#Blogvember / Eu Você Nós

Você e eu, frente e verso (Suzana Martins)

Foto por Harrison Haines em Pexels.com

estamos…
colados você e eu frente e verso
e versos
nossos corpos a conversar
intumescências a versar
transpor limites penetrar âmagos
nos engolirmos fazer vibrar estômagos
liquefazer desejos salivares
acessar berços estelares
ultrapassar sistemas solares
em viagens para além do passado
voltar ao útero do nada antes de tudo
penetrarmos em presentes possíveis
conhecermos futuros acessíveis
eu você nós urdidos em fibras
transfigurarmos nossos somas
sonharmos os sonhos dos deuses
somarmos nossos prazeres
inaugurarmos o tempo
fecundar o solo da matéria
criarmos planetas e satélites
explodirmos e enfim
adormecermos a vida…

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes




Bem Te Vi Aos Vinte*

Ainda homenageando à Lívia, minha caçula que aniversariou ontem, uns versinhos que fiz aos seus vinte anos, em *2015.

Chegaste aos vinte anos

Bem te vi nesta chegada!

Bem te vi linda!

Bem te vi confiante!

Bem te vi forte!

Bem te vi melhor

Do que eu fui aos vinte…

Porque é assim que deve ser

A filha superar o pai

Alcançar maior consciência

Vislumbrar mais rasgados horizontes

Viajar para lugares mais distantes

Ser feliz por poder te realizar

Te tornar uma pessoa mais completa!

Hoje, enquanto nascia o dia

Bem que ouvi o bem-te-vi cantar

Enquanto tu saías para estudar

Bem te vi buscar o teu futuro

Bem te vi encontrar o teu caminho

Bem te vi te ver

Sendo essa pessoa amada!

Bem te vi!… Bem te vi!… Bem te vi!…

Sessenta E Dois Sóis

Numa segunda-feira como esta, às 2h da manhã, eu comecei a sonhar esta vida terrena. Aos 62 anos, continuo a sonhá-la, vivendo a carregar o fardo do passado, preparando o futuro, o presente como sentido. Vivê-lo é um presente que alguns poucos conseguem receber. Ele não nos é dado. Temos que buscá-lo. Mas não é fácil. Temos que contemplar o passado como experiência, o futuro como possibilidade que, só é viável se, no presente, o direcionarmos. Tudo é presente. Construído minuto a minuto. Ou desconstruído.

O Tempo não é passível de ser descontruído, a não ser os seus efeitos. Feito um impassível Kronos a observar com curiosidade a nossa passagem, somos nós que passamos por ele… até sermos devorados. É nossa prerrogativa empreendermos essa desconstrução. Somos nós, que navegamos o nosso corpo-identidade-mente, que devemos reverter as expectativas, mudar o nosso rumo dentro do Tempo, quantificado em números, aos quais nos referenciamos.

Para confirmá-lo, é comum registrarmos a nossa presença em imagens – algo que nos exterioriza – que nos coloca presentes no mundo, ao mesmo tempo que nos coloca no passado.  Ao contrário dos povos que temiam a fotografia por acreditarem que roubavam as suas almas, ela reafirma a nossa presença. A própria visão no espelho nos mostra milionésimos de segundo depois, entre o reflexo e a sua recepção.

O nosso corpo sofre a deterioração física, constantemente pressionado pela gravidade que nos puxa para o centro da Terra. Resta a nossa mente voar, quando não são através das máquinas que inventamos para fazê-lo. Certa vez, saltei de paraquedas. Sentir a vibração do corpo no abismo contra a resistência do ar, me permitiu perceber o quanto somos frágeis. Antes de abrir o paraquedas, contemplei a finitude. Mas me sentia feliz. Livre. Vivo.

Neste marcador temporal, convivo com a permanente sensação de queda no abismo. Diferente daquele salto, estou sem paraquedas. Porém, me sinto no controle da situação. O que não quer dizer que saiba quando pousarei no chão. A contradições existem, dão o tom, mas aprendi a conviver com elas. As balizas que uso para estabelecer certa normalidade se mostram cada vez mais instáveis, como se fossem feitas de areia junto ao mar.

Ser do dia 9 de Outubro é ter como companhia John Lennon e Mário de Andrade. Somente por esses dois nomes, a cota de gente proeminente já estaria preenchida. Mas não sou em vão e nem a minha vida, vã. Sei que importo para algumas pessoas. E graças a elas e por elas, oro. Orar é desejar o bem oralmente ou mentalmente. A oração é circular. Faz bem a quem pratica tanto quanto a quem é dirigida. Devolve boas energias em nosso entorno. Uma forma de amor.

Na contramão, sinto que a minha curiosidade está sendo suplantada pelo cansaço em ver tudo se repetir como novidade, ilusão criada através do uso das novas linguagens. Por mais que venha a rebuscar os termos, talvez esteja vivendo apenas uma crise de meia-idade. Ao pensar dessa forma, consigo até sorrir e esperar a chegada da liberdade da alma ao tempo do corpo fenecer como o sol que ao fim do dia vai repousar para além do horizonte. Mais uma ilusão que se desvanece…

Sob o guarda-sol da diversidade…

La Vie*

Quem é aquela jovem mulher que desce a escada?
Olho de novo e busco saber de onde a conheço
Busco a bela moça em minha memória escavada
Perco-me por dois segundos, desde o fim até o começo

Aquela parece ser minha filha menor, parece ser a caçula
Que desce do andar de cima com um novo andar
Que deitou menina pequena e acordou qual mulher de fábula
Transformada em novo ser, com um novo olhar e menear

Como ocorreu de maneira tão célere essa passagem?
De bebê à criança, à menina, à moça, até ser mulher?
Como se deu a consumação desses dias em voragem?
Qual o nome da força que mal consigo, por um instante, conter?

Será a vida, irrefreável e absoluta, que nos coloca o prumo?
Será o tempo, impassível e frio, como um rio a transbordar?
Já antevejo o dia em que a levarei ao altar, para um novo rumo
E o ciclo a se completar, tendo no colo o futuro a me recordar…

*Poema de 2013

BEDA / Brisa Vento Ventania

quando percebi a brisa se aproximar
tocando arvoredos balançando folhas
beijando flores espalhando perfumes
vi que inspirava gentes expirava beleza
ainda bem que meus versos não buscam rimar
e já há algum tempo decidi não mais remar
ao contrário da correnteza
deixei a janela aberta
entraram vento ventania raios solares
derrubaram prateleiras venceram patamares
queimou a minha pele com sopros flamejantes
tornou significados ocultos em claros significantes
acrescentou desejares subverteu pareceres
mostrou que eu queria o que não imaginava querer
como advogar inocência se perdi por vontade o senso?
agora ouço estrelas mergulho em águas profundas
sem tanques de oxigênio para respirar um hiato
sinto o meu coração bater fora do peito
os meus olhos não enxergam o horizonte imediato
suspira por um futuro do pretérito imperfeito
saudade de algo que de acontecer não tem jeito
mas vivo o desejo que me consome
e essa falta também é viver
talvez a faceta mais intensa do meu ser.

Foto por Harrison Haines em Pexels.com

Denise Gals Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins Cláudia Leonardi