A ACOLHEDORA

Mariana era uma mulher bonita e rica, devido ao patrimônio herdado do marido morto em acidente de avião. Era conhecida pela benemerência, doando recursos para projetos sociais. Particularmente, ela fazia a sua parte acolhendo moradores em condição de rua. Mas não qualquer um, apenas alguns escolhidos a dedo. Um deles, que chegou para ficar, foi Francisco, que atuava como uma espécie de secretário/faz-tudo nos últimos dez anos.

Mariana mora num dos mais icônicos edifícios da cidade – o Domus. A localização do seu apartamento possibilita que encontre alguns exemplares especiais para a sua coleção de sem-teto. Com passe livre para carregar corredores à dentro do Domus sujeitos desconhecidos, antes tem o cuidado de chegar ao seu prédio, transformados em homens apresentáveis. Promovia tanto um banho diferenciado no corpo quanto de loja, em seus “acolhidos”. Para isso ela tinha uma pequena casa nas imediações da sua residência para a produção.

Estava sempre acompanhada de Francisco, um homem de impressionantes 1,90m, que agia também como guarda-costas de Mariana. Desde que foi levado por ela, se apaixonou pela patroa. A cada homem que trazia para o breve convívio, ele sofria bastante. Mantinha um distanciamento que enganava a quem os conheciam. Mas vez ou outra, na falta de amigos sequenciais com os quais saía, era Francisco que a levava para a cama.

Regino era o nome do novo despossuído trazido para a pré-produção. Um homem negro de olhos verdes que cativaram Mariana num dia de sol inclinado de outono, irradiando faíscas verdejantes no cinza do asfalto. Mal vestia calças rotas e uma camiseta que colava seu abdómen frisado de riscas transversais. Um espécime masculino que pouco se via incluindo as passarelas de Fashion Week de Paris, a qual ela frequentava durante a temporada de desfiles.

Como todas as vezes que encontrava alguém, ela se aproximava com cuidado, perguntando pelo nome e se oferecendo que comesse algo. Normalmente diziam que sim, mas o rapaz de seus presumíveis 25 anos hesitou, olhou para Mariana com um olhar enigmático. A pele escura se confundia com a sombra de onde estava. Após alguns segundos eternos em que ela quase se perdeu no caminho esverdeado, ele respondeu que sim. “Meu nome é Regino, em homenagem à minha avó” – disse – se apresentando. Mariana sorriu e pediu para que ele fosse com ela. Ainda hesitante, Regino se levantou de seu canto junto a cobertura de um bar fechado. Seus movimentos eram semelhantes ao de uma pantera desconfiada. Sequer imaginava o que queria aquela linda mulher com ele. Simplesmente se ergueu e a acompanhou e ao seu amigo. Ela o levou até ao Glacê, Flores e Cozinha, perto de seu apartamento. O dono já estava acostumado com os convidados sempre alternativos que Mariana trazia e indicou para o trio os pratos do dia.

Após se servir da melhor comida que já havia experimentado, ele e os outros dois se dirigiram à casa da transformação. Lá, Mariana guardava roupas de todos os tamanhos para vestir seus novos amigos. Como sempre, ela pedia para que o homem se despisse e entrasse no amplo banheiro para tomar a chuveirada que prazerosamente dava em seus acolhidos. Ela também se desnudava e iniciava o ritual do banho, a começar pela cabeça. Como a do Regino fosse raspada, essa etapa se cumpriu de forma breve. Dava prazer a ela executar com vagar o passeio por sua cabeça, passando pelas orelhas pequenas e o queixo proeminente.

Mariana utilizava uma bucha ensaboada com sabonetes de odores requintados lavando suas costas largas, até começar a deslizar para as suas nádegas firmes e levantadas. Pediu para que Regino se virasse e, ajoelhada, começou a lavar os seus pés com cuidado e carinho. Ela percebeu que Regino estava um tanto tímido, até que passou a massagear a parte interna das suas coxas musculosas de tanto carregar recicláveis em um carrinho improvisado pelas ruas que, durante a conversa no restaurante, disse ser o seu meio de sobrevivência. Logo, o seu pênis se ergueu feito um mastro de bandeira em dia de parada. Ela o lavou como se fosse a joia mais preciosa que havia posto os olhos. Logo, sem demora, começou a passar a língua ao longo do membro do rapaz. A experiência na felação o excitou tanto que ela percebeu que logo gozaria. Compreendeu que ele devia estar há muito tempo sem ter uma relação sexual. Diante da intumescência que deu todo sentido à palavra pau, segundos depois sentiu em seu rosto um banho de esperma quente e abundante. Chegou a achar “fofo” que Regino pedisse desculpas por isso. Ela subiu a bucha para seu peitoral e enquanto o lavava, olhou para cima em direção a sua boca. Ele sorria de forma aberta e tão natural que decidiu beijá-lo.

Mariana estava enamorada de seu recém agregado. Algo que apenas com Francisco aconteceu tão rapidamente. As línguas se envolveram em uma dança frenética a deixando tão excitada que se deitou no piso do banheiro e pediu que ele a penetrasse. Antes disso, ele aproximou a sua boca da vagina cor-de-rosa de Mariana e usou a língua de tal maneira delicada e desenvolta, auxiliado por seus dedos longos e um tanto ásperos, que ela gozou rapidamente. Desta vez, foi ela que inesperadamente expeliu um líquido em jato no rosto de Regino. O que fez com que os dois rissem. A maestria de sua língua continuou a surpreendê-la ao começar a beijar suas mamas como se fosse uma criança ávida de alimento, ainda que de forma calma, como se estivesse absorvendo o leite da vida. Como o seu pênis voltasse a ficar ereto, ele a agarrou pela cintura e facilmente a colocou de quatro, assumindo o comando, ainda que quem controlasse a situação fosse ela. Após dez minutos, Regino voltou a ejacular, banhando as suas costas com o morno líquido esbranquiçado.

Do lado de fora, Francisco ficou incomodado pela demora do banho e chegou a entreabrir a porta do banheiro, percebendo entre a névoa densa, os movimentos do casal. Ele se sentiu enciumado como nunca. Regino tinha uma energia diferente e porte de príncipe, apesar de sua condição precária. Banho tomado, Mariana estava exultante com a sua nova conquista e já fazia planos para Regino percebendo que a sua altura, postura e perfil esguio poderia levá-lo para bem longe como modelo profissional. A sua história poderia ser inspiradora e logo ganharia repercussão. Mas, antes, queria experimentá-lo o quanto pudesse.

Logo que chegaram ao Domus, ela avisou Francisco que ambos passariam um tempo no quarto. Durante duas horas Mariana e Regino experimentaram todas as formas de prazer e posições sexuais. O rapaz era um talento no assunto e Mariana ficou pensando que ele bem serviria a algumas de suas amigas, sedentas de bom sexo enquanto seus maridos estivessem ganhando dinheiro e comendo as suas secretárias. O rapaz era atlético e incansável. Além de ter aqueles olhos cor de esmeralda que a depender da luz refletia em ondas feito água marinha. Apaixonada por Regino, decidiu mentalmente só o liberá-lo ao mercado depois de aproveitá-lo bastante. Certamente ganharia pontos com as suas companheiras de brincadeiras nas viagens que faziam.

Regino era um sujeito que passou por tantas situações de desamor que mal acreditava no que estava acontecendo. Imaginava que tudo acabaria de uma hora para outra em algum momento. Foi abandonado pela mãe que se envolveu com um traficante. Tinha saudade de sua avó que faleceu muito cedo. Ele a amava e foi uma referência amorosa que o salvou de se matar em várias oportunidades. Ele não queria, porém também estava apaixonado por Mariana. Ainda que sentisse que ela lhe devotava um imenso carinho, não se permitia viajar na possiblidade de que esse idílio se estendesse por muito mais tempo.

Essa humildade de quem não sabe o poder que tem impressionava Mariana, acostumada a conviver com homens que se jactavam de serem o máximo da expressão masculina. Em contraposição, percebeu a candura do moço tímido. Recém-chegada aos 40 anos, vivia a fase da Loba de forma plena. E Regino parecia ser o símbolo de sua plenitude. Talvez representasse o término por sua busca pelo amor que ainda teria por um homem de verdade e que ainda lhe satisfaria como fêmea. Envolta nessa reflexão sentiu necessidade do belo pau de Regino a lhe invadir o corpo e consumar o dia que nasceu tão insípido neste Outono de 2026 e que terminava com um delicioso beijo do garoto de olhos cor de safira e pele cor de ébano. Quando ele finalmente se entregou ao sono como se fora um cão recém resgatado das ruas que se sente seguro, Mariana ficou um tempo deslizando as mãos em seu corpo esculpido na necessidade de sobreviver de restos e chorou, com a cabeça deitada junto a púbis de Regino.

Foto por Collis Torrington em Pexels.com

                                                                                                         

05 / 10 / 2025 / Ser Mulher*

* Em 2020, escrevi: “Há uns anos antes, quando precisei depilar o peito para fazer um teste ergométrico, aproveitei para depilar o resto do corpo. Ao tomar banho, a sensação foi tão prazerosa, que repito a operação duas ou três vezes por ano. Penso em fazer com cera, mas como sei que dói, teria que ser muito mulher para encarar…”.

O que escrevi acima diz se orienta pelo respeito que tenho pela mulher não apenas por pertencer a um gênero que foi hostilizado pelo homem durante a organização das diversas civilizações ao longo das eras e aprendeu a sobreviver até hoje, quando tem alcançado protagonismo na construção da Sociedade em níveis que antes estavam reservados ao “sexo oposto” — termo que cabe como uma luva ao nos referirmos à maneira que a mulher tem sido vista pelo homem — uma inimiga.

Talvez seja medo de perder o protagonismo conseguido sem esforço, a não ser pelo fato de nascer um membro pendente entre as pernas que ainda é usado como se fosse uma distinção emérita. !Que me desculpem os meus “colegas de gênero”, mas um gênero da espécie humana que mereça ser chamada de “sexo forte” é a fêmea, não o macho. Fomos criados embriagados pelo poder de sermos superiores e para alguns de nós isso é o suficiente para não se esforçarem em serem pessoas melhores, mais capacitadas, mais aptas.

Ah, e quanto à depilação, as mulheres podem se sentir obrigadas a utilizarem diversos recursos para se sentirem mais aceitas num mundo em que devam se apresentar de tal ou tal maneira. Se for uma opção dela, tudo bem, assim como foi a minha em me depilar algumas vezes por ano. Mas ser pressionada para isso como a outros procedimentos para alcançar a aceitação social, incluindo a de outras mulheres, que agem como fiscalizadoras de estética e de comportamento, adotando preceitos machistas. Enfim, homenageio às mulheres que conseguem lidar com tantas pressões o tempo todo sem esmorecer… quase todas.

Foto por Tima Miroshnichenko em Pexels.com

19 / 06 / 2025 / Indie*

Domingo primaveril… frio e nublado. Do meu lado, no sofá, elas descansam. Uma, Maria Bethânia, um ser estranho — um longo pescoço com rabo — mais velhinha na casa e na idade, deixa de provocar por um tempo a recém-chegada Pomarolla Indie Quitéria Mary Kay — nomes estampados nas caixas de produtos que fazem as vezes de caminhas provisórias. Indie e Quitéria são opções surgidas para dar identidade a uma cachorrinha resgatada na rua pela Lívia.

Peladinha, enrugada, com feridinhas causadas pela coceiras constantes, Indie apresenta um quadro de desnutrição. Nós a estamos tratando para que se recupere e possa ser adotada por alguém. Da maneira que está, parece mais um “filhote de cruz-credo” — um termo antigo que significa algo feio, eu acho… Mas, a seu modo, ela é bonitinha, talvez por parecer tão desamparada.

O que me impressiona é que, mesmo estando há apenas uma semana em casa, ela já passeia pelos cômodos com a confiança de quem sabe que é aceita. Brincalhona, como qualquer criança, Bethânia encontrou um par para as suas estripulias. Devido à lotação praticamente esgotada aqui em casa, essa fêmea abandonada terá que ir para outro lar que a receba com carinho que merece. Por enquanto, que esteja confortável enquanto estiver conosco e que fique logo saudável para alegrar a quem cativar com o seu olhar de anjo.

E, mais uma vez, aconteceu. A Indie Quitéria Janjão, oficialmente apenas de passagem por nossa casa, buscou e conseguiu a proteção amorosa da velha Penélope. De espírito aberto e carinhoso, mesmo que de início venha a estranhar a nova companhia, logo se rende à aproximação dos novos amigos. A Penélope tem o coração maior que o mundo!

*Texto de 2018

BEDA / Juventude

Seu nome é Jovem, nasceu assim
Desde sempre, impulsiva, contagiante
Caminhou pela linha tênue da controvérsia
Cristã e sinuosa, em mente e corpo
Ultrapassou os limites territoriais
Não se baseia por regras normais
Invade a cabeça de desavisados
E as transtornam ainda que sejam alertados
Se entregam à sua arte e poder
À sanha de misteriosa fêmea
Avança com a serenidade de predadora
Dona de si, da matilha a voz
Que espera o chamado em que falta a fala
Reverberando os uivos em escala
Causando a mudez com a qual cala
Quem se vê abatido por seu perfil de algoz
Não percebe sua inteligência e ardil
O faro para enredar a presa
Que alegremente se deixa abater
Que entrega o endereço e a oferta
Tudo para vê-la descoberta
Em meio às curvas e movimentos
Mal percebem que a sua maior força
Que devora dores, entrega prazeres
Os seus olhos devoradores…

Foto por Andrew em Pexels.com

Poema constante de BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

Homem-Calcinha*

“Sou um macho da espécie Homo sapiens. sou feliz sendo um macho, gosto de parecer másculo e amar como um homem. Está tristemente enganado quem acredita que o macho tem como prerrogativa oprimir a fêmea de sua espécie para se sentir funcional. E por me sentir tão bem e ciente da minha masculinidade, posso me dar ao prazer de cumprir tarefas que alguns não atribuiriam a um homem, como estender calcinhas no varal. Fiz isso hoje, antes de sair para trabalhar e, repentinamente, me senti muito bem, quase realizado… Tantos anos antes, quem as vestem atualmente, usavam fraldas…”.

Por outro lado, estou ciente que homens mal formados construíram essa estrutura que tanto mal causam não apenas às mulheres, como também aos próprios homens, ao criar barreiras ao acesso de ser um humano de maior amplitude. Sinto lágrimas vir aos olhos a cada feminicídeo que é noticiado. Pela dor de quem sofre e também por vergonha. Sim, choro por motivos graves e choro também pelas belezas delicadas que encontro pelo caminho. Sou um desgarrado dessa turba machista que insiste em perpetrar crimes hediondos em nome de uma distorção como a de acreditar que tem domínio legal e assegurado por antigas e anacrônicas escrituras sobre a mulher.

Sou daqueles que acredita no amor e em amar as diferenças. Não creio que a mulher pertença a um gênero oposto, mas complementar. Sabendo que são mais completas do que nós em todos os aspectos, menos naqueles em que prevalece a testosterona e a força física, compensada pela resistência de espírito.

Na verdade, só ganharemos se nos afeminarmos. Ganharemos em predicados como resiliência, olhar meticuloso, percepção aguçada, dedicação, competência e senso estético. Qual homem consegue, como muitas das mulheres o fazem, se desdobrarem em tantas atribuições como as que são designadas pela Sociedade Patriarcal a elas por “dever de nascença” e, apesar das barreiras, buscar em serem melhores pessoas? 

*Parágrafo de 2016