A roupa macia-suave ao toque de minhas mãos, transformou-se em uma lembrança-cor. Não sei que nome se dá a ela, hoje – rosa choque, pink ou alguma outra derivação. Para mim, desde que eu era novinho e gostava de desenhar, a conhecia “como cor de maravilha”.
Eu a usava apenas para dar um toque diferenciado a uma cena, como as recorrentes tardes de outono ensolaradas a se porem entre as montanhas que desenhava… bem parecidas às fotos que os crepúsculos produzem atualmente de onde os observo. Na época, subia na laje para isso. Parece que mantenho alguns vícios juvenis dos quais não me livrei.
A minha mãe, com muito esforço, por achar que tivesse aptidão para o desenho, comprou uma caixa de lápis de 24 cores da Faber Castell. Era uma caixa dobrável, em que as cores eram numeradas e nomeadas. Um requinte. Eu a mantinha como um tesouro. O lápis cor de maravilha era a que menos usava. Preciosa e rara.
Quando escrever se tornou muito mais importante do que desenhar, por volta dos 12 anos, deixei a caixa de lado, para decepção da Dona Madalena. Como lembrança, eu a mantive guardada intacta até minhas filhas começarem a brincar de desenhar. Achei que deveria dar a caixa a elas como se fosse um rito de passagem. Talvez as cores tenham durado alguns meses todas juntas. Sabe-se que, rebeldes, muitos delas preferem ganhar o mundo e voltarem a colorir as cenas do nosso passado. Volta e meia, ressurgem em todo o seu fresco esplendor…
Em Quarentena, estando isolado na casa da praia, não tenho horários específicos para as refeições. Quase dez horas da noite, decido fazer pizza. Saio, compro os ingredientes necessários e, ao revirar o armário em busca da fôrma, encontro a máquina do tempo, ainda que incompleta, sem as presilhas. Nela, produzo uma boa pizza de atum e cebola com molho de tomate.
A minha mãe adorava novidades em apetrechos para o lar. Logo que foi lançada, Dona Madalena adquiriu uma fôrma que poderia assar pizzas utilizando as bocas do fogão. Economizava o uso do forno, em tempos de escassez, além ser mais prática e rápida. O segredo era saber dosar o volume do fogo para que não queimasse. E foi através daquele utensílio que voltei para mais de quarenta anos antes no tempo.
Vários instrumentos caseiros usados em décadas anteriores vieram para a casa da praia. Volta e meia, me deparo com pratos, xícaras, louças, copos e talheres antigos, além de vários outras coisas-mecanismos que me fazem voltar ao passado. Quase imediatamente, despontam visões da minha mãe a manipulá-los, como se fossem videoaulas de utilidades domésticas.
A pizza ficou boa. Sei fazê-las – as pizzas – assim como outras comidinhas, de maneira que minhas filhas voltam sempre a pedi-las. Nunca busquei aprender anotando ou medindo dosagens de ingredientes. Simplesmente comecei a reproduzi-las quase magicamente. Feijão, arroz, sopas, misturas variadas e outros componentes de refeições ou lanches se materializam concluídas e saborosas. O segredo – eu era ajudante de cozinha de minha mãe. Acho que, ainda que não estivesse atento, a repetição cotidiana foi apreendida de algum modo.
Talvez seja isso ou mamãe se apossa de minhas mãos e por elas revive o prazer de cozinhar para aqueles que ama. O ingrediente secreto, porém, é evidente – aquele que torna os alimentos mais simples em experiências tão saborosamente dolorosas, na verdade, uma junção rica de saudade e amor.
Este ano eu não quis comprar ovos de Páscoa – para ninguém!
As minhas crianças já não são tão crianças. A mais nova das minhas três filhas está com 17 anos e acabou por receber um ovo de chocolate de presente de seu namorado. A do meio está em viagem. A mais velha está com 22 anos. As crianças de parentes estão distantes demais e as dos amigos, não são tão próximas. Portanto, muito devido aos altos valores envolvidos, em contraponto ao valor real da Páscoa que desejava ressaltar, essa decisão me pareceu sensata e econômica. No entanto…
… com a aproximação do domingo de Páscoa, comecei a ficar inquieto com a ideia de não ofertar para as minhas eternas crianças um pouco do sabor que elas cresceram aprendendo a associar a esta época – a do chocolate. Gostaria de exercitar o desapego à barafunda de conceitos normalmente ligados ao comércio de datas que, primariamente, deveriam estar associadas à elevação de nossa formação como homens de espiritualidade elevada, colocando-me acima disso. Porém, ontem, decidimos, eu e a minha mulher, sair hoje cedo e ver o que sobrou dos chocolates em oferta para recuperar nosso próprio espírito infantil.
Lembro-me do quanto fiquei decepcionado quando minha tia Raquel, de família mais abastada, passou a não me dar mais ovos de chocolate após os meus 12 anos de idade. Como assim, não ganharia mais? Ainda me sentia tão criançona! Talvez os mini adultos de 12 anos de hoje não entendam: por que cargas d’água (nossa, que expressão antiga e incompreensível) eu teria ficado tão mal por tal fato? “Pô, cara, você já tinha 12 anos!”…
Hoje, buscamos as lojas abertas e não encontramos mais as marcas que queríamos, mas não deixamos de comprá-los. Tive para mim, no momento em que adquiria os ovos, que tentava devolver para as minhas crianças, as que foram – eu e a Tânia – o sabor da expectativa que envolvia a chegada da Páscoa – menino e menina – que não tiveram tanta chance de prová-los em muitas oportunidades de infâncias de precariedade material. De qualquer forma, acabei por dar chocolate para a minha mulher, para a minha criança mais velha e para a minha criança mais velha ainda… e, talvez, para a mais infantil de todas – eu mesma…
Sobre este domingo comemorativo, quis permanecer longe da voragem causada pela artificialidade de uma data instituída pelo mercado para alimentar o comércio. Manipular sentimentos é a melhor maneira que existe para estimular a compra de objetos que demonstrariam o quanto somos agradecidos a quem deveríamos homenagear. No mínimo, ajuda a amenizar a culpa que sentimos por alguma falta que cometemos a quem presenteamos.
No entanto existem datas que calam fundo, como a dos dias das Mães e a dos Pais. Essas datas acabam por expressar a ideia simples porém completa de início de tudo. Qualquer ser de organização celular mais complexa vivente neste planeta foi gerado por um(a) genitor(a). Pegos, assim, de uma forma tão primária em nosso âmago, não há como deixarmos de expressar algum tipo de emoção quanto a estes dias.
O meu sentimento é contraditório. Tenho filhas que me realizam como gerador de vidas que fizeram, faz e, tenho certeza, ainda farão diferença na existência de quem tiver a boa sorte de encontrá-las. Eu as amo por isso e porque as amo independentemente de qualquer coisa. Quanto ao meu pai, a dubiedade se aplicava de maneira exemplar. Quando estava vivo, ficava meses sem vê-lo. Morávamos perto, caminhava por lugares que eventualmente passava, entretanto quando estávamos juntos, sentíamos certo distanciamento.
Quando houve a cisão definitiva entre ele e minha mãe, que fisicamente também já passou, deixei de tê-lo mais por perto. Com a deterioração de seu estado de saúde e eventual proximidade de seu desenlace, comecei a pensar muito nele e nos momentos que me lembrava (não foram tantos assim) em que vivemos certa comunhão emocional, a maior parte de cunho negativo. Sentia que ele não estaria fisicamente muito mais tempo entre nós e intencionava visitá-lo, ver como estava. Talvez para protagonizarmos outra e possível última discussão. Não conseguia evitar me indispor com ele e preferi não fazê-lo. Fui vê-lo apenas morto.
Frequentemente digo para alguns que o utilizo meu pai como um exemplo a não ser seguido, principalmente quanto a ser um pai presente. Se bem que presença pessoal nem sempre seja indicativo de qualidade. Agradeço a ele que tenha proporcionado subsídios para que eu e meus irmãos tenhamos casas onde morar. Contudo filhos são exigentes e querem sempre mais. Desejava que não quisesse me ver como um mero apêndice de seus ideais e vontades.
Ele esquecia-se que ou não aceitava que, apesar de filhos da carne, não somos compulsoriamente filhos do espírito. Que ele não visse que honrar pai e mãe não era pensar o mundo como ele projetava. Que a partir do momento que os trazemos ao mundo seres aos quais damos suporte – casa, comida, vestuário, escola, educação (algo diferente de escola) e (hipotético) amor –, ao mundo eles pertencem. Lugar comum, todavia verdadeiro.
Por poucos anos, tive uma convivência normal com o Sr. Ortega. Ele era um homem elegante, com tez amorenada e os olhos puxados, devido a sua ascendência indígena. Eu me pareço mais com meu avô, “Seu” Eustáquio Humberto, mas não são poucas as vezes que o vejo em mim, no espelho, e o ouço reproduzido em minha voz. Ainda que afastado de nós, desejava que meu pai que estivesse bem consigo mesmo, já que essa fora sua escolha desde o início. Presente em minha mente-tempo-espaço, o homenageio, mesmo que de modo torto, como progenitor da família que formamos um dia.
A foto acima, faz parte da série “Papai É Bombadinho”, nomeação dada por minha caçula, Lívia. Na época, há seis anos, a minha intenção ao postá-las era demonstrar o esforço que fazia para me manter ativo naquela etapa da vida em que muitos desistiam de se movimentar ou praticar alguma atividade física por suposta falta de tempo – o que era comum acontecer também comigo – tanto quanto agora. Muito mais comumente, é por simples falta de vontade, para não dizer: preguiça.
O principal fator para prefiramos deixar a preguiça tomar conta de nosso corpo é que se exercitar dói. Sim, não vou mentir – ao começarmos um programa de atividades físicas, a dor é nossa companheira constante e sugiro que não tentem reduzi-la com o uso de relaxantes musculares, porque isso, conforme eu aprendi, de certa maneira faz com que você perca parte dos benefícios dos exercícios. A dor é uma resposta muscular à adaptação do organismo à nova demanda do nosso corpo. No entanto, após o doloroso processo de adaptação, você começa a perceber que os resultados surgem e você passará a se tornar um assíduo praticante de exercícios. Chegará até – olha que loucura – a sentir falta daquela dorzinha de quem passa por esse período inicial.
O fato é que sempre gostei de atividade física – jogar futebol, voleibol, basquetebol, correr, nadar. Porém, com o passar dos anos, gradativamente, fui deixando de me movimentar. É claro que o meu peso aumentou, não só pela inatividade como também pela alimentação desequilibrada, no tempo, na proporção e qualidade devidas. Aliado a outros fatores, tive alguns problemas de saúde, culminando com uma crise hiperglicêmica no final de 2007.
Desenvolvi silenciosa, mas inevitavelmente, uma Diabetes Milittus, Tipo II, associada a hereditariedade, a idade e ao estilo de vida. Cheguei a 715 mg/dl quando o índice normal deva girar em torno de 100 mg/dl, isso, depois de tomar insulina na veia. Cheguei ao hospital bem mal, com a visão turva, mal podendo caminhar. Estava quase reproduzindo a morte de um grande amigo meu, o Wanderley Santos, que se foi em uma crise dessas. Fui salvo por minha mulher, Tânia, que percebeu que os meus sintomas – sede intensa, vontade de urinar a todo momento, visão nublada e uma irritabilidade insuportável – correspondiam aos de uma Diabetes, doença que não sabia sequer ter desenvolvido.
Após sair da internação, usei insulina injetável durante algum tempo, mas não mais. Sucedida a pior fase, adotei uma dieta mais equilibrada e incentivado por minha mulher e filhas – Livia, Romy e Ingrid, decidi voltar a estudar, nesse caso, justamente Educação Física. Talvez sentisse necessidade em compreender como ocorre o desenvolvimento do corpo humano – sempre ocorre desenvolvimento, mesmo que negativo – e de que maneira podemos lidar com as circunstâncias envolvidas nesse processo.
A musculação tem me ajudado a controlar a minha Diabetes e os fatores envolvidos na explicação de como isso ocorre são um pouco técnicos e não será aqui que discorrei a respeito, mas persiste o fato de que são fatores marcantes e óbvios seus benefícios em meu organismo. Percebam que nomeio a Diabetes com letra maiúscula, porque é uma forma de demonstrar respeito por um mal cada vez mais presente na vida das pessoas, caso não se revertam rapidamente as condições de nosso estilo de vida atual.
No entanto, para ver como o mundo dá voltas, em fevereiro fez dois anos que não entro em uma academia. Quando falamos em estilo de vida, isso inclui as circunstâncias gerais do lugar onde vivemos. Para compensar o avanço do custo de vida, tenho que trabalhar muito mais do que antes, fico mais cansado e o tempo é curto para outras coisas, como me exercitar convenientemente. Como minha atividade me permite me movimentar bastante, diria que faço um trabalho físico funcional – literalmente. Função e funcionamento orgânico em conjunto. É o que temos para hoje…