fogueiras crepitavam um junho rostos afogueados olhares e vinho corações flamejantes sorrisos passos errantes em alerta sentidos testemunham os caminhos quem tomará a iniciativa? os dois querem e se valem alheios aos outros se oferecem aos pelos arrepiados não é o frio da noite feita madrugada desejo crescente e merecedor o sol no plexo que mal respirava raios em fuga das peles ela decide que assim será o tímido gela quando limpa a boca de vermelho batom encurrala o amante num canto corpos presos imantados almas libertas em música e dança lábios se unem em línguas falantes entrementes voltas completas do planeta em torno da estrela para sempre será um junho…
Junho de juras de amor e muita lenha para queimar… O que aquece a alma é o calor do corpo abraçado, o desejo de respirar-cheirar a pele incensada pelos pelos eriçados, a boca molhada de essências… Mas que se conheça os olhos… Sexo sem história é como teta sem coração, clitóris sem vibração, pênis sem pulsação, beijo sem memória, gozo sem emoção…
Junho me engoliu. Descobri que passeava pelo mês, quando já havia deglutido o primeiro dia em sua metade. No feriado, ocorrido no último dia do mês finado-passado, trabalhei vinte horas seguidas. Acordei na sexta-feira passada, pensando que fosse segunda. Mandei mensagem para a minha podóloga, informando que perdera a hora da consulta, às 13h. Apaguei, logo que percebi a discrepância. O motim dos caminhoneiros, ajudou a tornar o início de Junho prenúncio de algo novo –– só não sei dizer o que será…
Domitila
Junho me deixa preguiçoso. E invejoso, de tanta paz que alguns sentem ao vivenciá-lo. Apenas penso que será um mês atribulado, com Copa do Mundo e eventos relacionados à esse acontecimento. Nunca observei tanta pouca acolhida ao torneio de futebol quanto neste ano. Talvez reflexos de certo 7 X 1, na Copa passada. Prefiro acreditar que o brasileiro sabe que teremos grandes problemas a enfrentar no decorrer do ano. Que vencermos um evento esportivo não definirá nosso futuro tanto quanto as eleições que se aproximam.
Mês branco…
Junho é um mês branco. Em sua maior parte, nasce e morre sem outra cor. O outono se esvai em sangue cada vez mais ralo, à espera do inverno que se aproxima. A cidade cinza se diferencia das cores manipuladas pela mão do homem, em paredes e janelas. Nesta paisagem de São Paulo antiga, do Vale do Anhangabaú, pintada em um prédio na Avenida Tiradentes, o branco do céu real se confronta com o azul do céu fictício. A cidade se sobrepõe em camadas, em avessos e vice-versa.
Paisagem suspensa…
Junho começou com visitas à Santa Efigênia, região onde busco suplementos e equipamentos de trabalho. Vez ou outra, adentro a espaços em que quinquilharias se acumulam sem propósito aparente, a não ser de servirem como cápsulas do tempo. Já consegui peças e dispositivos com bons preços nesses lugares. Ontem, cheguei a ver o mar, ainda que mal pintado. Surpresas deste mês frio.
Nudez…
Junho desencarnado se reflete em visões nuas. Como a parede deste belíssimo prédio. Praticamente abandonado. Aparentemente, está para ser reformado. O mês de junho está para ser reformador. Janelas e portas escancaradas para nos conscientizarmos de nossas possibilidades como povo. Poderia começar com as festas juninas queimando as fogueiras do descaso à vida, da insolvência da lei, do descumprimento das normas básicas de convivência social. Que as quadrilhas dancem apenas os temas folclóricos.
O multi-Homem que não sou…
Junho antecipou emoções que esperava viver apenas em seu final. Solicitações de todas as ordens fez com que eu tivesse que multiplicar minha atenção. Nem mesmo a minha personalidade dada a brincar com personagens para atendê-la em sua diversidade, está conseguindo lidar com todas as questões que este mês tem me pedido. Há datas que gostaria de ser três pessoas, pelo menos, para estar onde gostaria de estar. Dia 23 de Junho será um desses dias…