Mulheres Que Esperam

praça de alimentação de um shopping
famílias homens mulheres crianças
cães vez ou outra ladram
os sinos de avisos repercutem
sonoros agudos
pessoas falam alto
pensativos um ou outro dos presentes
permanece mudo ausente
do presente
muitas mulheres estão sós
esperam
olham pelo celular possíveis mensagens
a hora que passa nada pediram
intimamente pedem talvez que não se atrasem
ou mesmo que isso ocorra que venham
eu me intrometo em suas histórias
proponho alternativas viáveis
e poucas escapam de uma constante
esperam homens compromissados com outras
com deveres familiares
tentam fugir de suas prisões
uniões
que se esgarçaram
com o tempo buscam viver
novas emoções encontros com o furor juvenil
já envelhecidos se sentem remoçados
e quem os espera sabe disso
algumas conhecem as companheiras
possíveis amigas
mas se sentem apaixonadas não assumem
que sejam invejosas
mas estar com o objeto de desejo
as fazem se sentir poderosas
mas aqueles a quem esperam
são simplesmente homens
num mundo em que seu poder se desmorona
se comportam como seres sem honra
ou apenas escapar da rotina da lida
sentirem que estão vivendo novas sensações na vida
talvez nem gostam de quem venham a encontrar
porém querem se enganar
que ainda têm o poder
de brincar com os sentimento das mulheres
viver a emoção da conquista
quando sempre serão elas que se permitem
também brincam com a capacidade de seduzir
buscam conquistar novas possessões
num mundo utilitarista apenas
visitar outros corpos como turistas
não querem que eles se apaixonem
que fiquem pegajosos
grudentos ciumentos brincam com fogo
transformam ambos em um jogo
que se nisso ficassem não seria de todo mal
gozo prazeroso acima das leis patrimoniais
abaixo das obrigações sociais
para os outros mentirosos
pessoas de vida dupla
para si mesmos mulheres e homens portentosos
sem culpa…



Foto por UMUT ud83cudd81ud83cudd70ud83cudd86 em Pexels.com

10 / 12 / 2025 / PESO

“Querido Dia, me traga coisas leves”.
Logo respondi que sentia falta de algum peso.
“Fortes emoções?”
Não!
Peso físico… de um corpo sobre o meu…a emoção é condecoração…
Sentir-me-ia recebendo uma medalha no peito — ou uma facada no coração —
mas seria algo para sentir…
Tive uma sensação de leveza ontem à noite,
ao ver a Lua no horizonte ao mesmo tempo que sentia em minha cabeça desnuda
uma brisa calma e fria do Outono que se aprofunda a caminho do Inverno,
de estrelas brilhantes em céu limpo de nuvens…
Tenho sentido o peso das notícias excruciantes
que me açoitam diariamente a pele d’alma…
Mas a minha pele física quer outra pele contra a dela,
em conjunção planetária de corpos celestes,
signos em Sol… planetas que lhe circundam o fogo da noite,
passional, energético, explosivo, contumaz, inevitável…
Quem eu bem quero está longe…
Quem eu tenho por perto, se distancia…emocionalmente,
não me lê, é bem provável que não me queira mais…
qualquer dor que sente me acusa, porque estou junto…
seria o caso de separar caminhos…criar expectativas, sonhar a comunhão
e não a solidão…
Quero em outro corpo me emancipar,
quero o âmago do gozo, penetrar,
quero o peso de amar…

Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

24 / 06 / 2025 / Minta

eu desejo que minta
diga que me quer tomar por inteiro
neste abrasador janeiro
pela última vez neste quarto de quinta
que sujamos os lençóis de fluidos
seres que somos — excluídos
não fazemos conta na multidão
somos dos últimos os derradeiros
aqueles que ninguém gosta
ainda que queira ser percebida como distinta
desista
não gostou quando lhe comparei a uma gimba
de cigarro fumado ao meio
é que não estava presente quando o homem
em andrajos a encontrou jogada no chão
junto ao muro
e em um tênue murmúrio
a desejou entre os lábios
a aspirar sua fumaça cancerígena
perguntou a mim que passava por ele
se eu tinha fogo
se decepcionou quando eu disse que o meu fogo
ardia apenas no coração
praguejou: “caralho, você é mais maluco que eu!”
ficaria feliz a me juntar a ele e esquecer de mim
viver a andar a esmo sem rumo sem destino
em desatino
longe de mim de você que vive em mim
mas agora quero apenas que minta
que finja que simule gozar para mim
que se sinta tão limpidamente suja
como a puta que se vende por pena pura
e sequer dinheiro fatura
se assim for então nunca mais me verá
jamais passarei de novo por perto de sua presença
sei que não sentirá a minha ausência
mas quem sabe sinta uma espécie de vazio
como um calor tépido de uma febre que se perpetua
a fome de algo que lhe caiu bem mal
talvez sinta falta do pavor que lhe causava
como o gosto de sal na comida rala
ou uma topada que lhe lembrava que a dor não é opcional…

Foto por Aleksandar Pasaric em Pexels.com

01 / 02 / 2025 / Frebero

Gosto de Frebero, o nome de Fevereiro em espanhol. Lembra febre, o que é uma característica do Carnaval. Só que neste 2025, ocorrerá no começo de Março. Isso deve à adequação que a Igreja estabeleceu entre as festas pagãs e as católicas — uma espécie de cooptação formal dos novos “adeptos” ao novo sistema de medição temporal.

O calendário que adotamos no Brasil é o Gregoriano, criado em 1582 pelo Papa Gregório XIII. De inspiração solar e cristã, nosso calendário é baseado no movimento da Terra em torno do Sol. Ele tem 365 dias, divididos em 12 meses, se iniciando no dia 1º de janeiro e terminando no dia 31 de dezembro. 

No calendário, o intervalo entre o Carnaval e a Páscoa dura 47 dias e as duas datas são móveis, já que a Páscoa é sempre no primeiro domingo após a Lua Cheia que marca o Equinócio de Primavera no Hemisfério Norte e o Equinócio de Outono no Hemisfério Sul. Por isso, o Carnaval pode ser em fevereiro ou em março.

Nessa barafunda de referências ligadas à agricultura, ao movimento celestiais observados pelos habitantes do Hemisfério Norte, trazida pelos portugueses, invasores de Pindorama e imposta pelo poder da Igreja — pela catequese ou à ferro e fogo, sangue e genocídio dos povos originários — vivemos sob o império do tempo imposto à força, sem direito de escolha, já que é norma, incluindo a de titular este projeto. Entramos pelo segundo mês do ano ou o último, de acordo com o Calendário Juliano, de origem imperial romana. Ou seja, não escapamos à regência de impérios passados… e todos passam…

BOMBAS & COPOS DE PLÁSTICO PARA JESUS

De hoje para a amanhã, celebraremos o Natal. Gosto do termo em espanhol – Navidad – o que soa quase como ” novidade”. O que condiz com um episódio tão revolucionário quanto o nascimento de uma criança que pregaria o amor como conduta numa época em que a hegemonia das armas sobre populações de países ocupados ditava as normas, a violência como linguagem de dominação. Quer dizer, as coisas não mudaram tanto assim… apenas as armas se sofisticaram a ponto de poder matar mais e pior, em fogo e dor.

Amanhã, não estarei em casa na passagem da meia-noite. Estarei em atividade, longe dela. Mas sei que haverá espocar de fogos de artifício ou simples rojões. Os cães que moram conosco estarão dentro de casa, tendo o olhar compreensivo de seus tutores, o que deverá tranquilizá-los um pouco, mas ainda assim, haverá sofrimento. Fico imaginando se em vez de tanto barulho, misturado à execução de músicas de gosto duvidoso em volume excessivo, houvesse o silêncio que uma criança recém-nascida merece ao chegar ao mundo. Se as pessoas percebessem que a grandiosidade de tal fato maravilhoso, o aceitariam com a reverência de quem compreende a sua importância.

Em sua simples manjedoura no estábulo onde os animais o aqueciam com a sua respiração do frio do ambiente externo, a criança ficaria tranquila, assim como as outras espécies que participavam dessa aventura que foi o surgimento de alguém que mudaria a História. A sua família, por causa do anúncio de sua chegada, viveu em fuga, assim como tantas centenas de milhões antes e depois dela, por perseguição política, religiosa ou étnica. Como tantos antes dela e depois dela, seus filhos foram perseguidos por suas ideias, enfrentaram o padecimento do corpo físico, torturados por buscar melhores condições de vida para seu povo. Como a falta de um lugar para morar.

É tão estranho ver representantes da massa que se dizem cristãos, quando eleitos, tentarem impedir que isso se torne realidade. Porque dessa maneira sempre haverá mercado para promessas fáceis de serem esquecidas. Alguns contrapõem espertamente: “A casa de meu Pai tem muitas moradas” – disse Jesus. Acenam com uma vida idílica fora deste lugar, enquanto vivem como nababos em templos sem fé.

Por aqui, ontem de manhã, recolhi um saco grande com copos plásticos que desceram por um duto feito para escoar a água da chuva da parte de cima da vila. A noite toda, dava para ouvir o som alto da festa que rolou durante horas. Assim como nos outros anos, desde antes da meia-noite, as ruas serão fechadas para a reunião de jovens que beberão como se não houvesse amanhã. Jogarão os copos na rua e a chuva se encarregará de conduzi-los para outros pontos. Vivemos em comunidade, mas a consciência comunitária passa longe de quem quer apenas usufruir o momento que passa. O feriado e seu motivo, qual seria mesmo?

Quem chegou até esta linha, talvez duvide que este texto tenha inspiração natalina, mas assim como aqueles que beberão até cair ou se empanturrarão de comida pesada, aproveitei a data para expressar a minha escrita – um defeito meu. Valorizo tanto o Natal que não participo dele como os outros. Ainda que pela Ortega Luz & Som participe viabilizando tecnicamente que músicos possam interpretar canções que alegram convidados nos eventos que realizamos. Contraditório, não?

Mas reservo dentro de mim a força de uma revolução sagrada que marcou e marca a minha vida por anos. Eu reservo o meu espírito para vivenciar intimamente a magia de um acontecimento que me mantém no desejo de transcender, ainda que encarnado, ainda que em busca de me manter materialmente contrariando algumas das minhas convicções. Sei que vivemos na corda bamba entre sermos no que acreditamos ser e entre o que é possível ser.

Que todos possam vivenciar um Natal ideal, de alegria e amor!

Foto por Zuko Sikhafungana em Pexels.com