BEDA / A Primeira Atrevida Dama

Atrevimentos parece ter sido o roteiro traçado para a sua vida desde moça. Não que fosse seu desejo expresso. Mas como a estrutura que encontrou para a sua atuação como mulher lhe exigisse desde cedo se atrever para avançar no caminho que buscou percorrer, tornou-se uma típica mulher atrevida – aquela que não se encaixa nas definições básicas reservadas ao gênero feminino – discrição e obediência aos bons modos tradicionais.

Publicamente, a sua postura de quem sabe o quer começou a chamar atenção quando Lula ficou preso em Curitiba, condenado pelo Juiz Sérgio Moro, por conta da Operação Lava-Jato. O preso começou a receber a visita da bela mulher que atuava no PT do Paraná, do qual era filiada desde aos 17 anos. Já se conheciam, mas a partir de abril de 2018, a presença atenciosa de Janja foi se impondo de tal maneira que foi impossível para o velho político, viúvo desde 2017, não se apaixonar por aquela pessoa destemida tanto quanto o antigo operário que um dia ousou se candidatar ao cargo supremo do País.

Em 1 de janeiro de 2023, essa mulher atrevida se tornou a trigésima nona primeira-dama do Brasil com o terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante a cerimônia de posse, apareceu usando um terno dourado, sendo a primeira a usar tal peça nessa solenidade. Bem, esse foi o destaque dado por algumas páginas femininas de moda no dia, sem atentar para a incrível e icônica cerimônia, na qual foi emulada a presença do povo representado em suas várias facetas no recebimento da faixa para o novo presidente. Feminista declarada, Rosângela Lula da Silva passou a dispor de um gabinete para atuar nas áreas de segurança alimentar e do setor cultural, além de fomentar os movimentos e ideologias que visam estabelecer a igualdade de gênero, de cunho identitário. Atrevidíssima!

Tenho percebido um Lula mais articulado em suas palavras, ainda que volta e meia se aferre a velhas posturas. Essa mudança muito se deve à influência da companheira que não se apresenta apenas como um mero acessório. Em 1990, ingressou no curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especializou-se em História na mesma instituição. Além disso, Janja possui MBA em Gestão Social e Sustentabilidade. Entre 1995 e 1996, atuou como docente colaboradora do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O discurso proferido por Lula na posse foi um dos mais bonitos que ouvi. Em vários pontos se destaca uma visão mais apurada das demandas sociais, para além dos velhões chavões de discussões acadêmicas que mais obscurecem do que aclaram as soluções para o desenvolvimento do País.

A Primeira Atrevida Dama, forte e independente, têm luz própria e certamente ainda dará muito o que falar tanto para os seus admiradores, quanto para seus detratores. Ela continuará a trilhar o atrevimento de ser o que quiser ser – direito de toda mulher –mostrando que as brasileiras merecem ser vistas bem mais do que estereótipos de beleza vazia.

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelim / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso

BEDA / Universo Cidade*

dois ônibus ir dois voltar
atravessar cidade universidade
mãe orgulhosa pai exultante
dizia para amigos meu filho uspiano
afastado não ajudava
madalena sozinha pagava transporte
quatro passes por dia
dinheirinho lanchar xerocar
saía cedo voltava noite
quinze minutos de atraso
multiplicado tempo por quatro
trabalhos feitos nas coxas
papel caneta trepidação asfalto irregular
letra estranha hieroglifo pessoal
egiptologia primeiro desafio
professora boa severa
o tema é este se virem
biblioteca lugar preferido
mudei maneira exposição
regrei pensamento
conheci colegas artistas
ratos de porão ira!
piscina plataforma dez metros
saltos prova de coragem
futebol campo oficial médio volante que batia
corridas cem metros diversão
um dia fiquei preso trânsito parado
dormi meia hora acordei mesmo lugar
preferi hora mais ficar entre livros
no retorno augusta noturna
mulheres lindas altas curvilíneas
especiais volumosas homens
quis cantar no coral
rejeitado maestrinho novo filho de maestrão
cargo indicado o vaidoso queria distinção
contrário anúncio não precisava saber cantar
feliz ano velho figurante de filme
pensei ser ator
colega cabelos dourados desfilava pelos corredores
guardava o sol na cabeça
iluminava meu olhar seu sorriso
outra noiva que desejava
convite bicicleta Ibirapuera
timidez atroz medo escapei
outro amor do colégio
estudava nutrição invadi sala entreguei cartas
declaração admiração paixão recolhida
encontro noite estranha
eu não conseguia falar o que desejava
ela disse você não pertence a sua família
mãe irmãos dissemelhantes
como se fosse adotado
aumentou sensação de alienígena
quando a busquei de novo
comportamento muito ruim
passei limites me senti diferente de mim
mas era eu mesmo assim
dissociação perigosa inescrupulosa
um dos meus avessos quis ser frei franciscano
quase três anos caminho
visita seminário agudos santo antônio
frei luiz não quis mais um ano sabia
frei não seria
de história entrei curso português
sonhava ser escritor mudei opinião conheceria mulher
tingi cabelo amarelo trabalhar carnaval
encontrei namorada que veio de longe
rasguei peito abri coração
perdi virgindade transei primeira vez
mudei curso rumo caminho história
27 anos engravidei casei
a vida acontece apesar da vida.

*Poema de 2021

Imagem: Foto por t4hlil em Pexels.com

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelin / Mariana Gouveia / Roseli Peixoto / Lunna Guedes / Dose de Poesia / Claudia Leonardi / Alê Helga



  



Curumim*

Passo pela placa fixada em uma estaca de madeira, que adverte – Perigo. É uma seta que aponta para o mar. Caminho resoluto em direção às ondas como quem conhece e respeita a força da Natureza. Por entre a horda de banhistas, avanço aos saltos por cima das vagas que se sucedem crepitosas até um ponto onde fico apenas com o meu pescoço e cabeça acima da linha d’água.

O movimento sob e sobre a superfície do mar ondulado me massageia o corpo. A água quente me faz confortável como se fosse um bebê no útero materno. Após alguns minutos, começo, aos poucos, a sentir uma vibração estranha que me percorre a epiderme e adentra por minha musculatura como um frêmito de energia pulsante. Pensei quase desmaiar e ao olhar para os lados e para trás não vejo mais ninguém.

Não sinto mais os meus pés apoiados no suave piso marinho. Mais propriamente, percebo que o meu corpo mudou e me vejo como um curumim. Eu me tornara um pequeno tupinambá. De imediato, ponho o meu corpinho a deslizar na próxima onda e chego a uma área mais rasa onde se encontram os demais curumins da nação. Eles sorriem quando me veem chegar e Taîaoba, meu melhor amigo, me diz que sou muito ousado. Ninguém daquele grupo se atreveria a ir tão longe. O meu nome é Îagûanharõ (Onça Brava), mas entre nós, me chamam de Iperú (Tubarão). Enquanto nos divertíamos à beira d’água, a bater de encontro às arrebentações, como a enfrentar îakarés, agûarás e îagûáras ou inimigos das outras aldeias em lutas de peito aberto, percebemos que se avolumavam dois ou três pequenos pontos no horizonte. Recuamos todos até a areia e percebemos com espanto se tratar de grandes caíques com uma espécie de imensos caás a brotar de seu interior, em pleno mar.

Corremos todos com nossas pequenas pernas para avisar aos outros tupinambás, mas eles já haviam percebido aquelas presenças estranhas a se avizinharem pelas águas. Os guerreiros não demonstraram nenhum temor ou fizeram alvoroço. Somente Acaninã e Jateim, as cunhãs mais escandalosas da taba, começaram a chorar como se fosse o fim do mundo. O Uvixa (Cacique) Îagûareté (Onça Verdadeira), aliás, meu pai, se reuniu com velho Tesaberába (Olho Brilhante) na oca central, ficaram umas duzentas batidas de pilão para fazer quirela e saíram para instruir o grupo que iria à praia para esperar quem ou o que trazia os grandes caíques à nossa aldeia.

Aquele a quem chamávamos de O Mais Velho Que O Tempo, Tesaberába, se aproximou e disse que o aty deveria se aproximar com coragem dos visitantes. Que a nossa nação havia sido escolhida por Nhanderu para aquele momento. Que previamente já havia sonhado com aquele acontecimento e era inevitável que aquele encontro acontecesse. Aconselhou que, para demonstrar que não queriam guerra, o aty deveria ter cunhãs a formá-lo. Ele escolheu as cunhãporãs, como Moeem, Jacyara, Bartyra, Mbotyra e Poranga para estar junto aos guerreiros, o meu pai à frente e Avaré, o melhor caçador entre nós, a secundá-lo. Nesse momento, Acaninã, que até aquele instante chorava como se uma mboi tivesse lhe mordido, parou e perguntou porque ela também não poderia ir. Todos riram e isso ajudou a deixar o ar mais leve.

Os guerreiros e as cunhãs da nação tupinambá foram juntos até a faixa de areia para ficarem à espera do momento do encontro com os forasteiros. Nós, os menores, tivemos que ficar na taba. Eu, curioso que só, consegui fugir à vigilância da velha Jaçanã e me esgueirei pela mata até uma ypê onde pudesse presenciar, sem ser visto, a chegada dos estranhos. Percebi que, dos grandes caiques, os avas (pelo que pareciam) entraram em caíques menores. Aqueles eram seres estranhíssimos, cobertos por ajukus que lhes tapavam o corpo todo. Usavam akãs que alguns retiraram da cabeça quando aportaram. Parecia que estavam a quase desfalecer por algum motivo. Alguns tinham a cabeça raspada e quase caí do galho quando vi que tinham longos cabelos no rosto, como os cahys que roubavam a nossa comida, aqueles espertinhos. Só que esses eram enormes. Vários empunhavam pedaços de ybiracy com um desenho muito bonito que deve ter tido muito trabalho para fazer. Não se desgrudavam deles.

O encontro demorou bastante. Já dava para ver Guaracy quase ir descansar de um lado e Jacy a surgir, do outro. Os tupinambás parecem ter conseguido se entender com os maíras. Eles olhavam muito curiosos para as cunhãs, como se nunca tivessem visto seres tão formosos. Vi quando dois dos nossos mais valorosos guerreiros, Abaré e Ka’ioby, embarcaram sem receio com os ava-cahy em direção ao caíques maiores. O resto do aty voltou para a taba, a confabular sobre aquele extraordinário evento.

Eu desci rapidamente da árvore e fui em direção aos caíques. Já quase anoitecia e cheguei o mais perto que pude daquela incrível construção feito uma gigantesca ayacá. Fiquei quase submerso e voltei a sentir o meu corpo vibrar como se estivesse a receber um endijá de Tupã. De repente, comecei a ouvir uma algazarra perto de mim e pessoas de todas as cores, menos a minha, estavam a me rodear. Fiquei atarantado a ponto de engolir água salgada pela força de uma onda mais violenta. Havia despertado da imersão. Percebi que a minha viagem terminara. De alguma maneira, fora transportado para bem longe dali, para muito tempo antes. Uma experiência que me deixou bastante desconcertado. Se fora pela energia do elemento que me acolhia, se fora pelo poder do sangue que corre em minhas veias, se fora pela herança atávica que carrego, por algum tempo, fui um curumim.

Ao sair do mar, me sentia pesado, como a carregar toda a História nas costas. Apesar de estar com os olhos marejados, ainda pude ver, fincada na areia, a seta a apontar para o Oceano Atlântico: “Perigo”…

*Texto de 2017