O TEMPO

falamos tanto sobre o tempo
presente passado futuro
tento viver apenas no presente
o único tempo que realmente existe
não é o tempo que passa por nós
mas sim nós que passamos por ele
ao mesmo tempo que seja uma ilusão que não passa
é uma ideia de que possamos viajar por ele
a não ser mentalmente
o que fica registrado é prova de que?
de mensagens de corpo presente talvez
mas as provas de sua existência se dão no presente
e do futuro podemos não ter provas
sem que o presente se apresente dali a pouco
tudo é presente ainda que venhamos a viver de passado
ou a imaginar o futuro
talvez seja a prova de que vivemos de imaginação
somos seres sonhadores
e do destino não somos senhores
apenas aparecemos como joguetes de movimentos cósmicos
sem metas ou intenções
sugerimos que estamos no comando quando nada é possível
de ser controlado o caminho é insondável
mas o mistério é senhor de tudo e de todos
que vivamos em busca do bem porque se não conseguimos
melhorar o mundo melhoramos nossa passagem
pelo tempo
até vivermos outros presentes em outros tempos…

Foto por Cu0103tu0103lin Todosia em Pexels.com

BEDA / Ilusão Pela Paixão

O brasileiro é movido de tempos em tempos pela ilusão induzida pela paixão ao Futebol. De País que duvidava de sua capacidade de vencer até mesmo dentro de casa, como ocorreu na Copa do Mundo de 1950, quando perdemos para o Uruguay de Obdulio Varella, de virada, quando precisaria apenas do empate para ser campeão. A isso o escritor Nelson Rodrigues desenvolveu a ideia da “Síndrome de Vira-Lata“, em que identificava o auto menosprezo como povo, o que nos tornaria incapazes de fazer sucesso num campo como o esporte mais popular do Brasil. E não apenas… Éramos uma coletividade que pertencia ao chamado “Terceiro Mundo“, que surgiu em 1952 e passou a designar os países que não se alinhavam nem aos Estados Unidos da América ou a comunista União das Repúblicas Soviéticas. Vivíamos a época da Guerra Fria.

No Brasil, do eurocentrismo, passamos a perfilar no grupo ligado ao Capitalismo gregário, em que servíamos ao Grande Irmão que nos tratava como área de reserva — uma espécie de “quintal” — como aliás recentemente se pronunciou uma autoridade norte-americana. Mas voltando à ilusão de sermos campeões novamente, eu relutantemente me filiei ao otimismo apenas para não surgir como um estraga prazeres, mas estava claro que apenas por boa sorte conseguiríamos passar pelas fases subsequentes enfrentando equipes muito melhor preparadas. Assim como aconteceu em 2014 na Copa do Mundo do Brasil, em que a Alemanha deu uma aula de organização e competência.

Enfim, enquanto passamos por seleções apenas medianas, ao enfrentar uma que realmente tinha jogadores mais aptos, como os do Dinamarca, como Ramus Halojnd e Christian Eriksen. Com as contusões de Raphinha e Paquetá, percebemos a falta que Rodrigo e Estevão pesaram num time com limitações técnicas evidentes. Mas o pior veio antes, com a desorganização da Confederação Brasileira de Futebol, envolvendo seus dirigentes em corrupção e péssima administração. Nem a contratação de Carlo Ancelotti, um treinador de primeiro nível, conseguiria reverter tantos problemas na preparação para o torneio. A paixão, no final de tudo, se sobrepôs à realidade e a ilusão levou o povo a se embandeirar, enfeitar ruas e se aglomerarem para (dis)torcer pela seleção. Houve choro e ranger de dentes e a população voltou ao modo de homeostase da vivência na precariedade cotidiana.

25 / 12 / 2025 / Natal Na Estrada

O meu trabalho é da tradição do Circo. Sou locador e operador de equipamentos de sonorização e iluminação para eventos ao vivo, normalmente ligados a apresentações de bandas musicais. Como foi o caso da realizada da noite de 24 para 25, numa colônia de férias de Caraguatatuba. Foi um evento satisfatório, que agradou ao público presente. Cansativo, devido à distância e ao tempo de deslocamento. Caraguatatuba é uma cidade litorânea ao norte do Estado de São Paulo. A chegada a ela é preocupante caso as condições climáticas não estejam favoráveis, o que não ocorreu dessa vez. Mesmo assim, apresenta curvas fechadas, tendo a bela vista das encostas da Serra do Mar à disposição, o que suaviza a tensão.

Chegamos bem, dentro do horário previsto. Como tudo saiu de acordo com o nosso planejamento, deu até tempo para dar um mergulho no Mar. Após o evento, terminado à 1h da manhã, desmontamos com calma a estrutura e saímos por volta das 3h30 do local. Madrugada alta, conseguimos pegar o caminho de volta feito viajantes de um mundo paralelo. Duas horas depois fomos abençoados com a manhã natalina surgindo no horizonte alheia à marcação humana de efemérides ligadas às suas ilusões coletivas.

Em dia de Natal, apesar do clima amistoso e das boas vibrações e as pessoas não deixam de ser o que são. Já na Rodovia Ayrton Senna vimos uma ave de rapina, talvez um carcará, bem no meio da pista isenta de movimento. Cinquenta metros adiante, o motivo de seu pouso no asfalto: um pequeno cão, muito parecido com um Fox Paulistinha… morto. Talvez ainda carregasse uma coleira a demonstrar que alguém o deixou ali, no meio do nada em pleno Natal. O seu presente foi ser abandonado num imenso espaço sem referência de localização ou cheiro para seguir. Acabou atropelado na escuridão da madrugada. Fico a imaginar se algum remorso assomou à cabeça do criminoso. Mas não pretendo entrar em sua mente e perceber o deserto psicológico no qual vive a repugnante criatura. Apenas imagino que se esquecerá facilmente de que cometeu o abandono na eventual presunção de que o bichinho tenha sido resgatado. E, para ele ou ela, isso bastaria para aliviar a sua culpa… uma ilusão.

12 / 06 / 2025 / Dia Dos Namorados Distantes

os namorados distantes do que vivem?
de lembranças dos encontros espaçados
no tempo?
do desejo reafirmado a cada diálogo roubado
nos intervalos das obrigações diárias?
dos descaminhos da volúpia pela presença
não materializada
como se fosse uma foto beijada
esmaecida pelas lágrimas de saudade?  
quem vê de fora não acredita na permanência
feita muito mais de ausências
do que das presenças
mas os cheiros 
as intumescências de bicos e membro
o êxtase reafirmado a cada reencontro
a resistência do desejo
os pelos eriçados a responder que sim
não se acredita no fim…
é uma ilusão?
mentes doentias como se vivessem um vício
pelo vazio
em que a distância não vence
ou afirmação do gosto do prazer
entre os namorados
distantes amantes da dor de amar
e bem quererem-se…

Foto por Yan Krukau em Pexels.com

13 / 04 / 2025 / BEDA / Em Busca Da Fantasia*

CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA

Desde garoto, fantasiava. Em determinado momento, comecei a colocar esses arroubos excessivos da imaginação em papeis amarrotados com tocos de lápis e canetas usadas. Nas redações escolares, as minhas professoras-leitoras me incentivavam a continuar a escrever. Mas cria que fossem incentivos costumeiros. Fora as tarefas, escrevia por compulsão ou necessidade textos que não mostrava a ninguém. O meu primeiro ouvinte foi o meu irmão, para quem lia histórias aventureiras que abusava de seres excêntricos, recheados de sustos e finais inesperados. Ele adorava. Cem por cento de aprovação.

Aos 14 anos, comecei a ousar mostrar para outras pessoas o que criava e obtinha certa aceitação. No Segundo Grau — o antigo Colegial — em outra realidade de relações, ficava a poetizar a minha vivência, impulsionada pela imersão na religiosidade. Era comum eu versar sobre a luta entre o desejo sexual e a contestação de sua expressão. O casto experimentava fantasiar sobre o sexo, ao mesmo tempo que se sentia um transgressor que desrespeitava regras autoimpostas. O devaneio com requintes de extravagância transformava tudo em ficção, a realidade adivinhada pela imaginação. Conseguia, talvez por isso mesmo, alcançar a verdade circunstancial do momento, em lúcida loucura. O que constatei ao ler alguns desses escritos depois de algum tempo, já experiente. Eu me sentia como que encantado.

Compreendi que o que poderia chamar de instinto estrutural me dava ferramentas para que a fantasia ficasse bem perto da veracidade dos fatos. Os escritos internamente obedeciam a uma lógica de tal maneira que dificilmente deixava pontas soltas. Embriagado de ficção, me descuidei. Professava a empáfia dos autossuficientes e a realidade dos homens aproveitou a minha distração para me socar na boca do estômago. Fui a nocaute. Permaneci na lona, beijando a morte por alguns anos. Quando me levantei, o sonho parecia ter acabado. Ou se apartado de mim e atravessado uma porta que se fechou. Comecei a desejar reencontrar a capacidade de sonhar feito um poeta doido que perdeu seu amor pelo caminho. 

Sinto falta de fantasia. Uma espécie de senso para o fantástico que se diluiu na nebulosidade dos tempos que envelheceu a mão, endureceu as articulações e empoeirou a eloquência da minha fala. Falhei. E falho a todo instante que deixo de crer na ilusão. Grávido da realidade dos homens, sangro a parir nulidades. Luto para reaver o deslumbrante movimento de estar incompleto em saberes e existir pleno de intuições. Quanto mais me abstenho de sonhar, mais eu me sinto longe da verdade pessoal. Cresci inversamente, para baixo, abismado, enquanto caía. Não acredito em esperança e o presente é como se fosse um limbo. Seco. Se antes fosse úmido feito a vulva da Quimera…   

*Texto participante do Coletivo CADA UM LUTA PELO QUE LHE FALTA, pela Scenarium Livros Artesanais