17 / 02 / 2025 / As Mães

A mãe Ingrid e a minha mãe, Dona Madalena

Ingrid é uma mãe. Eu e a Tânia, brincando, a chamamos de mãe. Não apenas do Bambino e da Maria. Com o seu talento para ser mãe, conseguiu unir pelo amor um cachorro e uma gata num espaço pequeno. Quem dela se aproxima, logo é envolvido por sua energia boa, seu sorriso contagiante e sua postura de mulher madura em corpo de menina. Seus amigos a idolatram, suas irmãs — Romy Lívia — a amam, a procurando para conselhos ou desabafos. Profissional competente, ninguém imagina que naquele corpo pequeno esteja uma exímia advogada, reverenciada por despossuídos e poderosos aos quais ajuda para se desvencilharem de seus problemas legais.

Quando pequena, já queria se tornar advogada (quem sabe, um dia talvez juíza?), para defender os injustiçados. Mas todos sabemos que nem todos o são e, mesmo assim, ela tem consciência que deve cumprir o seu dever de defensora dos seus clientes diante da Lei. Sempre voluntariosa, quando (mais) pequena, me deixava de cabelo (quando o tinha) em pé com as suas escapadas. “Por onde anda a Ingrid, gente?”… “Presa numa enchente no ABC, onde foi assistir um show de rock!”… Devia ter 12 ou 13 anos. Ela que me corrija, se eu estiver errado.

Muito inquieta, brincalhona, de feitio mais arredondado, ao crescer percebeu que tinha que controlar a alimentação que lhe acarretavam repercussões físicas indesejáveis. Corajosa, enfrenta os problemas psicológicos a que todos nós desenvolvemos com o tempo e a carga que a realidade nos impõe. Eu, mesmo, apenas neste quadrante, tomei essa atitude de fazer terapia. Muito, por sua influência indireta. Essa boa influência compartilha com as suas amigas e amigos, ao quais conheci de mais perto e pude verificar a riqueza de caráter da grandíssima maioria. É comum, ao nos aproximarmos mais de algumas dessas amizades, torcermos para que fiquem bem, desejando para que tomem os melhores caminhos, porque as queremos bem.

Chamado de “Tio” por algumas delas, busco não ser tão intrusivo e sigo os conselhos dela e das irmãs para que não pareça tão inconveniente. O que não é fácil… Mas, enfim, a aquariana que hoje aniversaria, cumpre quase todos os bons predicados do signo da Nova Era que está para se iniciar — o que proporcionará à maioria dos seres humanos a descoberta, a verdadeira vivência e o real conhecimento da Consciência Crística. Espero que não demore a chegar, pelo bem de Gaia

Gosto muito dessa foto! Não sei como a minha mulher tolerava o meu estilo riponga! E a minha filhota do meio, Ingrid, com aquele olhar de quem estava sempre disposta a aprontar! O ano? Feliz!

INDIFERENÇA*

O Sol é indiferente à nossa sorte. De certo, quando envelhecer mais uns 6,5 bilhões de anos, se expandirá a ponto de engolir todos os planetas que o circundam. Mas não se preocupem, terráqueos! Nós, seres humanos, mataremos Gaia antes do próximo bilhão de anos, quando a vida em nossa superfície ficará impossível de continuar pela expansão de sua luminosidade, a não ser em suas formas mais simples. Nestes tempos de seres pandêmicos, mentiras virais tidas como reais e vírus, apenas sobrevivemos…

*Texto de 2020, plena Pandemia de Covid-19

Projeto 52 Missivas / Um Elogio À Sombra / Sombreiro

Meu amigo do Futuro, venha de onde vier,
sobranceiro, o Sol comandava a Vida na Terra. Mas a depender do ângulo, da estação e do meridiano, os seus raios causavam danos – escassez de água, inclemência em sua fornada incendiária, morte. O planeta parecia estar se aquecendo ano a ano, muito devido ao efeito estufa. O calor que antes alimentava e revitalizava tornou-se exceção nas relações naturais com a Biofesra, excessivamente desequilibradas. O fluxo das correntes de ar produzia cada vez maiores tempestades como se fossem ataques pessoais aos homens. Estes, pareciam não entender que nossa atuação maltratava Gaia e seus habitantes.

As diferenças de temperaturas ampliavam as suas marcas e diferenças – frio intenso, calor estuporante. Viver em casas salvas de intempéries portentosas tinham deixado de ser ocasionais e se estabeleciam como regra em nossas cidades habitadas por populações em condições precárias e instáveis. Os ciclos climáticos naturais, desrespeitados, faziam com que o meio ambiente refletisse o relacionamento abusivo que o oprimia. O Sistema hegemônico no planeta enriquecia seus patrocinadores à base da exploração desenfreada dos recursos tratados como inesgotáveis. Que um dia se findaram.

Uma sombra, mais do que desejada, era fundamental. Eu sonhava – esperança fátua – com a cobertura de um sombreiro gigantesco de temperança que nos blindasse das mazelas humanas: um alívio que viesse a equilibrar as forças que nos arrastavam para o buraco abissal da estupidez. Com a cabeça fresca, enfrentaríamos os desafios que se apresentavam diante da comunidade humana, apesar das divisões de todas as ordens. Ressalvo que estas palavras exprimiam pensamentos de tepidez momentânea na aridez de minhas perspectivas pessoais quanto ao Futuro como espécie. Éramos tão recentes na Terra, mas em nossa ínfima presença, agimos como vetores de uma doença progressiva no corpo de Gaia, que reagiu.

Não surgiu a sombra que refrescaria. O clima se transformou em nosso maior inimigo e naufragamos em uma penetrante e permanente camada sombria por séculos, limpando planícies, vales, colinas, planaltos, montanhas, rios, lagos e oceanos de nossa espécie tenebrosa. Tínhamos tanta potencialidade em realizar prodígios, porém prodigiosamente aniquilamos o Tempo. A Vida deixou de contar com a nossa presença na superfície. Nós, os sobreviventes, terminaremos nossos dias sem dias internados em cavernas, da mesma forma que começamos a nossa caminhada na face dos continentes, atualmente consumados em fogo e ardência.

Adeus!

Participam:

Lunna Guedes / Mariana Gouveia

Imagem por Greg em Pexels.com

Projeto 52 Missivas / São Dias De Olhar Pelo Buraco Da Fechadura…

E o que vejo pelo buraco neste primeiro quarto… de século, Gaia?

Próximo a mudança das estações, mais uma invasão. Homens, tanques, mísseis, blindados, irmãos matando irmãos. Passado o primeiro mês da guerra, não há solução na linha do horizonte…

Enquanto neste quadrante, a invasão de biomas inteiros aumentam dia-a-dia desde há muitas estações com motosserras, fogo e tratores, reduzindo a cinzas no solo empobrecido ou arrancando nossas irmãs árvores de seus lugares de origem para servirem aos que se intitulam senhores de seu corpo. Mais um efeito do Patriarcado, não importando a ideologia?

O clima tem se modificado, como sabe, por nossas interferências indevidas no fluxo natural da vida. Os ciclos não se cumprem, a não ser o de guerras de tempos em tempos para lembrarmos o quanto é fátuo matar e morrer por causas delirantes e ilusórias. Enquanto isso, a ferimos inoculando veneno em suas veias-rios, agredindo os seus úteros-mares, os entulhando de lixo.

Armamos armadilhas improvisadas as quais chamamos de casas em encostas de zonas degradadas que certamente virão a ruir mais cedo ou mais tarde. Ou próximos de nascentes e mananciais de água, as degradando. Sempre achei corajosa a opção de pessoas virem a viver em zonas com possibilidade de terremotos, como os residentes da cidade de São Francisco, localizada sobre a Falha de San Andrés. No Brasil, não é opção, mas falta de…

O buraco da fechadura tem se alargado e o que era para ser reservado e preservado, é escancarado e arrancado como se fosse infindável. Sei que nosso estilo de vida causa a morte de nossos companheiros de jornada. E que esse cortejo de seres extintos nos levará à nossa própria extinção.

O que eu especulo é se conseguiremos sobrepujar nossa atração pelo abismo e pararemos para voltarmos a nos conectar na mesma vibração que seu corpo emana, quando nos sentiremos como células-filhas acolhidas em seu corpo luminoso de azul.

Gaia, até onde deixará que iremos antes que faça o que for preciso para sobreviver?…

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes

Eu E Os Bichos

Jojo Todynho em sua teia

Dia de intensa chuva, ao sair para rua, vi junto ao muro um rato correndo em minha direção. Passou por debaixo do portão e subiu em uma pedra de granito junto à entrada. Fez menção de continuar seu trajeto para dentro da garagem e o impedi com o meu pé. Falei para o bicho:

Descansa um pouco, mas nem pense em entrar. As cachorras vão lhe atacar!

Antes que terminasse de argumentar, a Dominic surgiu como um azougue e abocanhou o pobre rato! Ainda que ela o largasse quase imediatamente alertada por meu grito, logo deixou de se mexer.

Em outra ocasião, após mais um dia de chuva, a porta da sala estava aberta e vi uma barata caminhando lentamente do quintal para dentro. Enquanto escrevia, reparei que ela estava naquele estado em que a energia que movimentava as suas patinhas se esvaia. Tempo de morrer. Tivessem as cachorras acordadas, ela já teria sofrido um ataque. Baratinada, buscava um cantinho para terminar seus dias. Eu apenas a afastei de volta para o quintal e não voltou a entrar.

Vez ou outra, em situações limites, espalmo pernilongos mais atrevidos, mas na grande maioria das vezes, ligo o ventilador para que não tenham equilíbrio no voo, além de esfriar o ar em meu entorno, condições das quais o inseto não gosta. As minhas filhas preferem usar inseticidas e repelentes na pele.  Tanto em relação aos pernilongos, quanto às baratas, elas não gostam que eu aja dessa forma. Respondo:

– Meninas, sou franciscano!

Certa vez, varria o quintal e uma conversa entre mim e um marimbondo moribundo, gerou um conto. Na verdade, era Deus, em uma de suas incursões pelo mundo material. Falou comigo porque o respeitei. Ainda que chame de conto, o diálogo interno realmente ocorreu. 

O meu ano começou com outra conversa. Dessa vez, com formigas. Estava terminando de carregar o equipamento do Réveillon realizado num hotel em Águas de Lindóia quando fui recolher doces que havia separado e pretendia levar para o pessoal de casa. As atentas formiguinhas estavam rodeando os invólucros dos objetos de desejo de ambas as espécies. Logo que as coloquei num saco plástico, longe do alcance dos insetos. Imediatamente, o sentimento de culpa me assomou. Pedi para que elas esperassem e fui buscar possíveis restos na mesa de doces.

Tive sorte e encontrei restos deixados por humanos. Algumas pessoas abocanharam metades dos doces e os deixaram espalhados. Levei uns três pedaços que achei suficientes para alimentar o formigueiro inteiro. Nem podia imaginar onde se localizaria a colônia, assim como não sabemos de onde surgem as formigas que habitam as nossas casas. Enfim, terminado de carregar o equipamento, fui me certificar que as bonitinhas estivessem fazendo o bom trabalho de carregar pedacinhos para a turma. Satisfeito, voltei para São Paulo pensando o quanto devo parecer fora de órbita, a ponto de relutar em escrever este texto.

Esse comportamento desenvolvo desde pequeno. Minhas paredes eram habitadas por lagartixas, bichinhos que admirava. Desenvolvi, durante um tempinho, um relacionamento de confiança com uma aranha-pega-moscas. Muito inteligentes, em vez de caçarem com teia, essas aranhas saltadoras têm uma excelente memória e detectam as suas presas com a sua excelente visão. Normalmente precavidas contra movimentos bruscos, aquele bichinho em especial confiava em mim.

Conheci várias outras, desde as de abdomens mais desenvolvidos até as de patinhas mais longas. Fascinados por artrópodes, pensei até fazer o curso de Zoologia, mas como as plantas também eram atraentes por considerá-las seres (de funções) superiores, sonhei em ter um sítio para a produção de alimentos naturais, aos 14 ou 15 anos. Um livro ampliou para além da suposição a minha impressão em relação aos seres do Reino Vegetal  ̶  A Vida Secreta Das Plantas. Com esse estudo, percebi que toda a vida na Terra estava interligada. Através de GaiaMãe-Terra – os seres viventes são potencializados pela energia material, abrigo da anímica.

Ainda sobre as aranhas, mais recentemente, tivemos uma moradora de tamanho mais avantajado – a Waleska. A visão que ela tinha do crepúsculo era a mesma que eu buscava e compartilhamos vários momentos e ideias. Viveu alguns meses na varanda e desapareceu sem deixar vestígios. Mais recentemente, surgiu uma outra, em uma área mais abrigada, a qual as meninas batizaram de Jojo Todynho. Está conosco há alguns meses e parece ter feito um lar em que comida não falta e seus descendentes podem prosperar. Se bem que o equilíbrio natural impedirá que cresçam em número.  

Consciente de minha excentricidade, não posso deixar de agir como penso a existência. Somos apenas uma das espécies que vivem neste planeta. Não somos os seus únicos senhores. A Natureza parece estar mostrando que nossas ações negligentes acarretam sérias consequências, podendo nos levar à extinção. Muito cedo para nós. Muito tarde para vários de nossos companheiros de jornada de outras espécies, extintas por nós…