Tartarugas Escaladoras*

Jabuti-piranga, aos quais sempre chamamos de tartaruga

A imagem acima registrou o passeio pela casa de uma das tartarugas, que devagar e sempre, passou por cinco cômodos para vir a estacionar num cantinho da sala. Quando criança, tinha sonhos recorrentes, verdadeiramente, pesadelos, com tartarugas. Neles, eu via várias delas caminharem em minha direção, com os seus passos lentos, porém constantes. Cercavam-me devagar e, mesmo que subisse sobre os móveis, elas vinham em minha direção escalando paredes, cama, camiseira e guarda-roupa. Provavelmente, essa mesma tartaruga e sua companheira, devem ter me inspirado esses pesadelos, já que estão na família há mais de 70 anos. Deixei de ter esses pesadelos (que pareciam tão reais) quando vim a perceber, ainda dentro do sonho, que eram apenas sonhos. Descobri, apesar da minha imaginação que me fazia voar sobre as casas do meu bairro, que tartarugas não sobem ângulos retos… Elas não sobem, não é mesmo?…

*Texto de 2014

Fora De Órbita*

Academia de pobre…

Ao cruzar a cidade para ir trabalhar, tenho reparado que tem aumentado o número de pessoas com alterações no humor (para pior) e outras tantas decididamente fora de órbita. A variedade de manifestações exacerbadas com desvios de comportamento aos ditos “normais” tem se mostrado bastante amplas e muito peculiares.

Vejo o catador de papel que veste uma espécie de fralda e empurra um carrinho sem rodas, a fazer manobras imaginárias na rua. Tem o malabarista do semáforo que tenta, sem muito sucesso, equilibrar uma chapa arredondada na cabeça. Ou aquele outro que, travestido em um fictício guarda de trânsito em molambos, enquadra os infratores, a anotar em seu bloco de nuvem e caneta de graveto os pecados dos motoristas. Do meu lado, enquanto aguardo a abertura de outro semáforo, ouço e me assusto com o grito lancinante de um sujeito em andrajos que, com dicção perfeita, vocifera: “Por que é que você voltou?”…

Com este último, me reconheço… Porque já vivi tantas histórias de amor em minha imaginação e sofri tanto com os (m)eu(s) personagens, que senti a sua dor… “Por que é que você voltou?”… Mais adiante, passamos por outro maluco no qual também me vejo porque usa um veículo igual ao nosso — uma Kombi — e trabalha transportando objetos assim como transportamos os nossos equipamentos de som e luz. Tanto quanto ele, vivemos na loucura de manter a vida a circular, de acordo com o que “Sistema” (esse algo sem rosto) nos impõe… Enquanto isso, exercito o meu olhar…

*Texto de 2015

BEDA / Scenarium / A Primeira

Não há problema em esperarmos mais um pouco, meu bem querer… Se pensarmos bem, estamos fazendo amor desde a última vez que estivemos juntas, quase sem parar, despertas ou adormecidas, ainda que tenhamos apenas nos beijado. Nosso encontro despertou em mim a capacidade de vivenciar sonhos — na imaginação, tão poderosa quanto a satisfação — ultrapassei quase todas as barreiras da realização e a amei. Consumaremos algo que já se aconteceu em nossas mentes — um déjà-vu — uma dança antiga, rememorada. Na escola, a aula de Biologia versava sobre o fluxo sanguíneo e os batimentos cardíacos na atividade física. Naquele mesmo instante, o meu coração saltava como ginasta e o meu sangue viajava célere pensando em você. Estamos apaixonadas pela oportunidade de estarmos unidas, concretizando a fantasia de nos perdemos. Isso é tão forte que qualquer coisa que venhamos a viver já foi sublime. Como sabe, você será a minha primeira…

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Através Da Minha Janela, Eu Vejo…

São muitas as janelas pelas quais enquadramos o nosso olhar. A depender de onde estejamos, as paisagens mudam. Atualmente, vivemos o isolamento social provocado pela Pandemia de Covid-19. Os cenários são quase sempre os mesmos. O ano de 2020 vai pelo meio e é como se estivéssemos em compasso de espera para um novo tempo… ou não. Voltaremos a ser os mesmos? Nós nos comportaremos como se nada tivesse ocorrido ou mudaremos nosso relacionamento social? Por qual enquadramento veremos a “nova” realidade?

Janela A

… um urubu!

Da casa da minha irmã, a oeste, um urubu pousou no telhado da vizinha. Seria mau agouro ou apenas uma parada para descansar de seu majestoso voo? A ave feiosa e de má fama, apenas por ser a lixeira da Natureza, quando alça voo e plana, ganha nobreza, acima das sujeiras humanas.

Janela B

… a Bethânia.

Essa companheira de forte personalidade de quatro patas dorme dentro de casa, mas costumeiramente a coloco para fora a fim de tomar o fraco sol de outono. Ao abrir a janela do meu quarto, lá está a Bethânia a observar atenta aos meus movimentos. Espera que eu a chame de volta, apenas para pedir para sair novamente a qualquer som de movimento na rua. Então, a bisbilhoteira só quer correr e emitir irritantes e poderosos latidos, algo inesperado para um ser tão pequeno.

Janela C

… o sol tímido de outono.

Pela janela da cozinha, observo luz cada vez mais inclinada indica que o outono avança apesar de permanecermos estanques. Nossas folhas pessoais caem pelo chão a cada pequeno passo em pequenos espaços aos quais estamos confinados. Se bem que não possa reclamar. Tenho muito mais metros a meu dispor do que muitos. Minha prisão está acompanhada de pássaros nas árvores, borboletas e pipas, empinados pelos meninos em férias eternas.

Janela D

… o rio do passado.

A saudade é um rio. Caminho permanente, de águas passageiras. Pode ser uma imagem em preto e branco. Pode ser colorida ou furta-cor. A imagem acima foi de um rio que passou muitas vezes em minha vida, na ida ou na volta do trabalho ̶ o Tietê. Na ocasião, o sol se levantava a leste, a direita de quem se dirige para a periferia da Zona Norte, onde eu moro. Há meses que não exerço a minha atividade. Provavelmente, por atuar na área de eventos festivos, motivo de aglomeração, serei um dos últimos a voltar a trabalhar.

Janela E

… sombras fracionadas.

Pombas arrulham e a luz do sol inclinado faz assomar suas sombras. Alinhadas no telhado da casa de praia, esperam os cães se afastarem para capturarem a comida dos atentos Fred e do Marley no comedouro. Logo, batem asas, investem, refreiam, arremetem. Não será dessa vez. O vidro canaleta da janela do banheiro torna tudo um jogo fracionado, como se fosse um quebra-cabeças de peças soltas. A imaginação inteira voa.

Janela G

… o nada.

No quarto de hóspedes, onde guardava meus equipamentos de trabalho, há uma janela peculiar. É a única janela térrea em nossa casa que não tem uma grade de proteção. Não podemos deixá-la impunemente aberta, ainda que resida em uma rua tranquila. Devemos pensar como o ladrão. No entanto, a visão direta dá de frente para a parede de outra construção. Areja, mas não faz o olhar divagar. A não ser que projetemos sobre ela nossa visão particular ̶ da memória, dos sonhos, da imaginação, do esquecimento ̶ transgressão ou morte.

Participam desta edição de 6 On 6:
Ale Helga — Lucas Buchinger —  Mariana Gouveia — Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Horizonte

HORIZONTE

Enquanto um pterodátilo carrega o sol no bico para o outro lado do mundo, eu percebo o quanto o manto verde da minha vila foi tomado pelas construções humanas. A antiga fazenda loteada, se transformou em um bairro populoso e com problemas no escoamento do trânsito em suas ruas tortuosas. O que nos salva da aridez total é o horizonte ainda visível a partir de pontos mais elevados, como onde estou. Um dia, no entanto, os edifícios mais altos, que se aproximam à esquerda, começarão definitivamente a fazer parte da paisagem humana e talvez não haja como evitar a extinção dos bichos que passeiam no fundo da minha imaginação…

Beda Scenarium