantas referências para vender algo que nos coloque em nossos devidos lugares. Somos roupas, fantasias que caminham por aí…

Além de sermos destruidores de meio ambientes, nós expomos referências aos seres que matamos demonstrando porque o matamos — são lindos e poderosos. Pura inveja, suponho…

Meus olhos são invisíveis à Lua. Ela fica nos observando em nossa pequenez, apesar de já termos a invadido antes. Resta-nos vê-la com saudade de nossa ignorância que a transformou em deusa. Então, ela era mais poderosa em nossa imaginação. Sua luz emprestada a veste de realeza em noite retinta.


Participam:
Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Silvana Lopes

13 / 04 / 2025 / BEDA / Em Busca Da Fantasia*

CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA

Desde garoto, fantasiava. Em determinado momento, comecei a colocar esses arroubos excessivos da imaginação em papeis amarrotados com tocos de lápis e canetas usadas. Nas redações escolares, as minhas professoras-leitoras me incentivavam a continuar a escrever. Mas cria que fossem incentivos costumeiros. Fora as tarefas, escrevia por compulsão ou necessidade textos que não mostrava a ninguém. O meu primeiro ouvinte foi o meu irmão, para quem lia histórias aventureiras que abusava de seres excêntricos, recheados de sustos e finais inesperados. Ele adorava. Cem por cento de aprovação.

Aos 14 anos, comecei a ousar mostrar para outras pessoas o que criava e obtinha certa aceitação. No Segundo Grau — o antigo Colegial — em outra realidade de relações, ficava a poetizar a minha vivência, impulsionada pela imersão na religiosidade. Era comum eu versar sobre a luta entre o desejo sexual e a contestação de sua expressão. O casto experimentava fantasiar sobre o sexo, ao mesmo tempo que se sentia um transgressor que desrespeitava regras autoimpostas. O devaneio com requintes de extravagância transformava tudo em ficção, a realidade adivinhada pela imaginação. Conseguia, talvez por isso mesmo, alcançar a verdade circunstancial do momento, em lúcida loucura. O que constatei ao ler alguns desses escritos depois de algum tempo, já experiente. Eu me sentia como que encantado.

Compreendi que o que poderia chamar de instinto estrutural me dava ferramentas para que a fantasia ficasse bem perto da veracidade dos fatos. Os escritos internamente obedeciam a uma lógica de tal maneira que dificilmente deixava pontas soltas. Embriagado de ficção, me descuidei. Professava a empáfia dos autossuficientes e a realidade dos homens aproveitou a minha distração para me socar na boca do estômago. Fui a nocaute. Permaneci na lona, beijando a morte por alguns anos. Quando me levantei, o sonho parecia ter acabado. Ou se apartado de mim e atravessado uma porta que se fechou. Comecei a desejar reencontrar a capacidade de sonhar feito um poeta doido que perdeu seu amor pelo caminho. 

Sinto falta de fantasia. Uma espécie de senso para o fantástico que se diluiu na nebulosidade dos tempos que envelheceu a mão, endureceu as articulações e empoeirou a eloquência da minha fala. Falhei. E falho a todo instante que deixo de crer na ilusão. Grávido da realidade dos homens, sangro a parir nulidades. Luto para reaver o deslumbrante movimento de estar incompleto em saberes e existir pleno de intuições. Quanto mais me abstenho de sonhar, mais eu me sinto longe da verdade pessoal. Cresci inversamente, para baixo, abismado, enquanto caía. Não acredito em esperança e o presente é como se fosse um limbo. Seco. Se antes fosse úmido feito a vulva da Quimera…   

*Texto participante do Coletivo CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA, pela Scenarium Livros Artesanais

A Camisola

o descaso distancia as pessoas como se vivessem
em mundos diferentes
não quero que esse descaso me abrace
a ponto de viver longe de mim
quantas vezes não me surpreendo em me rever
diferente do que imagino ser?
se eu perdoo qualquer um ao se sentir impróprio
não devo me perdoar?
o que sinto é uma tremenda compaixão pela fraqueza
ou isso será capacidade de ser fiel à mim mesma?
para isso acontecer fiz um caminho penoso mas muito simples
não mentir para mim foi o primeiro passo
mas não deixo de desejar estar com outro
nele visto a fantasia como se nascesse com ela
a minha pele a lavo e a perfumo
estendo a camisola de seda que vestirei
leve como o ar que respiro
no quarto escuro
é quando vejo melhor abraço a minha fantasia
passearei com ela pela madrugada afora
a de hoje é de estar com dois
sei que farão o que me dará prazer
luminescentes vibram ao meu toque

separo três taças de vinho
levanto a camisola
e os deixo tocar as minhas reentrâncias
brinco com a possibilidade de me evitarem
de meu braço se distanciar a minha mão não tocar
o sino que me acordará para o gozo
quero fluir em rios de aventuras
meus brinquedos são melhores que homens
preocupados em serem dominadores
em troca de carinhos
eu era estuprada e fingia orgasmo
quase sempre

quase sempre
respondia com beijos desencarnados
salivados em seus paus desidratados
logo queria que fossem embora
que me deixassem só mais só
do que quando me encontravam
desisti de me entregar a estranhos seres
morfologicamente machos
instintivamente monstros
preferi me tornar só minha…

Foto por alirezamani wedding team em Pexels.com

BEDA / Eu-Falo

há momentos em que me desconfiguro
como ser pensante
passo a ser um animal que quer não ser
apenas agarrar parte de mim
me tornar tornado pelo toque
me satisfazer por inteiro em frêmito arrepio
arrancar galhos folhas troncos raízes árvores bosque
sem identidade pedaço de carne
seios em pele recobertos
corpo esponjoso antros cavernosos lado a lado
rios a se preencherem de sangue
vou por uma única mão
em direção ao prazer solo chão
sentido centro-periferia
todas as forças concentradas
fantasio a outra pessoa em intenção
ausência presente feito saudade dor
desejo de auto compensação
de proximidade consciência
da imensa distância entre mim e o sim
permaneço em êxtase suspenso
resisto à chegada do fim
pressão entre os dedos me agarro
em respiração profunda
permaneço corro
é quando por ele eu-falo
sou totalmente certeza  vigor anima
em movimentos cada vez mais rápidos
fibras retesadas veias intumescidas talo
rigidez da madeira troncos separados
imagino invadir a fenda do tempo-templo macio escuro
com a delicadeza de quem morre
tão livre e brevemente
feito vida e voo de borboleta
expulsando pelos canais condutores lágrimas
de quem chora um choro solitário…

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com

Texto participante do BEDA: Blog Every Day August

Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Bob F / Lunna Guedes / Suzana Martins / Cláudia Leonardi