eu me arrependo de não tê-la encontrado antes ainda que me reste a dúvida se você gostaria de mim sem a experiência que me tornou àquele que a atraiu eu me arrependo de não estar presente quando necessita de não abracá-la no meio da rua de não beijá-la na entrada do metrô quando correu para se despedir se mim de lhe responder logo que chama ainda que mantenha a chama que a queima na distância bela mulher que vem de lonjuras para tocar a minha pele sentir o meu falo na linda boca que me comove com as suas palavras que me convulsiona feito um vulcão a expelir rios de lavas boca que expressa sentimentalidades espero continuarmos pelas idades bem querer ao qual envio beijos profundos à alma que ao me escolher escolhi no meu coração acolher à espera de que o menino solar e a menina flor venham a se reencontrar…
de onde vem essas comemorações que tentam preencher vazios e recuperar memórias relembrar ações e homenagear quem as comete? quem hoje em dia ainda considera um poeta alguém que deva merecer menção honrosa diante de tanta gente que opera coisas reais como teclados que acionam números decretam a vida ou a morte ou a morte em vida? na avalanche de necessidades óbvias e outras inventadas mais atraentes e insinceras o que levaria a uma pessoa elogiar um ser que desvia pensamentos para além do querer sobreviver? bendizer um intruso que transcende as horas que não caminha com as hordas pária entre os vivos renegado entre os mortos? as coisas são o que são mas o que são as coisas que não são? quem busca saber o que não é ainda que seja mais belamente imperfeito? por que a matemática da existência residiria na datação do nascimento o dia da formatura o do casamento do infarto do infausto da morte marcada? quem vai mais adiante ou mais profundamente para o que não postulamos como matéria digna de nota e notação? por que há malditos que procuram a benção no que não é possível ou explicável a falta em vez da sensaboria de estar em homeostase? o poeta é um bendito –– aquele maldito disfarçado de anjo –– demônio onde busca a dor da palavra ausente contra a paz do verbo inatacável poesia está em tudo e prová-la é um veneno insidioso que questiona idades e corporações grupos do bom senso e defensores da exiguidade seja firme mate para defender sua estupidez resista à exploração de sua grandeza não o queremos questionador mas conformista mais do que acumulador um estoquista tudo o que ganhar o fará perder a sensibilidade porém será plenamente útil não diga sim às diferenças e às muitas identidades permaneça na linha reta do que é torto e abissal queira a felicidade da ignorância e da dubiedade rejeite totalmente a multiplicidade compre a esperança em cada algo que adquira sinta-se simplificado moldado e pacificado mesmo que não se perceba pacífico não atormente a sua alma com dúvidas não veja a beleza da flor não almeje a libertação da dor apenas porque nada está bem não queira saber olhe no espelho e se diga lindo feito dorian gray recolha seu retrato antigo para que engane a si mesmo que com o novo filtro está melhor filtre toda a palavra que lhe cause hesitação incerteza ou estranheza viva à espera da nova estação cada vez menos desejada porque a velhice de espírito lhe abateu aparou arestas e finalmente ambicionará a morte como o maior bem não leia até o final estas linhas escritas por um bendito maldito que apenas quer lhe causar o mal da insatisfação que nunca será saciada.
Manhã de abril, outono no hemisfério sul… Na parede, a refletir no teto, um caminho azul… Olhos cerrados e desnudos de lentes — miopia cativa e imaginação ativa — pronto! A minha vida a se perder nas primeiras horas do dia, a invadir o azulado ponto… Por ele avanço, ultrapasso idades, volto a ser infante, ser desregrado, beligerante… pai ausente, menino em busca do sagrado da existência, do amor, da paciência — ciência da paz que cria vir com a experiência… Ainda que cansado, continuo o percurso de quem morre e revive espantado…
Embolei as ideias fiz um nó depois desatei (Nirlei Maria Oliveira)
Florzinhas “vagabundas” pelo caminho…
Gosto de caminhar. Aclara as minhas ideias, estabelece um rumo, enquanto desando em pensamentos fugidios. Percebo o caminho para além das marcações de asfalto, guias, calçadas e buracos. Por vezes, enquanto passo, passam personagens. Dois deles que formavam um casal de idosos, saíam pelos portões de seu condomínio e encetaram os seus passos lentos e encurvados de presumíveis 80 anos.
Ao ultrapassá-los, os cumprimentei com um bom dia de reconhecimento, ainda que nunca os tivesse avistado antes. A senhorinha respondeu com a sua voz fraca, mas o senhor apresentou um tom forte e estável, de quem vivia os seus 50. Foi uma agradável conversa entre as idades. Porque não são apenas frases longas que perfazem um diálogo. Deu vontade de interceptá-los e saber sobre as suas histórias — união, filhos, netos — se os tinham.
Mas me lembrei de itens que faltavam em casa e mudei o rumo para o supermercado. Ao passar pela caixa, uma simpática moça me ofereceu um panetone, há dois meses do Natal. Respondi que não gostava de frutas cristalizadas (foi o menino que fui respondendo). Ela disse que também só gostava de chocotone.
O que ficou de saldo, além dos itens pelos quais paguei foi o de como as idades que vivemos se intrometem vez ou outra em nossa vida, sem mais nem menos. Atualmente, tolero panetones com frutas cristalizadas, mas o diabético tem a desculpa de não poder comê-los. Desandei em novos pensamentos. Embolei as ideias, fiz um nó depois e os desatei. Outra desandança…
Porém, nem sempre equaciono as minhas dúvidas, das mais simples às mais complexas. Muitas vezes, deixo permanecê-las numa caixa de mistérios, como se fossem brinquedos com os quais escolho brincar quando mais nada me acompanha — de pessoas a sentimentos, de emoções a ações. Vou lá, abro o repositório e os toco com a reverência de quem vive conexões misteriosas a serem desvendadas.
Em minhas andanças em busca de flores pelo caminho, tem sido comum passar por pombas mortas. Tão acostumados a ciscarem pelo asfalto, distraídas ou lentas, os carros as atropelam, desfazendo o acordo que anuncia: quando estes passam, aqueles ratos alados devem voar (George Constanza, em Seinfeld).
Domesticadas, a morte não se dá por predadores comuns, mas motorizados. Nós, que as atraímos com o nosso comportamento de “sujismundos”, estamos a abatendo esportivamente por atropelamentos. Aliás, este último parágrafo aconteceu sem mais nem menos, resultado de meus desandados raciocínios. Acidentes articulados pelo meu precário des… tino…
casamento mulher grávida 5 meses eu branco ela rosa separados pais unidos na cerimônia espanha arrozal volta redonda são paulo leste norte família família meu norte primeira filha estranha sorte deixei trabalho cuidado constante fiquei parado ano e meio meia-lua no sangue da menina mais linda que já existiu corridas repentinas hospital queda hemoglobina intervenções cirurgias muitas vezes vaso oclusão quase para o coração dor… dor… dor… dor… dela minha nossa da mãe avós de quem ama com dor conviver sobreviver viver segunda filha alento alegria gordinha sorriso banguela espevitada indômita amada vida que segue que siga consigo melhorar melhor ar para respirar muito trabalho pesado estressado como previ ainda garoto nasce a terceira menininha quero carninha nossa miquinha brilhinho no olhar lindinha estava bem mal feliz infeliz sem saber o que quis o que diz corpo sofre frustração somatizado separação coluna cervical gastrite hemorragia intestino minha filha em crise pareci 6 de hemoglobina quase pereço não me importa destino amargo ressentido anjo torto revivo renasço outra vez luto permanente luto por alguns dos meus eus engordo feito porco 105 quilos tomo coca 2 litros misturo achacolatado açúcar me afogo docemente meu corpo desfigurado em silêncio desejo partir inflado exacerbado monstro nervoso insuportável transformado a minha secura sedento de morte hiperglicemia setecentos e um quarto termino internado u.t.i. um quarto renasço querendo transformação antes da extrema-unção busco melhorar emagrecido agradecido revisitar minhas prioridades ultrapassar minhas idades morrer não é ruim pior viver sem ter fim e não saber nada de mim.
*Poema de 2021
Imagem: Foto do casal, Tânia e eu, em 2009, aos 21 anos de casamento, dois anos após a crise hiperglicêmica.