Exposta às intempéries – à luz, à câmera, aos desejosos olhares –
passam todos por sua superfície,
essência que se esconde,
ao se mostrar em pele…
Corpo de mulher, cabeça de azul – esse ser-etéreo-cor –
proclama a antiga máxima, apenas por tradição:
“Decifra-me ou lhe devoro!”
Pois que não deixa de devorar, a quem-qualquer se lhe aproxima –
o pensamento e a atenção – tensão
que não se basta.
Antes, se abastece da atração – se desbasta
de adoradores que se entregam, de bom grado,
à sua devoção-devotamento…
A Esfinge ora a que deus, se ora?
A oratória é de quem quer ser,
mais do que a qualquer divindade – adorada.
De hora em hora, são miríades – mulheres, homens e anjos-de-asas-sem-penas –
entidades-sem-sexo a penarem
por seu olhar-de-terra-à-vista do primeiro astronauta:
“por mais distante,
o errante navegante –
quem jamais te esqueceria?
Eu-o-observador, creio que seu segredo está em não ser decifrada –
A Esfinge –
mas ser aceita em sua complexidade-de-mulher-que-finge
ser quem não é, por profissão
de fé e paixão.
Que esse fingimento é sua essência-de-jogo-de-espelhos que se alheia
e se mistura às gentes, que as consumem por dentro,
enquanto sua beleza de Alien simbiótica-mística-quântica
a reproduzir sua imagem em cada íris de quantos-olhos-outros,
muitos, embarcados em existires sem nexo.
Por que o faz, se mata de amor aos seus hospedeiros e se deixa morrer?
Sua natureza esfíngica explica…
E nada revela!
Eu convivo com mulheres maduras de todas as idades. As mulheres que ostentam números menores nos “RGs”, nunca menor que milhões, passaram por tantas fases internas e externas, sentiram tantas emoções, vivenciaram amores e desamores, sofreram decepções, sangraram decalitros de sangue, perceberam o mundo a doer no centro de sua barriga em tantas cólicas, que simplesmente poderiam deitar e declarar aos quatros ventos: “Não quero mais nada disso!”…No entanto, levantam a cada manhã a desejarem ser felizes. Querem mudar o mundo ou o cabelo; fundarem uma nova empresa ou iniciarem uma nova empreitada; comprarem sapatos ou carros novos; carregarem novos sonhos em bolsas novas; colocarem aquele vestido que fará o seu amor exclamar “Uau!”; chamarem a atenção de um possível novo amor, causar admiração ou apenas se sentirem bem. O amor que carregam dentro de si querem fazer valer a pena. Querem pagar todas as penas, se preciso for, para vivê-lo…
Pobre dos homens que não as valorizam. O quanto perdem por não poderem conhecer novos universos tão próximos de si. Garotos que um dia quiseram ser navegadores, astronautas ou mergulhadores, não se atinam que poderiam viajar para tantas realidades alternativas apenas se desligassem de seus umbigos para alcançar mundos inexplorados ao alcance das suas mãos, acionado os quase trinta sentidos que existem. Sei que, pelo menos as mulheres, os tem…
Homens, para o nosso bem, amem as mulheres maduras. Não precisam “tê-las”, porém as “tenham”, se forem “suas”, porque elas querem se sentir pertencidas, também. Só temos a ganhar em vida e substância se, mesmo por um tempo em nossas vidas, descobrirmos essas estranhas realidades a se imiscuírem em nossas parcas realidades…
Talvez alguns de vocês tenham percebido que eu tenha terminado cada parágrafo com reticências… – palavra que só se escreve no plural. Mulheres maduras são como reticências, para mim. Deixam no ar a ideia de continuidade sem muita explicação, porque carregam inúmeras delas… Como rastros de perfumes pessoais que semeiam, os quais nós, homens e meninos, não sabemos quantificar, mas que os nossos corpos acolhem em saraivadas de poderosas sensações inomináveis a nos fecundar a terra…
Inveja – talvez seja a palavra mais próxima ao sentimento que tenho com relação ao que observo nas mulheres que amam. É uma inveja branda e que considero, de certa forma, um salto para melhor na gama de sentimentos que se conflitam em mim. Tenho exemplos próximos e mais longínquos de mulheres que expressam esse amor em momentos os mais diversos. Tenho como um dos exemplos a minha mãe que, além de amar extremadamente a nós, seus filhos, amou a meu pai a sua vida toda. Amor não correspondido. Até quase o final de sua existência, nutria certa esperança de que ele, enfim, voltasse para o lar. Portanto, foi surpreendente para nós quando, depois de mais de quarenta anos de “casamento”, pediu o divórcio, para lá dos seus setenta anos. Nesse episódio, prevaleceu o amor por seus filhos e netas. Ela percebeu que talvez não tivesse tanto mais tempo de vida e precisava ter condições de realizar o que cria ser necessário, nesse ínterim, até o fim.
Mulheres que amam declaram o seu amor a plenos pulmões, bagunçam a vida de seus objetos de amor porque, muitas vezes, eles (por exemplo, homens) preferem ficar na zona confortável da platitude. Muitas vezes, no entanto, esse amor salva a vida de quem é amado, aquele que chafurda penosamente na sensaboria da areia movediça sem uma referência amorosa valorosa. Eu sou alguém que foi salvo pelo amor. Nunca é tarde para alardear que mulheres – mãe, companheira, filhas – constituíram a minha boia de salvação no mar calmo e sem limites da absência sentimental que era a minha vida.
Malageña, Fusca de 1973. Proprietário: Humberto N. Ortega
Por dois dias seguidos, duas cenas parecidas, em dois lugares diferentes, chamaram a minha atenção, a envolver pessoas e carros. Nada de atropelamentos ou choques entre veículos, batidas contra paredes ou postes. Antes, foram cenas em parecia haver uma incomum comunhão entre máquina e ser humano, uma identificação entre carne e aço, criador e criatura.
Eu estava em minha atividade quando observei pela janela um rapaz com um pano na mão a rodear um automóvel branco. Por associação, devido ao seu biótipo alongado e à coreografia que executava, me pareceu um toureiro a empunhar um florete contra o touro. Porém, em vez de estocadas, “El Matador” caminhava, parava e passava o pano na “fronte”, nas laterais, na traseira, olhava de perto, se afastava, até que, no momento final, se postou diante da “fera” e ficou parado por um longo minuto, com os braços cruzados. O que eu supunha ser o proprietário, a tudo observava e parecia, tanto quanto eu, encantado com toda aquela movimentação. Mais um pouco, os dois entraram no carro e saíram, provavelmente, para o “test-drive”. Não mais os vi…
No dia seguinte, caminhava em direção ao banco, quando avistei, ao virar uma esquina de uma rua calma, três homens em torno de outro automóvel a uns vinte metros de onde estava. Dois deles, como expectadores daquele que examinava mais detidamente um veículo de cor escura diante deles. Eles se entreolhavam e giravam em torno dele, enquanto o que examinava volta e meia se agachava com insuspeita agilidade pelo corpanzil e idade presumível de quase setenta anos, com o olhar a se direcionar de cima para baixo. Curioso, diminuí os passos e quase parei, a fingir que buscava algo no bolso, enquanto presenciava o namorado diante de sua pretendida.
Em determinado momento, ele se aproximou da coluna dianteira direita da amada, passou carinhosamente a manga esquerda e pareceu conversar ao pé do ouvido de seu objeto de desejo, como a pedir que contasse a sua história, confidenciasse os seus segredos. Nesse momento, tropecei. Disfarcei o susto e voltei a cabeça para frente, a deixar a todos do corpo de baile executarem os passos daquela estranha ciranda em torno da dama, com a luz inclinada do inverno a conferir um brilho sedutor do capô do cisne negro.
O impacto desses encontros fez que eu voltasse a avaliar essa incrível conexão entre o homem e suas máquinas, especialmente o carro, ícone fundamental na revolução na história da humanidade desde o final do século XIX. Sei o quanto esse envolvimento passou do campo tecnológico para o pessoal. Dizer que muitas pessoas amam o seu meio de transporte como a “alguém”, não como algo, fez com imaginasse um futuro em que o desenvolvimento de novas tecnologias, fará com que um automóvel seja formatado de acordo com as preferências do dono, a ponto de haver tal simbiose que poderá se proclamar, ao ser avistado um automóvel: lá vem o João, a Maria, o José, a Raquel. Tal personalização conferirá o status de quase ser humano a uma coisa movida pela vontade de quem o conduzir… Ou será o inverso (que fará jus a sua nomenclatura)?
Amor e identidade entre carne e aço já é algo contado por aí e muitos que cresceram sendo levados de lá para cá no carro da família costumam lembrar-se com saudade do membro movido a motor à explosão. Não faltam histórias de amores explosivos movidos a dezenas de força-cavalo. Em meus devaneios mais severos, chego a enveredar para uma versão futurista tal o qual presenciei há quarenta anos em Geração Proteus*.
*Um supercomputador, Proteus IV, adquire autoconsciência e, como qualquer ser senciente, é curioso, questiona a razão das coisas e quer se reproduzir. Para tal, ele aprisiona a esposa do cientista que o criou, com a intenção de inseminá-la com o que poderia ser o início de uma nova raça, misto de homem e máquina. Produção americana de 1977, com o título de “Demon Seed“, no original. Estrelando, uma atriz que eu amava – Julie Christie.