Farfalla cumpre o destino após tanto tempo no casulo autoimposto não se faz de rogada Farfalla fala nasci neste dia quero festa quero cumprimentos não desejo votos de isentos desejo beijos ainda que distanciados quereres bem-intencionados calor humano a suplantar o calor deste litoral em que voo sobre as águas sob o Sol sou amiga sorridente bailarina no jardim absorvo o néctar de flores enquanto me afasto das lembranças de dores revoo aprecio a paisagem que me renova volteio não fico no meio alcanço as fronteiras sou da vida bela ainda que dela nada se leve sou leve asas abertas passeio por multicores de plantas absorvo doces fragrâncias escrevo o meu caminho em poemas em cantos em danças em delicadezas um dia pousarei hoje não que não quero descansarei ao raiar do dia de nova hora cercada pela flora sonora de abelhas que lhes beijam ao cintilar solar da aurora…
Você me chamou e não a ouvi Estava absorto na faina cotidiana Navegava pelos rios de asfalto da cidade Percorria os túneis de fuga terra adentro Para fora de mim mesmo Sempre apartado do meu corpo O que poderia ser um sinal de independência Não se cumpria Pois os pensamentos arquitetados Por outras mentes Eram absorvidos pelos meus olhos Invadiam o meu cérebro E eram caminhados por minhas pernas Se incorporando à minha rotina Como se meus fossem através do poder de intervir Consumado pela arquitetura citadina Realizada pelos planejadores do ir e vir Estava partindo para um lugar certo Porém não pensava nisso Mesmo querendo parecer borboleta Ainda que formada e liberta Voltava para o meu casulo Que me atraía Como tal, as minhas asas voavam um voo curto Mais decorativas do que eficientes E termino sendo um simples humano ser Fingindo um próprio querer…
Frida, ao contrário daquela que lhe inspirou o nome, é um ser discreto. Quando quer parecer ser “invisível”, se põe sorrateiramente debaixo da mesa da cozinha. Como chega até lá, nunca se sabe. Tratada, desde que nasceu, com todo o carinho e atenção, parece daqueles cachorros que sofreram abuso, tal o olhar de tristeza que carrega. A Tânia acha que ela é depressiva. Por algum motivo, a Betânia, muito ciumenta, dedica a ela uma aversão especial. Quando esta saiu de carro, Frida ficou uma semana mais arredia ainda, como se tivesse sido preterida… Após um banho no Pet Shop, voltou a ficar mais sociável. Esses amigos naturais estão a desenvolver um comportamento social cada vez humano…
“O mundo parou ali onde dói a alma e onde o silêncio é apenas aquele eco que invade os meus ouvidos surdos”, por Suzana Martins– (In)Versus
Passava eu pelos recônditos de um dos Universos, quando fui sorteado pela Consciência Total para descer de minha condição de ser pleno para surgir encarnado no corpo de um Homem – uma das muitas vertentes de seres humanos espalhados por incontáveis planetas – uma forma em que o corpo tem um centro que articula sensações, emoções, sentimentos, ideias e a imaginação para fazer avançar a abertura da Mente e a recepção e emanação da Energia.
Acessei os arquivos da CT para entrar em contato com a História e o desenvolvimento humano daquele planeta tão pequeno quanto importante. Estavam, nas condições nas quais iria encarnar, ainda ligados à mandamentos que mais aprisionavam do que libertavam o Espírito. Em lugares, aqui e ali, já existiam Avatares que haviam anunciado as possibilidades de escaparem às adversidades provocadas por desvios que o Egoísmo produzia. Mas o aprendizado era disperso e variável em repercussão. Crenças e fés se deslocavam para a matéria em vez de serem vivenciadas como vibração espiritual, em sua maior parte.
Quando encarnado, cheguei a perder um pouco de contato com a Consciência Total. Tinha somente reminiscências de minha liberdade. Conforme passava pelas fases de desenvolvimento do meu corpo, fui conseguindo recuperar a conexão com Ela. Esse isolamento, ainda que imparcial, mostrou o sofrimento atroz por qual passa quem está desmemoriado do Todo. Sempre havia algo para desviar os homens do bom caminho. Não somente os pensamentos mais baixos, mas os aqueles que se anunciavam como superiores, eram valorizados por seus movimentos circulares, acabando por se mostrarem apartados da natureza do Ser antes de ser.
Revoltados com a minha invocação ao Amor, os doutores da lei daquele pedaço de chão me enviaram à crucificação. Estavam confusos. Assim como fiquei confuso ao empreender essa missão que, sei, repercutiria por milhares de voltas que este planeta daria em torno do Sol adiante. Sofri pesadas dores físicas, mas sabia que teriam termo. Ao me colocar no lugar de quem está submisso às leis naturais, fiquei comovido por todos que não ultrapassam a condição de mortais.
Ainda no limite de minha conformação humana, fiquei triste por deixar meus familiares e amigos terrenos e em quem acreditou na mensagem que propaguei. E por tudo que aconteceria dali por diante, ali e alhures, por causa dela…
Eu era uma árvore antiga Já vira milhares de cenas Já vivera milhares de vidas Por cada cabeça que passou por mim Eu me compadeci da maioria E me perguntava: de onde vinham? Para onde vão? Como conseguem viver sem raízes? Sem um lugar para chamar de chão? Cresci forte e via propósito Nas aves que abrigava Na sombra que projetava Comecei a adoecer Quando percebi os atos desrespeitosos O descaso com a minha saúde As pessoas alimentando o meu solo Com o lixo humano Senti que não servia mais para limpar o ar Aplacar os ruídos fortes Filtrar o ódio que os bípedes produziam Morri aos poucos Galho por galho Folha por folha Tronco e raiz Decidi, então, me deitar Sem ferir ninguém Na calada da noite Testemunhada apenas por meus pares Vertendo terra cor de sangue Para ser esquartejada E levada aos pedaços Para jazer em partes Longe das gentes E dos pecados…
*Poema de 2015, após eu ver uma das árvores da Praça da República que tombou durante uma noite fria de Junho. Participante do BEDA: Blog Every Day August.
Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Bob F / Denise Gals / Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Suzana Martins