Bom Dia! (Ou Como Zeca Baleiro Salvou Duas Vidas) — Parte Três

Miau

Raul retornava de sua jornada pautada pelo refrão de “Telegrama”. Pela janela da casa antes da sua, era observado por Carla em seu primeiro dia de férias que imaginava, horas antes, ser para sempre. Raul passou pelo pequeno portão e antes de entrar, retirou a máscara, deixando que ela pudesse observar um homem bonito de barba longa e revolta, assim como os cabelos, pontuados por fios brancos. Devia ter a sua idade. Parecia sorrir. Ela não sabia, porém ele voltava de sua última parada, na Casa de Pães, onde esteve com Joaquim, um português da Província de Algarve, que viera já moço para o Brasil, a convite de um primo. Deixou as praias do Mediterrâneo rumo a cidade desconhecida e descomunal em tamanho e complexidade. Imediatamente, se apaixonou por São Paulo. Padeiro desde garoto, montou o negócio que começou pequeno, mas que cresceu bastante em prestígio a ponto de se tornar um ponto de degustação “gourmet”. Suas criações eram apreciadas por muitos que faziam questão de vir de todo lados da cidade para participarem dos lançamentos — um programa imperdível.

O caso de amor com os pães, tornou Raul um frequentador assíduo. O interesse em conhecer histórias e pessoas diferentes, o aproximou de Joaquim há alguns anos. Tornaram-se amigos. Este, vivia preocupado com “Rauzito”, continuamente cabisbaixo, açoitado que era por sua sensibilidade à flor da pele. Quando a Casa de Pães foi visitada por ele, pelo amigo de Raul e sua noiva, não gostou do jeito da moça, mais atenta ao outro rapaz que propriamente a ele. Quando foi deixado por Flor, foi Joaquim que o amparou. Fez questão de dividir algumas taças de vinho do Porto a portas fechadas com o amigo arrasado. Devido á amizade, Joaquim não se surpreendeu com o chamado de Raul a um dos balcões e sem dizer palavra, pegou a sua mão, a aproximou do peito e lhe desferiu um beijo estalado no rosto, ambos mascarados. Sabia que aquele gesto significava algo importante, ao qual explicaria quando pudesse.

É claro que entrar em casa e não encontrar Miau sentado em seu trono-sofá era sempre algo que o surpreendia como se a partida do amigo não tivesse acontecido. Mas sentiu que o vazio era compensado com o enorme amor que deu e recebeu durante mais de uma década. Ele o encontrou dentro da casa que acabara de alugar quando chegou de Bragança para dar aula na faculdade. O pequeno ser deve ter entrado por uma fresta da janela traseira que dava para um pequeno quintal. Devido ao muro alto, ele achou que o pequeno felino tenha sido jogado. Foi sua companhia desde então. Sequer viajava muito tempo para não o deixar só, o que exasperava Flor. O estranho é que tenha partido logo depois dela tê-lo deixado. Provavelmente não havia conexão, mas a sequência dos fatos, quase encavalados, foi demais para ele. Saudoso, se deitou no sofá forrado de lembranças em pelos de Miau e, como há muito tempo não acontecia, pegou no sono. Sonhou com o amigo sentado no braço de sofá de nuvens. Ele o olhou como da vez que perdera as forças para continuar vivo. Pediu para que atendesse a um pedido, a qual Raul respondeu: “Eu prometo!”…

Carla, ainda mais agora que o vira rapidamente, não tirava Raul da cabeça. Francisca ainda fazia o seu serviço, enquanto ela pesquisava pela Internet pessoas próximas com o nome de “Raul”. Francisca estranhou que estivesse tão calada. Todas as vezes que vinha, ela falava o tempo todo como se precisasse desabafar. Relatava as situações pelas quais passava, muitas das quais não compreendia. Sabia que só de a ouvir já ajudava àquela mulher tão complicada quanto bonita. Boa gente, sem dúvida, mas que devia ser um “pé no saco” de conviver, enquanto pensava nos homens que conhecia, os quais nem a deixavam completar uma frase inteira. A maior parte, só valia pela foda, aliás muitos, nem para isso. Poucas vezes vira a Carla (que fazia questão que a chamasse dessa forma) conversando com alguém no celular que não fosse para chorar e se dizer arrependida. Palavras entrecortadas por colossais lágrimas que banhavam seu lindo rosto.

O que tanto procura no computador, Carla?

— Ah, Francisca! Isso nunca me aconteceu antes, mas estou obcecada pelo vizinho do lado. Ele se chama Raul. Parece ser um fantasma. Não há nada parecido com o perfil dele nas redes sociais. Não tentei isso antes, mas já ouvi falar. Localização remota. Encontrei gente que eu conheço que nem sabia que morava por perto.

Sem citar que se suicidaria uma hora antes de sua chegada, que se deu antes do normal, Carla contou o que aconteceu anteriormente a Francisca surgir como um anjo salvador.

— Você não disse que ele voltou para a casa? Por que não chama o cara?

— Será que ele não achará uma intrusão?

— Quem se meteu na sua vida, foi ele! Conversa e veja se vale a pena investir…

Investir? Parecia que Francisca falava de uma transação financeira. De repente, Carla percebeu que ela fazia algo parecido — investimentos em possibilidades sempre acima das expectativas. Percebeu que buscava no outro a compensação por gastos emocionais que afundavam a relação mesmo antes de começar. Se deu conta que ela só teria “sucesso” se não sentisse necessidade de encaixar o outro ou a outra em suas necessidades. Não era o caso de se desvalorizar, mas pelo contrário — o de se sentir tão autônoma que não precisasse de outrem para se sustentar como pessoa. Por que temer ir conversar com o vizinho? Isso era ridículo para uma mulher que estaria morta se não fosse a intervenção de Raul.

O vizinho acordou com a campainha. O sonho com Miau, apesar das características estranhas, sentiu como se fosse real. Acordou em paz. Sabia que o amigo estava bem e que voltaria a encontrá-lo quando fosse o tempo, ainda que o nosso tempo não fosse o do plano no qual Miau estava. Foi até a porta e viu uma mulher usando máscara a chamá-lo no portão. Ela pediu que se aproximasse. Esquecido de que estava sem máscara, Raul caminhou pelo caminho de tijolos amarelos, até ficar a um metro dela.

— Oi, Raul, como está?

— Eu a conheço?

— Ah, desculpe! O meu nome é Carla! E você me salvou, hoje…

— Achando que ainda estivesse sonhando, Raul sorriu timidamente…

Ao perceber que tinha dito mais do que pensava em fazer e de maneira tão franca, Carla tirou a máscara.

— Sou a vizinha à esquerda. Você me deu bom dia, de manhã…

Sim, aquela era a bela vizinha que fez com que perdesse o rebolado, o empurrando em direção ao outro portão antes que ela dissesse algo. “Eu a teria salvado de que?” — pensou. Mergulhou no sonho como se fosse a realidade e respondeu:

— Não estou entendendo…

— Olha, perdão! Acho que falei demais!

— Não, não falou… Talvez você não acredite, mas lhe desejar bom dia, me salvou, também…

Carla estava definitivamente envolvida por aquele homem. Adulto, sim, mas ao mesmo tempo parecendo ser tão desprotegido quanto um menino.

Este dia está sendo tão inesperado, ainda mais porque nem estaria o vivendo neste momento…

Tomado pela coragem de quem estaria morto, Raul perguntou se ela não gostaria de entrar. Carla aceitou, observada pela janela por Francisca, que exibia o seu maior sorriso, que torcia pela amiga…

Ao entrar na casa de Raul, Carla percebeu que era gêmea da sua em espaço interno, como devia ser a do Fábio, o outro vizinho. As três compunham um cenário de interior àquela rua movimentada de Santana. Poucos móveis, uma mesa central, com quatro cadeiras desarranjadas, uma velha televisão a um canto, um sofá de três lugares e outro junto à janela, ambos cheios de pelos de gato. Do lado do sofá menor, uma mesinha redonda com um frasco de tranquilizantes. Procurou pelo bichano e não o viu. Mesmo assim, perguntou:

— Como é o nome do gato?

Miau… Conversei com ele um pouco antes de você me chamar. Mas ele não está mais aqui… Ele partiu há alguns dias…

Sem se importar com os tempos verbais divergentes, Carla percebeu, pela porta entreaberta, que a cama do quarto estava arrumada, enquanto o sofá apresentava uma depressão no formato de um corpo. Há um mês, desde que Flor o deixara, Raul não usava a cama de casal, que comprou justamente para o dois. Dormia com o gato no sofá. E, depois, sem ele…

— Quer uma água, suco? Tenho uma garrafinha do de laranja.

— Você teria vinho?

Carla não acreditava no que estava dizendo. Quem era aquela pessoa que tomou conta de seu corpo? Raul, da mesma maneira, se sentia perfeitamente à vontade como quase nunca acontecera antes. Parecia estar presente diante de uma velha amiga… ou de uma antiga namorada.

Por acaso, se é que existe acaso, tenho um vinho do Porto, me dado por um amigo querido. Ele disse para que eu o tomasse numa ocasião especial. O que seria mais especial do que celebrar renascimentos?

Aquelas palavras impactantes, ditas tão naturalmente, deixaram os dois como que paralisados um diante do outro. Carla, que ao voltar colocá-la, ainda não havia retirado a máscara, mostrava os olhos fulgindo em faíscas. Raul se afastou relutante e se dirigiu até o armário da cozinha, de onde retirou o vinho. Ao lado, perfilavam exatamente duas taças. Alguns pratos e poucos copos completavam a composição que denunciava o ambiente de um homem sozinho, abandonado a si.

Raul puxou a mesinha redonda, a pôs em frente ao sofá, abriu o vinho, encheu as taças com a mão trêmula. Deixando-se levar por ondas de inebriamento em que o vinho apenas vinha a realçar, ele e Carla, tendo os seus quadris assentados sobre as lembranças de Miau, conversaram abertamente sobre tudo. Discorreram sobre gostos e gozos, música, teatro e cinema, percalços, avanços, retrocessos e estagnação no lodo humano no qual todos chafurdávamos. Viajaram para países que nunca viram, divagaram sobre a profundidade da existência e de como sofriam por verem como eram todos conduzidos para a insensatez coletiva, a ponto de não conseguirem lidar com aquela realidade. Descreveram todas as quedas dentro da queda no abismo, todos os desvios do caminho da lucidez, a extrema transparência de suas personalidades fragilizadas, os abraços sempre adiados com a morte, incluindo as mais recentes, que os uniu em vida. E se deliciaram em perceber como Zeca Baleiro os salvou, com “Telegrama”.

Enquanto conversavam, os seus corpos foram magneticamente se aproximando até estarem tão próximos que os hálitos se confundiram. Os olhares venceram os limites da retina e adentraram à alma de cada um, como se trocassem de matéria. Atendendo ao desejo da pele, desmascarados de artifícios, se desvestiram de seus casulos de proteção e se entregaram à pequena morte, intensamente. Mudaram de plano e se reconheceram suados, descabelados, untados de fluídos corporais. Sorriram um para o outro em bocas unidas. Só, então, Raul falou sobre a promessa que fez a Miau quando falou com ele, em sonho. Miau pediu para que deixasse o coração aberto para a vida.

— O meu amigo sabia de sua chegada, Carla

Deixaram cair lágrimas de agradecimento ao Todo. Tarde da noite, exaustos, adormeceram abraçados.

Quando Raul acordou, o trânsito na rua já começava a se intensificar. Carla não estava. Tomou um banho, se vestiu rapidamente com um agasalho de corrida e saiu, ansioso para chamar a vizinha e lhe dar bom dia. Em sua porta estava pendurado, colado com adesivo um papel que dizia:

“Telegrama

Nego, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama
Que tanto te ama
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama”.

Raul se sentiu um homem em sua plenitude. Não chegou a dar volta até o portão e nem apertou a campainha. Pulou a mureta que separava as duas frentes e bateu à porta de Carla. Em pouco tempo, surgiu a mulher que achou ainda mais linda do que antes. O sol matutino incidia sobre seus olhos e boca, irradiando alegria para toda a Santana. Raul esticou o braço em sua direção:

— Vem! Me dê a mão, vamos sair prá ver o sol…

BEDA / Scenarium / Velho E Sorriso – Parte II

Velho estava acostumado a dormir pouco. Ainda que em dias de baile voltasse às 5h, às 8h se punha de pé. Não encontrou Sorriso. Gato pedia para sair para o jardim e foi atendido. Ao abrir a porta, viu Sorriso passando pelo portão com leite, frios e pãezinhos nas mãos. Ao vê-lo, sorriu.

– Bom dia, Velho! Não tinha quase nada, a não ser café. Fiz umas comprinhas.

– Bom dia, Sorriso! Não precisava… Nos últimos tempos, estou habituado a tomar apenas café, pela manhã.

– Também não estou acostumada… Vamos mudar um pouco. Tome um café da manhã completo, comigo, por mim, tá?

Sorriso, ao verbalizar seu pensamento, percebeu então sua ousadia. E se o que estivesse pedindo fosse demais? Será que ele a considerava tanto quanto imaginou?

– Se fosse fazer algo por alguém, seria por você, Sorriso… e pelo Gato, claro…

Seu rosto se iluminou no sorriso mais aberto. Entraram.

Se era uma coisa que Sorriso sabia fazer era café. Desde bem pequena, aprendeu a preparar a bebida para sua mãe. Em casa, mesmo cansada da noite do trabalho pelas esquinas do Centrão, encontrava prazer nesse cuidado de filha. Ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas, bastava Helena tomar a sua dose encorpada de café para se sentir torporizada. Dormia a manhã toda, enquanto Sorriso cuidava dos três irmãos. Sorriso acabou por ficar só quando dois deles morreram de parada respiratória por uso de cola e o terceiro sumiu sem deixar vestígios, todos antes dos dez anos. Sucessivamente, como praga dos deuses, Helena caiu gravemente enferma e morreu. Ainda antes mesmo de completar doze, já oferecia o corpo em troca de subsistência. Seu Zé, dono do cortiço onde morava – que ela via como uma espécie de pai – teve essa ideia para pagar o aluguel. Foi o primeiro a usá-la. Depois, passou a oferecê-la para outros homens. Fugiu. Vez ou outra, algum homem solitário a chamava para morar um tempo consigo. Ficava o tempo até perceber que se tornara uma empregada mal paga: de cama, mesa e limpeza, além dos eventuais espancamentos. Nunca quis ser uma “típica dona de casa”.

Desta vez, foi Sorriso que tomou a iniciativa de ficar com Velho. Percebeu que tinha uma imensa ternura por aquele homem experiente e triste. Queria cuidar dele, se assim permitisse. Alternativa que pareceu ser aceita quando, após o cheiroso café da manhã, Velho disse para Sorriso ficar à vontade e permanecer o tempo que quisesse. Completou que não impediria que ela continuasse o seu trabalho, se assim desejasse. Pela primeira vez, Sorriso desejou que alguém demonstrasse certo sentimento de posse por si…

Com o correr dos dias, semanas, meses, a relação dos dois se transformou em algo bem mais rico do que apenas uma mescla de simpatia e ternura que sempre existiu. E foi essa situação que os dois filhos de Velho – Júlio e Juliano – encontraram quando foram visitá-lo: um casal feliz. Aquela conjuntura os pegou desprevenidos. Mais uma vez, estavam decididos em convencer o pai a deixar a casa e ir para um asilo. Logo a vista do jardim redivivo, com flores novas a brotar nos canteiros, os deixaram desconcertados. Era como se Dona Nina estivesse esperando com suco, café e bolo. A saudade aumentou ao sentirem os mesmos aromas ao chegarem à porta.

Velho não havia lhes alertado sobre a nova situação quando avisaram que iriam encontrá-lo. Entretanto, preveniu Sorriso sobre como eles se comportariam. Experiente no trato com as pessoas, promotor e relações públicas durante cinco décadas, conhecia a natureza humana. Nada e ninguém o surpreendia. Suspeitando da insistência dos filhos em tirá-lo da casa na qual cresceram e onde ele viveu os últimos sessenta anos, procurou se informar e soube que aquela área estava cada vez mais valorizada e o terreno que abrigava a sua residência valia muito dinheiro. Era disso que se tratava. Nada de desvelo ou preocupação com o velho pai, ainda que se enganassem mutuamente que assim fosse. Nada de desejar o melhor para aquele que os sustentou, educou e se esforçou para que chegassem à faculdade. Apenas interesse econômico. Ele valia mais morto do que vivo. Já vira isso acontecer durante seu trabalho com o pessoal da terceira idade. Tornou-se confidente de muitos velhos – homens e mulheres.

– Como vai, papai? – perguntou o mais velho, Júlio, que aliás carregava o nome do pai.

– Bem! Como pode perceber…

Realmente, Velho parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Continuou:

– Eu apresento a vocês, Sorriso, minha companheira…

Literalmente, com os queixos caídos, os Jota-Jota, como eram conhecidos, gaguejaram coisas como “pensamos que se tratasse de uma empregada ou cuidadora”; “o senhor nunca foi disso, se envolver com uma garotinha”; “deve ser uma aproveitadora, de olho em sua grana”…

Sorriso fez que não ouviu e mostrou porque carregava aquela alcunha. Disse de maneira bastante suave e até alegre:

– Fiz bolo de cenoura, café e suco. Por que não se sentam?

Como se tivesse lhes dirigido impropérios, os filhos de Velho começaram a gritar:

– Que é isso? Você não é Mamãe! Quem pensa que é? Putinha!

Velho apenas se dirigiu à porta e pediu que saíssem, com o coração apertado, intuindo que os filhos, para atingi-lo, impediriam que visitasse os netos.

– Isso não vai ficar assim, Velho! Vamos interditá-lo!

Quando saíram, Velho desabou no sofá e quase agradeceu por sua Nina não estar viva para presenciar aquela cena. Sorriso se sentou em seu colo e o abraçou afetuosamente.

O encontro com os filhos se deu no início de 2020. Ainda que doloroso, não quebrou a feliz rotina do casal. Velho e Sorriso, meses antes haviam se tornado assíduos frequentadores dos salões da noite paulistana. Velho reviveu as suas melhores noites. Para Sorriso, que com ele aprendeu seus primeiros passos de dança de salão, se descortinou uma vida que sequer imaginara. Em meados de Março, os bailes de casais começaram a ser cancelados com a chegada do novo corona vírus, com a promessa da progressão da Covid-19. Para evitar o seu avanço, a Quarentena foi instaurada. Não era difícil para o casal ficar em casa, com Gato a lhes acompanhar. Quem pudesse vê-los ocasionalmente, logo identificaria a cumplicidade natural daqueles que se amam.

No início de Abril, Velho começou a se sentir cansado e a tossir um pouco. Logo, percebeu que não estava nada bem. Disse a Sorriso que não queria ir para o hospital, nem que avisasse aos filhos. E pediu a ela que o deixasse sozinho para que não se infectasse com a doença que sentia progredir rapidamente. Sorriso o olhou dentro dos olhos, como gostava de fazer para ali encontrar o brilho do homem gentil e amoroso. Percebeu que estavam um tanto embaçados. Disse:

– Eu nunca mais sairei do seu lado…

Velho sorriu um sorriso de velho que era. Sorriso se deu conta que o estava perdendo. Tomou uma decisão, cujo desfecho só foi conhecido dias depois. Gato, que miava incessantemente no jardim frontal, pedindo para entrar, chamou a atenção dos vizinhos que passavam. Ao se aproximarem, sentiram um forte cheiro vindo de dentro da residência. Chamaram os bombeiros, que arrombaram a porta. Encontraram uma jovem de vinte anos e um senhor de oitenta, abraçados na cama de casal. Mortos. Um leve odor de gás evidenciou a causa dos óbitos.

Ao saírem com os corpos, os soldados passaram por Gato, assentado na cômoda da ante sala. Sonolento e indestrutível.

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Velho E Sorriso – Parte I

O velho homem, entre tantos no salão de baile, não era percebido. Não mais. Antigo promotor de eventos, ainda sorri quando é reconhecido por poucos saudosos de seus bailes. Na maior parte do tempo, observa aos dançarinos, a dançar com os olhos em lugar dos pés cansados. Quase sempre, é um dos últimos a deixar o espaço como se ele mesmo se esvaziasse.

Num desses dias, madrugada alta, a caminhar para casa, o Velho passou mais uma vez pela mocinha sorridente. Costumeiramente, naquela área, ela se oferecia como a alegria passageira de homens e mulheres que pagassem 20, 10 Reais, durante anos-noites seguidas. Por vezes, sumia por semanas outras. Apesar do sorriso fácil, quase um cacoete, como se fosse um cachorro que abanasse o rabo entre as pernas por medo de ser atacado, Sorriso se abria em lábios de forma sincera para o velho. Em troca, recebia sempre um sonoro “boa noite” ainda que a manhã ameaçasse surgir.

Naquela madrugada, ocorreu algo diferente. Velho parou diante da moça que, surpresa, estancou em sorriso-esgar.

– Como vai você?” – ele perguntou.

Desacostumada a falar, a não ser para oferecer serviços e valores, pareceu não entender. Percebeu que a pergunta não havia sido mera formalidade.  Respondeu sinceramente:

– Hoje, não estou bem, Velho… – Ao se ouvir, Sorriso parou de sorrir, denunciando seus olhos tristes.

– Faturou pouco?

– Nem tanto…noite de muitos solitários…

– Quer amainar a solidão de mais um? Mas não quero entrar nesse cubículo escuro. Moro a uma quadra daqui. Sozinho. Gostaria de me acompanhar?

Sorriso não estava habituada a ser bem tratada. Via a Velho, como era conhecido por todos, sair acompanhado cada vez com menos gente ao seu lado. Ultimamente, ninguém. Aceitou o convite. Os dois caminharam sem mais nenhuma palavra. No entanto, pareciam conversar a cada olhar evidenciado pela luz artificial. Velho morava em uma casa baixa, uma das mais antigas da região, quase toda tomada por novas torres de moradia.

Passado o portão, o jardim escuro escondia o roseiral que sobrevivia apesar de não ter mais os cuidados de D. Nina, falecida há três anos. Os dois filhos, desde então, pressionavam pai viúvo a sair de casa para um retiro, já que viviam em apartamentos que não suportariam a presença de mais um, ainda que ele não tivesse problemas de saúde aparentes; ainda que fosse um avô amoroso. Em contrapartida, era pouco visitado.

Restou como único companheiro o gato angorá, tão antigo quanto alguns dos móveis da casa. Portento de resistência e pelos, postado sobre a cômoda que ficava no corredor de entrada, Gato foi a primeira coisa que Sorriso viu ao avançar com seus passos tímidos casa adentro. O miado quase inaudível foi acompanhado do olhar sonolento. Confirmada a presença de seu velho cuidador, Gato fechou os olhos de brilho preguiçoso.

Sorriso tinha diante de si uma casa ampla e de opressora solidão. Tudo cheirava a cortinado e mobiliário antigo. Velho disse para que Sorriso ficasse à vontade. Indicou o banheiro caso quisesse usá-lo e a cozinha, se estivesse com fome. Sorriso já não sabia quando estava com fome. O estômago, porém, o sentia continuamente vazio. Disfarçava com uma pedrinha de vez em quando ou, com sorte, um pó. Não gostava de maconha, por causa da larica. Após lavar as mãos, foi ver o que poderia encontrar na cozinha. Com pão amanhecido e queijo branco um tanto amarelado, fez um sanduíche simples. Perguntou se Velho gostaria que preparasse alguma coisa. Respondeu que poderia ser o mesmo que o dela. Para incrementar, ela esquentou o pão na frigideira e ao queijo acrescentou um tomate perdido na geladeira. Disfarçou a velhice do queijo com orégano e o serviu com a última lata de cerveja.

Aquela ação enterneceu o coração de Velho. O preparo do lanche simples o fez viajar para anos antes, quando Nina ainda conseguia erguer os braços e caminhar. As dores reumáticas começaram a impedir que pudesse fazer o mínimo esforço sem muito sofrimento. Desgostosa em não poder mais servir ao seu companheiro de meio século, definhou até falecer. Quando aconteceu, os filhos não estavam presentes, em férias, o que deixou Velho bastante abatido. Desejou acompanhá-la na viagem sem volta e só não o fez pelo compromisso assumido: cuidar de Gato.

Após o lanche, Sorriso perguntou o que ele queria que fizesse. Velho, franco e jovial, sorriu. Por um instante, ela chegou a vislumbrar o jovem que o velho um dia foi através da luz do tempo emanada de sua boca. Disse que queria que Sorriso tirasse a roupa e se deitasse ao seu lado. Acrescentou o convite para que dormisse ali, naquela noite.

– Atrapalha o seu trabalho?

– Não! Já estou no final do expediente. Há muito tempo, ninguém me espera!

– Ótimo! Não precisa acontecer nada. Estou cansado. Mas também vou tirar a roupa.

Ato contínuo, começou a despir-se do elegante terno preto de anos, mas bastante preservado. Deitou-se logo após. Sorriso pousou uma das pernas sobre o corpo de Velho e, se sentindo realmente segura e confortável, dormiu quase imediatamente.

Velho, comovido, fechou os olhos. Com a pele jovem a lhe tocar pernas e púbis, inesperadamente, teve uma ereção. Sentiu-se homem de novo. Adormeceu.

Beda Scenarium