BEDA | Pensar

Celular
Au! Au!

Eu gosto de pensar. Aliás, penso demais. Inquieto, a cada novo fato, exploro todas as suas possíveis repercussões. Curioso, busco conhecer todas as perspectivas de um acontecimento. Libriano, pareço mudar de opinião apenas porque os pratos da Balança pesam as circunstâncias. Prefiro chamar de justiça. Não são poucas as vezes que faço o advogado do Diabo – coisa irritante…

No entanto, essa característica com cara de indecisão, muitos consideram um sério defeito. Por isso, muitas vezes, tento me libertar das amarras do pensamento. Dizem que deveria ser mais solto e que agir por impulso não me faria mal. Quando agi dessa maneira, foi sempre por amor. Na criação das minhas filhas, por exemplo, em vez de seguir cartilhas, preferi deixar o coração falar. Por vezes, com dureza. Não parece que tenha feito um trabalho ruim.

Essa forma de vivenciar a minha experiência como ser, apesar de bem-intencionada, não é fácil e nem inteiramente livre de enganos… e nem verdadeira. Talvez, ao contrário. É bem provável que eu seja um engodo… para mim mesmo. É uma luta para descobrir a minha alma, quase totalmente “protegida” pelo escudo do pensamento. Meditação seria a melhor alternativa. Parar a roda dos pensamentos para descortinar o meu “eu” interior. Mas o meu corpo se recusa a deixar…

Ao mesmo tempo, seres pensantes que somos, nos auxiliamos de subterfúgios para não pensar muito. Usamos de ideias, opiniões e preferências pré-formatadas para lidar com as várias solicitações cotidianas. Decisões são tomadas por impulso ou emprestadas de segundos e terceiros. Ideologias são usadas como lentes, a distorcer a visão dos acontecimentos. Previamente estipulados o “sim” e o “não”, acaba por se tornar complicado argumentarmos com algumas pessoas. Eu gosto do debate. Gosto de acolher as opiniões alheias, ainda que mantenha certas convicções para determinar uma postura minimamente coerente.

Contudo, alguns abusam de nossa busca pela facilidade do equilíbrio mental diante de tantos requerimentos. Propagandeiam: use isso ou aquilo para que não precise pensar. Tomem o caminho mais fácil para chegarem onde querem. Ajam sem pensarem para atingirem os seus objetivos. Sigam os “formadores de opinião”.

Sou fã de Fotografia. Ao passar em frente a um anúncio de celular no Metrô, é alardeado que o aparelho apresenta uma “câmera inteligente que pensa por você”. Obviamente, para evitar que o fotógrafo amador “pense” sobre luz, posicionamento, ângulo e outros detalhes, ela padroniza a obtenção da imagem desejada. Eu me senti disfuncional – não seria justamente “errar” o que nos dá o prazer de aprender ao buscarmos uma imagem que venhamos a apreciar? Decidiram chamá-lo de “Zenfone”, o associando o estado mental “zen” ao automatismo e não à autoconsciência. Além disso, é utilizada a imagem de um cão para angariar simpatia ao projeto. Ou seria, subliminarmente, uma maneira de dizer: “obedeçam como a um cão adestrado”?…

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Dança Das Entidades

ENTIDADES
A dança…

O dia frio e úmido destoava da sensação que o corpo de Thiago sentia – ar tão abafado que as mãos estavam molhadas – como se tivesse sob um sol escaldante. No entanto, corria a noite… Sabia que sua febre não era puramente física. Don Diego, que o acompanhava e, eventualmente era convidado a assumir o seu corpo, ardia de saudade… Não que fosse represália por Thiago ter brigado com Diana, que carregava Saphyra, seu amor. Apenas acontecia.

Thiago e Diana também já se amaram. Mas viviam às turras, com diferenças quanto a objetivos e posturas. Thiago era mais tranquilo e retraído, quase tímido. Timidez que se esvaía quando colocava sua roupa de cigano e dançava as vibrações-referências de todos os lugares do mundo por onde o seu povo passou, desde quando os ciganos deixaram o Egito e a Índia, passaram pela Pérsia, Turquia, Armênia, chegando à Grécia, onde permaneceram por vários séculos antes de se espalharem pelo resto da Europa, com influências húngaras, russas e espânicas. Don Diego era mestre na dança flamenca.

Saphyra, de origem grega, também sofria. Com o corpo da esfuziante Diana, fazia uma mescla estonteante de flamenco e árabe. Quando conheceu Don Diego, no corpo de Thiago, imediatamente se apaixonou. O casal-entidade forçou para que Thiago e Diana ficassem juntos. E assim aconteceu, não sem antes causarem as separações dos casais que os abrigavam, também ciganos. Apesar da dor causada pelos rompimentos, os respectivos cônjuges se conformaram diante da explosão passional de beleza e efervescência emanadas quando as entidades dançavam nos corpos de seus companheiros. Sabiam que não havia como impedir o rompimento diante do jorro de energia pura que se precipitava salões afora por onde volteavam.

Thiago, por Don Diego, do qual gostava muito, decidiu chamar Diana para conversar. Ela aceitou, por Saphyra e porque o desconforto que passava a estava impedindo de trabalhar. Marcaram de se encontrarem longe do Recando Santa Sarah, em cujo salão de eventos, dançaram pela primeira vez, causando frisson entre todos que os assistiam, em uma festa com a presença dos Guardiões da Noite do Oriente, com a participação de várias famílias ciganas. Entre volteios e braços erguidos, cruzaram os olhares dentro dos olhares, longos cabelos jogados pelo espaço. A grega e o espanhol formaram a dupla que encheria de força cósmica todos os encontros nos últimos cinco anos.

Fora das festividades, Thiago e Diana tiveram que lidar com o cotidiano massacrante de professor e enfermeira. Nos momentos de encontro amoroso, usufruíam do poder do chakra sacral – Swadhisthana – livre e ativo. A conexão entre Don Diego e Saphyra se consolidava a cada encontro, enquanto Thiago e Diana perdiam suas identidades. No entanto, a massa de energia era tão grande que se espraiava prazerosamente por todos os poros de seus corpos. As peles, depois de cada refrega, permaneciam sensíveis a qualquer toque por quase 24 horas, como se fossem queimaduras. Apesar de todo o prazer que sentiam, os efeitos também concorriam para se sentissem desconfortáveis juntos, quando conscientes.

O ex-casal se encontrou em um Café no Paraíso, subiu as escadas e se posicionaram em um dos cantos do mezanino. Estavam calmos e inicialmente conversaram amenidades sobre saúde e rotina. Sentiam-se estranhos por estarem ali naquele ambiente impessoal. Contudo, talvez fosse o ideal para evitarem certas repercussões que já ocorreram antes. Como fariam? Senhora Avelar teria condições de liberá-los? Orações para Santa Sarah? Intervenção do Mestre Kalé?

Em determinado momento, por mais que evitassem, olharam-se nos olhos. Foi o que bastou para quererem se tocar. De mãos unidas, olhos flamejantes, perceberam que seus corpos perderam peso e praticamente flutuavam milímetros acima dos estofados. Seus corpos começaram a vibrar levemente e seus pelos e cabelos se eriçaram a olhos vistos. Trocaram um beijo longo, acompanhado de um suspiro profundo. Testemunhas disseram que sentiram uma lufada de ar quente a percorrer o salão, enquanto a luzes variaram de intensidade. Em pouco tempo, tudo cessou. A temperatura baixa deste Agosto voltou a prevalecer. Thiago e Diana se olharam como desconhecidos. Don Diego e Saphyra haviam partido..

Participam do BEDA: ClaudiaFernandaHanna LunnaMari

BEDA | Sim, Eu Escrevi Um Livro…

REALidade
Detalhe do Recanto Scenarium

… Não! Foram dois… O segundo estará disponível daqui a pouco, no sábado, dia 25 próximo, neste venturoso Agosto, mês completamente a meu gosto. Editado por Lunna Guedes e revisado por Júlia Bernardes. O primeiro, foi lançado em março de 2017 – REALidade – reunindo crônicas escritas ao longo de alguns anos. Muitas, vieram antes a público através das redes sociais. Ganharam edição pelas mãos de Lunna Guedes e revisão pelas de Tatiana Kielberman.

Na primeira vez que a Scenarium lançou meu livro, senti-me como um membro dos rudimentares grupamentos humanos viventes em cavernas. Impelido por forças maiores que o simples desejo de me ver abrigado da chuva, do frio e da noite cheia de perigos, desenhei palavras-emoções em paredes virtuais, sob a luz de tochas. Através dessas inscrições rupestres, materializadas em tinta e papel, meu objetivo nunca foi muito além do que me expressar, tanto quanto foi uma necessidade daqueles homens. Sentimento puro de quem escreve porque ama escrever, o mesmo empenho que move um pintor ao ver uma tela vazia.

Nesta oportunidade, trago histórias de personagens que conheci ao longo de minha vivência na Periferia da Zona Norte. Provavelmente, parecida com todas as periferias do mundo. Alguns intrusos surgem nesse concerto, apenas para realçar as características mais profundas de moradores presos aos limites fronteiriços da urbe e de nossa humanidade.

Refugiados, muitas vezes, de outros cantos, é comum vizinhos não se conhecerem, ainda que frequentem os mesmos lugares. Sempre em movimento, indo para os locais de trabalho, os encontros ocorrem em filas ou dentro dos ônibus. Rostos baixados para seus aparelhos celulares, os olhares não se encontram. Os residentes, nas ruas mais organizadas, se desencontram. Nas comunidades, fechadas aos olhos dos outros circulantes, todos se conhecem e as relações são mais abertas.

Escritos em um período doloroso, em sentido mais profundo do que eu possa avaliar neste momento, realizo uma contradança com a Morte, sempre a espreita dos personagens da Rua 2, onde destinos se cruzam na linha reta de seu percurso.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA| Penélope

Penélope

Há dois meses, por volta das 5 horas da manhã, fui acordado pela Tânia. Disse que a Penélope estava respirando com dificuldade e sequer relutou aceitar o uso da bombinha que detestava. Acordei sem saber direito o que ela falava e respondi algo incompreensível até para mim. Mais desperto, veio à mente os compromissos que teria no decorrer do dia.

Meio contrariado por aquele imprevisto-previsto – aguardado para qualquer momento – senti-me mal pela resolução em não tornar prioridade obter a habilitação de motorista. Como a Tânia teria plantão no hospital, chamei o meu irmão para nos levar ao veterinário. Acostumados a dormir tarde, é penoso para nós levantarmos àquele horário. Principalmente, para o Humberto.

Paciente, ele veio ao nosso encontro e nos levou até Santana. Chegamos às 7 horas e a recepção do hospital veterinário já estava lotada. Pessoas, cães e gatos de todas as raças (não percebi outras espécies), ocupavam os quadrantes lado a lado, a maior parte com os olhares assustados – animais e humanos. Falei com o rapaz da recepção e citei o caso da Penélope, o declarando como emergência.

A dificuldade respiratória era audível para todos e logo ela foi encaminhada para uma o corredor interno, antes das salas de procedimentos. Eu a coloquei na maca. Foi trazido um tanque de oxigênio, com uma cânula na ponta. Eu deveria ficar segurando o apetrecho em direção ao focinho da amiga até sermos atendidos.

Enquanto isso, pude acompanhar o vai e vem de enfermeiros, médicos veterinários e humanos com os seus bichos, bichões e bichinhos – de chihuahuas a São Bernardos, de siameses à angorás.  Todos, independentemente dos seus tamanhos, ofereciam toda atenção amorosa possível que alguém pode oferecer a “alguém”. Naquela circunstância e momento, muito mais frágeis e entregues que o normal. Se pudesse adivinhar, diria que muitos dos bichos apenas “queriam” permanecer vivos por pena de seus cuidadores. Seus olhares eram de quem gostariam de dormir-esquecer a dor… para sempre. Inesperadamente, eu me senti melhor do que normalmente em fazer parte da espécie humana.

Sonolento, passadas quase quatro horas, finalmente perguntei quando seríamos atendidos. “Ela está na esteira…”. Imaginei que “esteira” seria fila. “Ela vem da retirada de um tumor no útero. Não seria interessante realizar ao menos uma radiografia?”… “Não! O aparelho atende animais até 15Kg, apenas. Devo ter arregalado os olhos e perguntei porque não haviam me avisado antes. A Penélope, uma labradora de 35Kg, estava acima do limite. Perguntei qual seria a previsão de atendimento. Disseram que não sabiam.

Decidi retirá-la da “esteira”. Avisei que sairia. Senti que ela estava incomodada, a respiração havia melhorado com o ar que dirigia ao seu nariz. Queria levá-la para outro lugar. Logo que saí, a Penélope esvaziou a bexiga no meio-fio da rua, antes de entrar no carro. Liguei para as clínicas que poderiam fazer a radiografia. Antes, deveria passar por triagem com um clínico, com previsão incerta de atendimento. Com a pequena melhora, voltei para casa. Quando voltasse ao hospital no dia seguinte, queria levar a radiografia feita, chegando uma ou duas horas mais cedo.

No dia seguinte, a Tânia teve a ideia de chamar uma veterinária que atende à domicílio, já conhecida. Diante dos resultados dos exames feitos, verificou-se que ela estava bem, de modo geral. Era estranho que ela estivesse respirando tão mal. Talvez fosse ansiedade. Não deixei de me surpreender por essa condição tão humana. Prescritas as medicações, progressivamente o estado geral dela melhorou. Afora a dificuldade da senhora de 14 anos em andar, ela está bem. Não admite ficar sozinha de nenhuma maneira. Começa a latir quando estamos em um cômodo distante dela. Desloca-se dolorosamente o caminho quase cego em nossa direção.

Seu apetite para comer e para viver é incrível. Sabe lidar com as suas limitações e tentamos lhe oferecer o máximo de conforto possível. Se eu gosto um pouco mais de gente, é porque ela gosta de gente. Sempre é afetuosa, indistintamente do caráter de quem dela se aproxima. Sinto que tem muito mais a me ensinar do que eu possa retribuir em atenção e amor. A cada dia, que poderá ser o último, ganha maior valor e significado a sua permanência. Até que se torne saudade – eterna presença na ausência.

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