29 / 03 / 2025 / Farfalla

Farfalla cumpre o destino
após tanto tempo no casulo autoimposto
não se faz de rogada Farfalla fala
nasci neste dia quero festa quero cumprimentos
não desejo votos de isentos
desejo beijos ainda que distanciados
quereres bem-intencionados  
calor humano
a suplantar o calor deste litoral
em que voo sobre as águas sob o Sol
sou amiga sorridente bailarina no jardim
absorvo o néctar de flores
enquanto me afasto das lembranças de dores
revoo aprecio a paisagem que me renova
volteio não fico no meio alcanço as fronteiras
sou da vida bela ainda que dela nada se leve
sou leve asas abertas passeio por multicores
de plantas absorvo doces fragrâncias
escrevo o meu caminho em poemas
em cantos em danças em delicadezas
um dia pousarei hoje não que não quero
descansarei ao raiar do dia de nova hora
cercada pela flora sonora de abelhas que lhes beijam
ao cintilar solar da aurora…

Foto por Joseph M. Lacy em Pexels.com

Citadino*

Você me chamou e não a ouvi
Estava absorto na faina cotidiana
Navegava pelos rios de asfalto da cidade
Percorria os túneis de fuga terra adentro
Para fora de mim mesmo
Sempre apartado do meu corpo
O que poderia ser um sinal de independência
Não se cumpria
Pois os pensamentos arquitetados
Por outras mentes
Eram absorvidos pelos meus olhos
Invadiam o meu cérebro
E eram caminhados por minhas pernas
Se incorporando à minha rotina
Como se meus fossem através do poder de intervir
Consumado pela arquitetura citadina
Realizada pelos planejadores do ir e vir
Estava partindo para um lugar certo
Porém não pensava nisso
Mesmo querendo parecer borboleta
Ainda que formada e liberta
Voltava para o meu casulo
Que me atraía
Como tal, as minhas asas voavam um voo curto
Mais decorativas do que eficientes
E termino sendo um simples humano ser
Fingindo um próprio querer…

Foto por Erick Blanco em Pexels.com

*Poema de 2015

Frida*

Frida, ao contrário daquela que lhe inspirou o nome, é um ser discreto. Quando quer parecer ser “invisível”, se põe sorrateiramente debaixo da mesa da cozinha. Como chega até lá, nunca se sabe. Tratada, desde que nasceu, com todo o carinho e atenção, parece daqueles cachorros que sofreram abuso, tal o olhar de tristeza que carrega. A Tânia acha que ela é depressiva. Por algum motivo, a Betânia, muito ciumenta, dedica a ela uma aversão especial. Quando esta saiu de carro, Frida ficou uma semana mais arredia ainda, como se tivesse sido preterida… Após um banho no Pet Shop, voltou a ficar mais sociável. Esses amigos naturais estão a desenvolver um comportamento social cada vez humano…

*Texto de 2017

A Alma E O Mundo


“O mundo parou ali onde dói a alma e onde o silêncio é apenas aquele eco que invade os meus ouvidos surdos”, por Suzana Martins (In)Versus

Passava eu pelos recônditos de um dos Universos, quando fui sorteado pela Consciência Total para descer de minha condição de ser pleno para surgir encarnado no corpo de um Homem – uma das muitas vertentes de seres humanos espalhados por incontáveis planetas – uma forma em que o corpo tem um centro que articula sensações, emoções, sentimentos, ideias e a imaginação para fazer avançar a abertura da Mente e a recepção e emanação da Energia.

Acessei os arquivos da CT para entrar em contato com a História e o desenvolvimento humano daquele planeta tão pequeno quanto importante. Estavam, nas condições nas quais iria encarnar, ainda ligados à mandamentos que mais aprisionavam do que libertavam o Espírito. Em lugares, aqui e ali, já existiam Avatares que haviam anunciado as possibilidades de escaparem às adversidades provocadas por desvios que o Egoísmo produzia. Mas o aprendizado era disperso e variável em repercussão. Crenças e fés se deslocavam para a matéria em vez de serem vivenciadas como vibração espiritual, em sua maior parte.

Quando encarnado, cheguei a perder um pouco de contato com a Consciência Total. Tinha somente reminiscências de minha liberdade. Conforme passava pelas fases de desenvolvimento do meu corpo, fui conseguindo recuperar a conexão com Ela. Esse isolamento, ainda que imparcial, mostrou o sofrimento atroz por qual passa quem está desmemoriado do Todo. Sempre havia algo para desviar os homens do bom caminho. Não somente os pensamentos mais baixos, mas os aqueles que se anunciavam como superiores, eram valorizados por seus movimentos circulares, acabando por se mostrarem apartados da natureza do Ser antes de ser.

Revoltados com a minha invocação ao Amor, os doutores da lei daquele pedaço de chão me enviaram à crucificação. Estavam confusos. Assim como fiquei confuso ao empreender essa missão que, sei, repercutiria por milhares de voltas que este planeta daria em torno do Sol adiante. Sofri pesadas dores físicas, mas sabia que teriam termo. Ao me colocar no lugar de quem está submisso às leis naturais, fiquei comovido por todos que não ultrapassam a condição de mortais.

Ainda no limite de minha conformação humana, fiquei triste por deixar meus familiares e amigos terrenos e em quem acreditou na mensagem que propaguei. E por tudo que aconteceria dali por diante, ali e alhures, por causa dela…

Foto por Alem Su00e1nchez em Pexels.com

BEDA / A Raiz

Eu era uma árvore antiga
Já vira milhares de cenas
Já vivera milhares de vidas
Por cada cabeça que passou por mim
Eu me compadeci da maioria
E me perguntava: de onde vinham?
Para onde vão?
Como conseguem viver sem raízes?
Sem um lugar para chamar de chão?
Cresci forte e via propósito
Nas aves que abrigava
Na sombra que projetava
Comecei a adoecer
Quando percebi os atos desrespeitosos
O descaso com a minha saúde
As pessoas alimentando o meu solo
Com o lixo humano
Senti que não servia mais para limpar o ar
Aplacar os ruídos fortes
Filtrar o ódio que os bípedes produziam
Morri aos poucos
Galho por galho
Folha por folha
Tronco e raiz
Decidi, então, me deitar
Sem ferir ninguém
Na calada da noite
Testemunhada apenas por meus pares
Vertendo terra cor de sangue
Para ser esquartejada
E levada aos pedaços
Para jazer em partes
Longe das gentes
E dos pecados…

*Poema de 2015, após eu ver uma das árvores da Praça da República que tombou durante uma noite fria de Junho. Participante do BEDA: Blog Every Day August.

Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Bob F / Denise Gals / Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Suzana Martins