Projeto Fotográfico 6 On 6 / Serendipitia / Três Horas Por Três Minutos

Há situações que ainda que não esperemos de nenhuma forma, acabam por nos trazer um grande prazer, muitas vezes pelo ineditismo da situação ou porque, se fôssemos imaginar que acontecesse, seria um exercício de impossibilidades, como ganhar no jogo, principalmente quando não jogamos, a se concretizar de maneira tal que talvez só um sonho explicaria.

Em um desses sábados, pelo Whatsapp, Weslei Matta, jovem cineasta – diretor, roteirista, editor de imagens, cinegrafista – que conheci através de minha caçula, em um desses encontros de contemporâneos intemporais, me consultou sobre a disponibilidade de atuar como Don Alighieri, um mafioso do futuro. O ator que o faria, ficara impossibilitado. Acertado para a manhã de quinta-feira seguinte, restaria a mim, em cinco dias e meio, decorar as falas, encontrar o tom de expressão exato de alguém poderoso, convicto de sua invencibilidade e… morrer.

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RONIN: Eu achei que você seria um desafio, Don, mas estou decepcionado… DON ALIGHIERI: Você trapaceou… Seu hacker maldito!

O set para a realização das cenas “no armazém” teria lugar no Instituto Criar de TV, Cinema E novas Mídias, fundada em 2003, aproveitando construções típicas do início do século XX, comum na região, de indústrias ou armazéns desativados remanescentes do surto desenvolvimentista paulistano do início do século passado. O Bom Retiro, um dos bairros mais antigos da região central de São Paulo, sofre um rápido processo de especulação imobiliária voltada a edificações de condomínios residenciais. Os antigos conjuntos de graciosas casas operárias pouco a pouco deverão se extinguir e as ruas por hora tranquilas darão lugar ao esquemático tom monocórdico dos novos empreendimentos.

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Não seria a primeira vez que atuaria sob o convite de Wes, como eu o chamo (em referência a outro cineasta – Wes Craven). Na outra oportunidade, Wes me dirigiu, mas desta vez a direção caberia a Pedro Oliveira, que eu conheci como cinegrafista de “Da Sacada”, clipe baseado em uma canção de Marcos Wilder, pela mesma St. Jude Produções. Por alguma razão insondável, acharam que poderia atuar daquela sorte e diante do imprevisto, voltaram a me chamar. Acordei cedo, com a cidade lavada em um típico dia paulistano dos bons tempos da garoa e lá fui eu para a região do velho Bom Retiro, para as cenas programadas.

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Instituto Criar de TV, Cinema E novas Mídias

Wes conhecia o espaço porque estudou no “Criar”. A diária estava programada para até às 14h30. Cheguei a tempo de poder ver outras cenas já gravadas do primeiro episódio de “2099”, que se passa num futuro pós-apocalíptico em que os jogos virtuais se tornam fonte de disputas entre forças antagônicas. Na trama, sou Don Alighieri, capo da realidade virtual que enfrenta Ronin, um matador de aluguel, personagem manipulado-incorporado pelo jogador Jon no mundo real. Ficamos à espera dos outros atores participantes das cenas. O ator amador se sentia estranhamente tranquilo, um veterano, não apenas na idade. A expectativa era que tudo corresse bem, principalmente porque sabia do talento dos jovens envolvidos no projeto. O que veio a se confirmar plenamente.

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Durante as filmagens, a discussões sobre como se desenvolveria as tomadas dos planos e ângulos das ações eram interessantes e demonstravam a capacidade de cada um dos envolvidos. Todos demos sugestões – atores e realizadores – acatadas aqui e ali –, mas o respeito pela liderança de quem conduzia a filmagem era inquestionável. O saber se sobrepunha à vaidade e a busca das melhores soluções para que chegássemos ao melhor resultado me permitiu viver uma realidade virtual-exemplo do que poderia ser a realidade palpável deste País. Como referência cruzada, o escritor não pode deixar de notar que até um livro de Bukowski – O Amor É Um Cão Dos Diabos – fez as vezes de apoio da câmera para proporcionar o ângulo exato para a realização de uma cena.

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Como um ser humano comum levanta um outro pelo pescoço com apenas uma das mãos?

Poucas vezes me senti tão bem. O velho encontrou, entre pessoas que carregavam um terço a metade de sua idade, o amor pela realização da arte – transformar ideias e pensamentos em algo vivo-em-movimento. O jogo entre realidade pós-apocalíptica e virtualidade de alguma maneira encontra ressonância nos tempos que vivemos. Por três horas trabalhamos para que três minutos de ação se tornassem uma visão consubstanciada de algo concreto – ilusão de outra vida – espírito ganhando um corpo. Iludir para entreter-fazer-pensar é um sucedâneo para a existência iludida imposta cotidianamente por mistificadores-algozes que grassam na cena brasileira.

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“E você me inventou e eu inventei você e é por isso que nós não damos mais certo.” (camas, banheiros, você e eu…; p.129) – Charles Bukowski, in O Amor É Um Cão Dos Diabos, 1977

O Jogo

JOGO

Amar é como se fora um jogo. Normalmente, entre dois jogadores apenas. Porém esta é uma imposição por quem nunca percebeu que o jogo do amor é incriado e não apresenta regras formais. Pessoalmente, creio que o desejo de amar seja tão grande, deseja-se tanto participar do jogo, que ninguém sabe porque joga, como não sabe se ganhou ou perdeu quando acaba, já que muitas vezes, os participantes não percebem quando a partida acabou ou apenas se ilude que não, tentando prorrogá-la ad eternum.
 
Outras tantas vezes, os jogadores mal sabem quando a peleja começa. Outros, declaram que não estão participando da sempiterna peleja, tornando-se dessa forma, um jogador muito procurado, com passe muito valorizado. Se isso é uma arguta tática de jogo ou apenas inocência, o fato é que é comum este craque marcar gols decisivos. Vencedores, quem o seriam? Como não há regramento, poderíamos dizer que não haja vencedores e vencidos. Mas na aparência, pode até haver, já que os próprios “atletas” estipulam placares pessoais e serão justamente esses que se sentirão derrotados ou vencedores quando fizerem a auto avaliação. São os jogadores profissionais.
 
Eu, pessoalmente, acho que sempre ganhamos ao jogar. Como não há regras, podemos querer jogar (amar), quantas vezes quisermos, com uma companheira ou um companheiro, separadamente ou com muitos ao mesmo tempo (jogo perigoso!) ou com o mesmo ou a mesma a vida (campeonato) toda. Este é um jogo tanto ou mais perigoso quanto a outra modalidade. Para sentirmos que estamos jogando bem é necessário que nos reinventemos o tempo todo, buscando novas jogadas, estimulando a parceira ou o parceiro a melhorar o seu jogo, sabendo que mesmo que estejamos com a sensação de perda, será sempre possível revertermos a situação.
 
Melhor pensando, chego à conclusão (momentânea) que o sofrimento será uma boa medida de nossos ganhos e que se sentirá vencedor aquele que acumular maiores perdas, porque amou demais. Esse é o amador, para mim, o melhor jogador…

BEDA | 82% Jogam

Jogos
Distração ou vício?

Trem do Metrô lotado. Pescoços que, se girarem para esquerda ou para direita, desembocariam em bocas vizinhas. Metido meio de lado entre corpos, fico de frente para a tela do monitor da TV Minuto. Até que surge a manchete: “82% dos brasileiros jogam no celular”. Seria um enunciado que indicaria certa generalização, mas mesmo desbastados os números parciais, é um dado que surpreende.

A minha irmã joga muito. Conheço um ou outro que também passa parte do seu tempo a ir e vir no sentido de lugar nenhum, mas para avaliar melhor esse índice, levantei alguns dados. 92% dos lares ou 138 milhões de pessoas, têm celular. Dessas, 116 milhões, estão conectadas à Internet – um pouco mais de 50% da totalidade dos brasileiros, estimados em 210 milhões de habitantes. Assim, os proclamados “82% dos brasileiros que jogam no celular (com Internet) constituem cerca de 95 milhões de usuários.

Restam outras questões. Os jogadores jogam um jogo ou outro, de vez em quando? Ou jogam o tempo todo? São viciados, à ponto de deixarem de fazer qualquer coisa para continuarem a jogar? Quaisquer que venham a ser as respostas, pela inferência que faço, atingiremos uma proporção muito grande, ainda que não haja exatidão nos números. Eu devo ser um daqueles (poucos) que não jogam nenhum jogo em celular. Desde o começo, os utilizei como instrumentos de comunicação e veiculação de conteúdo para as redes sociais. Talvez, nesse quesito, tenha me excedido um pouco. Um outro jogo…

Confesso que houve um período, durante o primeiro ano do Segundo Grau, que cheguei a pular os muros do CEPAV* para jogar Fliperama e Pebolim com meus colegas de classe, mas durou apenas aquele ano passado entre meus pares da sala exclusivamente masculina, separada da outra, de meninas. Experiência mal sucedida, que tornaram as duas classes um pesadelo para os professores. Atualmente, os jogos estão ao alcance de nossas mãos.

Dessa forma, um artigo de comunicação acaba por estabelecer a incomunicabilidade como item primordial de sua utilização. Afinal, jogar contra a máquina desenvolve a capacidade de… isolar as pessoas. Há jogos que podem ser jogados por dois jogadores no celular. Mas eles estarão distantes, apesar de conectados. A avalanche de tecnologia se mostra ineficiente para estabelecermos uma sociedade igualitária e comunicativa, nos alienando – de ideias, propósitos e ações efetivas. Nunca a solidão foi tão escancarada.

É bem possível que, nas próximas eleições, a tendência do brasileiro em jogar esteja exacerbada. Cansados dos políticos profissionais, os eleitores-jogadores apertarão botões na busca de conquistar pontos para vencer, a se importarem com propostas “de vencedores”. Aliás, esta eleição está a parecer certo jogo de cartas – Truco. Os candidatos gritam muito a cada jogada, sem nenhum propósito a não ser acabrunhar o adversário. Na pesquisa que realizei, um dos enunciados proclama uma defasagem de números – contra os 92% dos lares com celulares, somente 66% apresentam saneamento básico. Essa inversão de valores reais é mais uma amostra do resultado de nossa jogatina política, já há muito tempo, em que todos nós perdemos.

*Colégio Estadual Padre Antônio Vieira, em Santana – São Paulo.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari