praça de alimentação de um shopping famílias homens mulheres crianças cães vez ou outra ladram os sinos de avisos repercutem sonoros agudos pessoas falam alto pensativos um ou outro dos presentes permanece mudo ausente do presente muitas mulheres estão sós esperam olham pelo celular possíveis mensagens a hora que passa nada pediram intimamente pedem talvez que não se atrasem ou mesmo que isso ocorra que venham eu me intrometo em suas histórias proponho alternativas viáveis e poucas escapam de uma constante esperam homens compromissados com outras com deveres familiares tentam fugir de suas prisões uniões que se esgarçaram com o tempo buscam viver novas emoções encontros com o furor juvenil já envelhecidos se sentem remoçados e quem os espera sabe disso algumas conhecem as companheiras possíveis amigas mas se sentem apaixonadas não assumem que sejam invejosas mas estar com o objeto de desejo as fazem se sentir poderosas mas aqueles a quem esperam são simplesmente homens num mundo em que seu poder se desmorona se comportam como seres sem honra ou apenas escapar da rotina da lida sentirem que estão vivendo novas sensações na vida talvez nem gostam de quem venham a encontrar porém querem se enganar que ainda têm o poder de brincar com os sentimento das mulheres viver a emoção da conquista quando sempre serão elas que se permitem também brincam com a capacidade de seduzir buscam conquistar novas possessões num mundo utilitarista apenas visitar outros corpos como turistas não querem que eles se apaixonem que fiquem pegajosos grudentos ciumentos brincam com fogo transformam ambos em um jogo que se nisso ficassem não seria de todo mal gozo prazeroso acima das leis patrimoniais abaixo das obrigações sociais para os outros mentirosos pessoas de vida dupla para si mesmos mulheres e homens portentosos sem culpa…
Foto por UMUT ud83cudd81ud83cudd70ud83cudd86 em Pexels.com
“Querido Dia, me traga coisas leves”. Logo respondi que sentia falta de algum peso. “Fortes emoções?” Não! Peso físico… de um corpo sobre o meu…a emoção é condecoração… Sentir-me-ia recebendo uma medalha no peito — ou uma facada no coração — mas seria algo para sentir… Tive uma sensação de leveza ontem à noite, ao ver a Lua no horizonte ao mesmo tempo que sentia em minha cabeça desnuda uma brisa calma e fria do Outono que se aprofunda a caminho do Inverno, de estrelas brilhantes em céu limpo de nuvens… Tenho sentido o peso das notícias excruciantes que me açoitam diariamente a pele d’alma… Mas a minha pele física quer outra pele contra a dela, em conjunção planetária de corpos celestes, signos em Sol… planetas que lhe circundam o fogo da noite, passional, energético, explosivo, contumaz, inevitável… Quem eu bem quero está longe… Quem eu tenho por perto, se distancia…emocionalmente, não me lê, é bem provável que não me queira mais… qualquer dor que sente me acusa, porque estou junto… seria o caso de separar caminhos…criar expectativas, sonhar a comunhão e não a solidão… Quero em outro corpo me emancipar, quero o âmago do gozo, penetrar, quero o peso de amar…
eu desejo que minta diga que me quer tomar por inteiro neste abrasador janeiro pela última vez neste quarto de quinta que sujamos os lençóis de fluidos seres que somos — excluídos não fazemos conta na multidão somos dos últimos os derradeiros aqueles que ninguém gosta ainda que queira ser percebida como distinta desista não gostou quando lhe comparei a uma gimba de cigarro fumado ao meio é que não estava presente quando o homem em andrajos a encontrou jogada no chão junto ao muro e em um tênue murmúrio a desejou entre os lábios a aspirar sua fumaça cancerígena perguntou a mim que passava por ele se eu tinha fogo se decepcionou quando eu disse que o meu fogo ardia apenas no coração praguejou: “caralho, você é mais maluco que eu!” ficaria feliz a me juntar a ele e esquecer de mim viver a andar a esmo sem rumo sem destino em desatino longe de mim de você que vive em mim mas agora quero apenas que minta que finja que simule gozar para mim que se sinta tão limpidamente suja como a puta que se vende por pena pura e sequer dinheiro fatura se assim for então nunca mais me verá jamais passarei de novo por perto de sua presença sei que não sentirá a minha ausência mas quem sabe sinta uma espécie de vazio como um calor tépido de uma febre que se perpetua a fome de algo que lhe caiu bem mal talvez sinta falta do pavor que lhe causava como o gosto de sal na comida rala ou uma topada que lhe lembrava que a dor não é opcional…
Gosto de Frebero, o nome de Fevereiro em espanhol. Lembra febre, o que é uma característica do Carnaval. Só que neste 2025, ocorrerá no começo de Março. Isso deve à adequação que a Igreja estabeleceu entre as festas pagãs e as católicas — uma espécie de cooptação formal dos novos “adeptos” ao novo sistema de medição temporal.
O calendário que adotamos no Brasil é o Gregoriano, criado em 1582 pelo Papa Gregório XIII. De inspiração solar e cristã, nosso calendário é baseado no movimento da Terra em torno do Sol. Ele tem 365 dias, divididos em 12 meses, se iniciando no dia 1º de janeiro e terminando no dia 31 de dezembro.
No calendário, o intervalo entre o Carnaval e a Páscoa dura 47 dias e as duas datas são móveis, já que a Páscoa é sempre no primeiro domingo após a Lua Cheia que marca o Equinócio de Primavera no Hemisfério Norte e o Equinócio de Outono no Hemisfério Sul. Por isso, o Carnaval pode ser em fevereiro ou em março.
Nessa barafunda de referências ligadas à agricultura, ao movimento celestiais observados pelos habitantes do Hemisfério Norte, trazida pelos portugueses, invasores de Pindorama e imposta pelo poder da Igreja — pela catequese ou à ferro e fogo, sangue e genocídio dos povos originários — vivemos sob o império do tempo imposto à força, sem direito de escolha, já que é norma, incluindo a de titular este projeto. Entramos pelo segundo mês do ano ou o último, de acordo com o Calendário Juliano, de origem imperial romana. Ou seja, não escapamos à regência de impérios passados… e todos passam…
De hoje para a amanhã, celebraremos o Natal. Gosto do termo em espanhol – Navidad – o que soa quase como ” novidade”. O que condiz com um episódio tão revolucionário quanto o nascimento de uma criança que pregaria o amor como conduta numa época em que a hegemonia das armas sobre populações de países ocupados ditava as normas, a violência como linguagem de dominação. Quer dizer, as coisas não mudaram tanto assim… apenas as armas se sofisticaram a ponto de poder matar mais e pior, em fogo e dor.
Amanhã, não estarei em casa na passagem da meia-noite. Estarei em atividade, longe dela. Mas sei que haverá espocar de fogos de artifício ou simples rojões. Os cães que moram conosco estarão dentro de casa, tendo o olhar compreensivo de seus tutores, o que deverá tranquilizá-los um pouco, mas ainda assim, haverá sofrimento. Fico imaginando se em vez de tanto barulho, misturado à execução de músicas de gosto duvidoso em volume excessivo, houvesse o silêncio que uma criança recém-nascida merece ao chegar ao mundo. Se as pessoas percebessem que a grandiosidade de tal fato maravilhoso, o aceitariam com a reverência de quem compreende a sua importância.
Em sua simples manjedoura no estábulo onde os animais o aqueciam com a sua respiração do frio do ambiente externo, a criança ficaria tranquila, assim como as outras espécies que participavam dessa aventura que foi o surgimento de alguém que mudaria a História. A sua família, por causa do anúncio de sua chegada, viveu em fuga, assim como tantas centenas de milhões antes e depois dela, por perseguição política, religiosa ou étnica. Como tantos antes dela e depois dela, seus filhos foram perseguidos por suas ideias, enfrentaram o padecimento do corpo físico, torturados por buscar melhores condições de vida para seu povo. Como a falta de um lugar para morar.
É tão estranho ver representantes da massa que se dizem cristãos, quando eleitos, tentarem impedir que isso se torne realidade. Porque dessa maneira sempre haverá mercado para promessas fáceis de serem esquecidas. Alguns contrapõem espertamente: “A casa de meu Pai tem muitas moradas” – disse Jesus. Acenam com uma vida idílica fora deste lugar, enquanto vivem como nababos em templos sem fé.
Por aqui, ontem de manhã, recolhi um saco grande com copos plásticos que desceram por um duto feito para escoar a água da chuva da parte de cima da vila. A noite toda, dava para ouvir o som alto da festa que rolou durante horas. Assim como nos outros anos, desde antes da meia-noite, as ruas serão fechadas para a reunião de jovens que beberão como se não houvesse amanhã. Jogarão os copos na rua e a chuva se encarregará de conduzi-los para outros pontos. Vivemos em comunidade, mas a consciência comunitária passa longe de quem quer apenas usufruir o momento que passa. O feriado e seu motivo, qual seria mesmo?
Quem chegou até esta linha, talvez duvide que este texto tenha inspiração natalina, mas assim como aqueles que beberão até cair ou se empanturrarão de comida pesada, aproveitei a data para expressar a minha escrita – um defeito meu. Valorizo tanto o Natal que não participo dele como os outros. Ainda que pela Ortega Luz & Som participe viabilizando tecnicamente que músicos possam interpretar canções que alegram convidados nos eventos que realizamos. Contraditório, não?
Mas reservo dentro de mim a força de uma revolução sagrada que marcou e marca a minha vida por anos. Eu reservo o meu espírito para vivenciar intimamente a magia de um acontecimento que me mantém no desejo de transcender, ainda que encarnado, ainda que em busca de me manter materialmente contrariando algumas das minhas convicções. Sei que vivemos na corda bamba entre sermos no que acreditamos ser e entre o que é possível ser.
Que todos possam vivenciar um Natal ideal, de alegria e amor!