Mulheres Que Esperam

praça de alimentação de um shopping
famílias homens mulheres crianças
cães vez ou outra ladram
os sinos de avisos repercutem
sonoros agudos
pessoas falam alto
pensativos um ou outro dos presentes
permanece mudo ausente
do presente
muitas mulheres estão sós
esperam
olham pelo celular possíveis mensagens
a hora que passa nada pediram
intimamente pedem talvez que não se atrasem
ou mesmo que isso ocorra que venham
eu me intrometo em suas histórias
proponho alternativas viáveis
e poucas escapam de uma constante
esperam homens compromissados com outras
com deveres familiares
tentam fugir de suas prisões
uniões
que se esgarçaram
com o tempo buscam viver
novas emoções encontros com o furor juvenil
já envelhecidos se sentem remoçados
e quem os espera sabe disso
algumas conhecem as companheiras
possíveis amigas
mas se sentem apaixonadas não assumem
que sejam invejosas
mas estar com o objeto de desejo
as fazem se sentir poderosas
mas aqueles a quem esperam
são simplesmente homens
num mundo em que seu poder se desmorona
se comportam como seres sem honra
ou apenas escapar da rotina da lida
sentirem que estão vivendo novas sensações na vida
talvez nem gostam de quem venham a encontrar
porém querem se enganar
que ainda têm o poder
de brincar com os sentimento das mulheres
viver a emoção da conquista
quando sempre serão elas que se permitem
também brincam com a capacidade de seduzir
buscam conquistar novas possessões
num mundo utilitarista apenas
visitar outros corpos como turistas
não querem que eles se apaixonem
que fiquem pegajosos
grudentos ciumentos brincam com fogo
transformam ambos em um jogo
que se nisso ficassem não seria de todo mal
gozo prazeroso acima das leis patrimoniais
abaixo das obrigações sociais
para os outros mentirosos
pessoas de vida dupla
para si mesmos mulheres e homens portentosos
sem culpa…



Foto por UMUT ud83cudd81ud83cudd70ud83cudd86 em Pexels.com

1º / 12 / 2025 / MULHERES – CAUSA MORTIS – HOMENS

Eu nunca desejei matar ninguém. Mas sou culpado por pertencer ao gênero que tem matado mulheres por serem mulheres, principalmente àquelas que ousam serem emancipadas do comando do homem. Eu sempre achei estranho o uso de expressões como sexo oposto ou frágil, acostumado que fui ao ver mulheres serem fortes o suficiente para criarem filhos sozinhas, muitas vezes longe do auxílio masculino.

Não deixou de acontecer que muitas comunidades tivessem a mulher erigindo o Matriarcado em oposição ao Patriarcado. Mas o fato de o homem normalmente possuir maior força física o colocou como protetor das primeiras comunidades humanas, lhe dando o “direito” de ser o “chefe” do núcleo familiar na maioria das sociedades humanas.

Essa proeminência ao longo dos séculos gerou um sistema baseado mais na força motriz do que na inteligência. Mas também essa “reserva de mercado” precisava ser protegida da participação feminina. Dessa maneira foi interditado que mulheres aprendessem as letras, que estudassem ou que tivessem ideias originais. E quando as tinham, muitas delas foram surrupiadas pelos machos da espécie.

Quando algumas começaram a renunciar participar como reprodutoras numa sociedade que as viam apenas como tal, o sistema apregoou leis religiosas que preconizavam a condenação a alienação, ao ostracismo ou degredo social. E é claro que era “ele”, o “deus” que assim designava através de seus seguidores masculinos.

Como já explanou Contardo Calligaris, as sociedades humanas foram fundadas no ódio à mulher, muitas vezes associadas ao mal. Como está registrado nas escrituras enviadas diretamente aos homens. Se conscientemente se isolassem, vivessem distantes ou fossem autônomas, eram tachadas como bruxas, seres degenerados.

O que vivemos atualmente — uma espécie de pandemia de tentativas ou consumação de feminicídios — é quase como um retorno ao obscurantismo da Idade Média. Tenho por mim que a trajetória política de um certo personagem que veio a se tornar governante no Brasil deu ensejo a que muitos homens assumissem suas tortuosas posturas retrógradas, já que havia chegado ao poder um representante de suas ideias e preconceitos.

Nos últimos anos, houve um crescimento exponencial de crimes contra mais da metade da população humana, representada pelas fêmeas da espécie. A outra metade que a assassina não deixa de criar formas diferentes de torturá-las, humilhá-las e executá-las à luz do dia. Não tem como apagar da página da História que descemos ao mais baixo nível civilizatório neste quadrante. Um quarto deste novo século está se encerrando demonstrando que é sempre possível retrocedermos à barbárie humana mais primitiva desta era sombria.

Foto por Maisa Borges em Pexels.com

11 / 11 / 2025 / Blogvember / Atrás Do Olhar Das Meninas Sérias

o que se esconde atrás do olhar das meninas sérias?
o futuro de tantas que surgem impetuosas em seus desejos
de progredirem em um mundo que lhes são adverso
que crescem em funções e ações que lhes eram vedadas
porque são capazes são sagazes são espertas são ousadas
que percebem encontrarem inimigos entre homens velhos e jovens
os primeiros não conseguem lhe dar com o novo
os segundos ouvem histórias de tempos passadiços
em que dominavam o mundo apenas por carregarem penduricalho
entre as pernas e de si sentem pena
por que no meu tempo?
tudo seria mais fácil…
elas não querem mais gerar meus filhos como acontecia antes
meu pai me conta como era bom
o homem era disputado símbolo social de pertencimento
as meninas sérias querem ser mais do que mães
querem criarem-se a si mesmas tornaram-se melhores pessoas
fazerem o futuro prosperar em autonomia e autossuficiência
serem múltiplas femininas se quiserem
fêmeas se desejarem
companheiras de homens se lhe for conveniente
de mulheres se preferirem
poderem escolher quando e quanto entre o sim e o não
pela mente ou pelo coração…

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

27 / 10 / 2025 / A Que Encerra

A Lívia foi a última a chegar. Mas a não menos importante para compor a nossa família. Hoje, completa 30 anos (!). Parece que foi outro dia que eu ficava insistindo para comer um pouco mais enquanto ela fazia manha. Das três, foi a que aceitou fazer natação e treinar basquete porque o pai esportista gostaria que fosse eventualmente uma atleta. As três irmãs são muito unidas e eu, ingenuamente me surpreendi ao saber que criaram um grupo de mensagens entre elas em que os pais talvez sejam um dos tópicos ou nem tanto. Não sei o que é pior…

Há um ano ou menos — não sou afeito ao calendário factual — alugou com o namorado Pablo um apartamento em que ensaiam a vida de casados. Como acontece frequentemente, deixou a filha Lolla Maria aos cuidados dos avós. Não porque não quisesse, mas porque ela não se adaptou ao espaço. Cheia de manias e de uma eterna fome, ficava latindo quando não encontrava seus humanos em casa.

Lolla Maria

O nome Lívia deriva de Liv Ullmman — atriz, diretora de cinema, além de escritora — por quem fui apaixonado quando jovem, assim como fui por Romy Sceneider e Ingrid Bergman, que deram nome às outras duas filhas. A minha paixão pelas mulheres não é apenas física, mas sou fascinado pelo poder que carregam e que os homens tentam de todas as maneiras obliterar. As mulheres que inspiraram a nomear as minhas filhas são exemplos de pessoas que marcaram seu tempo com comportamentos que fugiam ao estereótipo da mulher conformada com o papel tradicional da fêmea da espécie. Das três, apenas Liv vive e continua atuante como artista, depois de 60 anos de carreira.

Lívia & Pablo em seu apartamento

Talvez as minhas filhas sintam que eu esteja um tanto distantes delas, mas acho que devo dar espaço para que encontrem sem pressão os seus caminhos, façam as suas escolhas e tomem as suas decisões. Elas sabem que estarei sempre à disposição para apoiá-las no que quiserem. Eu desejo que a que encerra a fábrica Ortega alcance todos os seus propósitos, incluindo os artísticos, com a Elebonde, seu projeto de DJs com o Pablo. Quem sabe, um dia, não participem de um festival desses grandes por aí? De você, menina, eu não duvido de nada!

Elebonde em ação…

23 / 08 / 2025 / BEDA / Lua E Estrela

“A Lua e a Estrela, anel de turquesa…” — Trem das Cores (Caetano Veloso). 

Sônia Braga interferiu no cancioneiro nacional através de duas composições: Tigresa e Trem das Cores. E, sabe-se lá, talvez muitas outras do mesmo autor. Fosse eu o compositor, certamente não deixaria de me inspirar em tamanha força da Natureza feito a atriz intensa e talentosa. Eu cheguei a escrever um conto chamado Tigresa em homenagem a ela. A Tânia não gostou dele porque achou o narrador um tanto capacho demais. Falo de um homem totalmente preso à sua irresistível paixão em que somente algumas migalhas de carinho bastavam para enternecê-lo. Libertária, a minha Tigresa passava como um trator por cima dos homens e assim como alguém já disse em uma conversa solta, “não passava vontade”. Enfim, uma mulher digna de inspirar o melhor dos homens a melhorar o mundo com poesia da maior qualidade.

Foto de Sônia Braga por Jean-Pagliuso-Photography-Inc