BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / É Noite, Tudo Se Sabe

É Noite

Durante alguns anos, dos 8 ou 9 até os 13 ou 14, eu tive um radinho de pilha japonês, com o qual ouvia programas logo de manhã e antes de dormir. Durante todos aqueles anos era um garoto auto recluso, que preferia músicas nem tão populares de Nat King Cole, Ray Charles, Frank Sinatra, Soul Music dos grupos negros americanos, além de MPB. A minha emissora favorita era a Rádio Panamericana AM, de São Paulo. Na maviosa voz de Ana Maria Penteado, a partir das 22h, tendo ao fundo o tema de ”Summer Of 42”, de Michel Legrand, era anunciado: “É noite, tudo se sabe” – frase que reverbera até hoje em minha mente. A sentença consegue dizer tanto sem revelar nada, porque não precisa. Se não sabemos, intuímos, o que é, muitas vezes, mais poderoso do que propriamente sabermos.

 

É Noite, Tudo Se Sabe (4)Muito do que se intui da noite é suscitado pelo luar. É quase sonho de leite a boiar na negritude do café adoçado de estrelas. Hora se mostra, hora se esconde por entre ramos e nuvens, vãos e desvãos de nosso lugar de observação. Há certas ocasiões que não somos nós a observá-la, mas ela a nos encontrar apartados de nós e de outros em imenso espaço vazio. Quando parece crescer, é para se fazer presente e mais próxima por piedade de nossa solidão.

 

É Noite, Tudo Se Sabe (10)

A noite é o tempo preferido para amar. A escuridão, que a muitos assusta, serve de cobertura para os amantes. Os encontros se dão após um dia inteiro de labuta, mas nada impede que ocorra na hora do almoço ou happy hour. Eu trabalho quase sempre em eventos festivos noturnos, se bem que a preparação se dê ao longo do império solar. O registro acima foi feito em São José dos Campos, onde estava a trabalho, com a visão do vale em movimento incessante de carros pela Dutra e vias vicinais. Em sugestivo lilás, um grande motel se destaca ao centro. No Brasil, motéis ganharam a conotação de lugar para encontros sexuais. Em um país de progressiva mentalidade repressora, imagino o dia em que templos como esse serão combatidos pelos defensores de templos concorrentes, aqueles que alegam professar outro tipo de amor, naturalmente a soldo. É o mercado das almas…

É Noite, Tudo Se Sabe (9)

Minha filha canina, Betânia, gosta de vigiar a vizinhança, tanto de dia quanto de noite. Seus latidos emitidos em função de quaisquer coisas que se movam ou produzam algum tipo de som, continuam ainda que a admoeste. Equilibrada em beira de laje ou na mureta, ela olha para mim, percebe que fico no mesmo lugar e volta a latir pelo puro prazer de se expressar contra a natureza do invisível. O que me resta é registrar a imagem, como faria um pai babão com as artes e artimanhas de sua criatura.

 

É noite, estrada

O negrume pelo caminho é riscado por luzes em formas variadas. Ainda que saibamos se tratar de automóveis – carros de passeio, vans e caminhões – seriam perfeitamente reconhecidos como objetos voadores-movediços não identificados, pela ilusão que causam ao passarem por nós, em qualquer sentido. O som contínuo do motor parece o de uma máquina de perpetuum mobile, monocórdico e entediante. O cansaço e o sono ajudam a produzir a sensação onírica de viagem astral. É noite, tudo se sente…

 

É Noite, Tudo Se Sabe (8)
Prédio Caetano de Campos, na Praça da República

Vivo em São Paulo. Quase não passo por algum ponto que não esteja minimamente iluminado. A luz artificial se faz de tão modo presente que sua ausência é razão de desconforto, como se faltasse algo a nos completar. Precisamos desses sóis particulares para nos identificarmos como seres. Não bastaria sabermos disso, temos que confirmar nossa condição de habitantes da pólis banhada em claridade. A noite nos pertence como tema, atrativo e contraponto – somos entes da luz emprestada e da sombra permanente. Sei disso, porque vivemos em noite eterna…

 

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Inverno De Cada Um

Até outro dia, vivíamos um dos invernos mais quentes e secos dos últimos tempos. Praticamente, um veranico de meio de ano. Apregoam que é culpa do El Niño. Para mostrar como a Natureza se manifesta em uma escala bem maior do que as marcações diminutas de nossos dias, o que acontece no Pacífico reflete nas costas do Atlântico – um continente inteiro pelo meio. No entanto, para cada um de nós, existe um inverno diferente. Para quem gosta do frio, hoje está sendo um dia ideal, assim como para os lojistas, que estão a se livrar do estoque abarrotado de peças deste “inverão” de 2019.

Inverno (3)

Apesar da quentura que envolve a cidade, as sombras das manhãs invernais não se enganam. Oblíqua, a luz do sol, sombreia os corpos dos edifícios da cidade que amanhece. Para quem acha que a sombra esconde algo talvez não se dê conta que é a própria sombra que está a se mostrar como protagonista.

Inverno (2)

Ainda sobre a luz invasora que antes se mostrava soberana – os obstáculos se tornavam adornos ao seu toque. Os perfis banhados, lambidos, vestidos e desnudos pelo sol ganhavam outra identidade. A vida acontecia tanto sob seu brilho como à sua sombra. Contraste digno de pintores renascentistas – “chiaroscuro” de Caravaggio – imposto mesmo aos olhos dos incautos-incultos.

Inverno (4)

As nuvens nos dias claros do início do Inverno, antes do cinza total que se apresenta agora, desenhavam quadros que têm um quê de tempos idos e são bem-vindos aos novos olhares. Creio, mesmo, que enquanto puder ver, tudo se apresentará a mim como símbolo da novidade de existir.

Inverno

Outro dia, em uma dessas manhãs frias, um jovem casal passou por mim em passos céleres. O rapaz carregava o filho no colo, enquanto a companheira ao seu lado, bolsa e mochila. Iam de mãos dadas, algo tão incomum nos dias que passam, que chamou minha atenção. Em determinado momento, o moço trocou o filho de braço. Soltaram as mãos por instantes, até as unirem novamente. Dobraram a esquina e logo chegaram à porta colorida da casa onde entregaram a criança, a beijaram e a viram entrar confiante entre abraços das “tias” da creche. De novo de mãos unidas, encetaram o caminho em direção ao ponto de ônibus. Essas cenas aqueceram meu coração…

Inverno (1)

Inverno de eclipse solar total. No entanto, aqui, em Sampa, às 17h39 do dia 2 de Julho – quando o fenômeno natural atingiria seu auge – o meu olhar em direção ao horizonte não viu o astro-rei encoberto pela Lua. Encontrei a tarde a declinar como sempre, nublada e tenuemente clara. E ela me encontrou meditativo e levemente obscuro. Certas manifestações ocorrem e não ocorrem: questão de ângulo e lugar.

Inverno (5)

Finalmente, o Inverno chegou ao seu tempo. Aqui em Sampa, por onde passa a Linha do Trópico de Capricórnio e abaixo, nos Estados sulistas, costumamos sentir as estações mais ou menos delineadas em seus parâmetros “ideais”, somente que de modo bem mais suave que as terras do Hemisfério Norte costumam apresentar – Primaveras floridas, Verões “callientes”, Outonos desfolhantes, Invernos nevados. A chegada da frente fria à cidade, trouxeram chuvas torrenciais, o maior índice pluvial para um único dia desde 1976, quando eu tinha de 14 para 15 anos de idade. Tentei lembrar se a mesma situação foi marcante, mas tantas águas passaram por mim desde então que não consegui me deter sobre qualquer fato relevante em qualquer das estações daquele ano. Estou muito ocupando com o hoje-agora-instante, pesado o suficiente para dar alguma importância a fatos passados, ainda que influencie meu Presente. Temperaturas de -4ºC no Rio Grande do Sul, geadas e eventualmente nevascas intermitentes atraem pessoas que se sentem transportadas para fora do Brasil tropical. Enquanto pessoas, entidades e campanhas do agasalho tentam minimizar os efeitos do frio naquelas que sofrem a condição de viverem no Brasil real. É o Inverno de cada um – dores, amores perdidos, corações conquistados e partidos – frio e calor. Antes assim, que o que é morno não me move…

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Minhas Noites

Não preciso da escuridão exterior para mergulhar em minhas próprias noites – sol posto, meias-noites, altas madrugadas. Vivendo na metrópole, mal se percebe o negrume pleno das noites fechadas, sem Lua a nos guiar. Já as vivenciei longe das luzes artificiais em algumas ocasiões, quando criança. Na Periferia, sem energia elétrica vez ou outra, sabíamos que estávamos em terra porque se contrapunha o céu estrelado. Quando as estrelas se moviam, logo percebíamos que eram vaga-lumes. Inicialmente assustadoras, as noites me traziam o conforto do útero materno. Até que amanhecesse e o encanto se desvanecesse em luz…

MINHAS NOITES (3)

A noite, ainda que iluminada artificialmente, provoca visões de outras dimensões. Nesses momentos, os olhos enganados sugerem formas e cores que a luz total não permitiria supor. O mundo se transforma em sombras e os detalhes não interessam. Partimos para explicar o inexplicável segundo nossas convenções. Na escuridão da caverna, os primeiros grupamentos humanos brincavam com os seus medos. Projeções provocadas pelo fogo de suas linhas contra as paredes os encantavam. Chego a imaginá-los alegremente temerosos viajando para outras esferas.

MINHAS NOITES (4)

Construções humanas surgem inesperadamente sutis quando confrontadas contra o cenário negro da noite. Mesmo uma antiga beneficiadora de café, palco passado de trabalho pesado, torna-se uma personagem luminosa em contraponto ao negrume. No tempo que foi erguida, criou riqueza. Hoje, inspira beleza.

MINHAS NOITES (5)

Ao passar por avenidas de feéricas luzes, passo por edifícios que parecem funcionar vinte quatro horas por dia. Se não, por que todas as luminárias acesas? Dentro de cada casulo de luz, a insana atividade humana para pagar o consumo daquilo que estimulará mais trabalho para consumir mais trabalho… Assim, estipulamos metas a alcançar, níveis a ultrapassar, desejos a serem criados. Qual o objetivo disso tudo?

MINHAS NOITES (2)
Elvinho Elvis Tribute Artist

Meu trabalho propicia que eu viaje para todas as épocas. A depender do tipo de evento que sonorize, as músicas passeiam dos Anos 50 a atualidade – momento em que os sons vibram em baixa frequência criativa. Casamentos, shows, bailes de salão, aniversários, inaugurações de pet shops, jantar de negócios, premiações – tudo que envolva motivos para celebração da vida humana, participo da produção através do som e da luz. No palco, não é incomum rever Elvis Presley entoando “Suspicious Minds”…

MINHAS NOITES (7)

A Lua, “criada para governar a noite”, nos revela seus segredos somente para nos propor outros. Havia o temor que a chegada do homem ao satélite da Terra pudesse tirar o seu encanto. “Poetas, seresteiros, namorados, correi / É chegada a hora de escrever e cantar / Talvez as derradeiras noites de luar…” – cantava Gil, em Lunik 9, há cinquenta anos. Porém, a Lua voltou a se impor como componente mágico de minhas/nossas noites. Sempre que posso, a fotografo, em todas as suas fases. Nunca deixo de me surpreender com o que me revela…

MINHAS NOITES (1)

Sou pedestre e passageiro. Percorro a cidade a pé e através de coletivos, trens e carros (como carona). O que dá ensejo de registrá-la por instantâneos. As imagens nem sempre causam interesse imediato. Mas muitas vezes acontecem descobertas ao segundo olhar. Este registro abaixo o tenho como emblemático por vários motivos. Eu surjo como um fantasma noturno a plasmar com o cenário da cidade, atravessando umas das pontes do Tietê – que une a Periferia ao Centro da cidade. Ação que é frequente, quase cotidiana. Poderia dizer que ela se torna praticamente uma declaração tácita do quanto Sampa faz parte de minha identidade.

Participaram também
Cilene Bonfim | Isabele Brum | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

BEDA / Círculo Da Lua

Círculo da Vida
Piscinão Guarau

Na manhã de sábado, quando caminhava junto à avenida esburacada do bairro em direção à academia, observei uma concentração incomum de urubus (pela quantidade, os tenho chamado de “pomburubus”) sobrevoando bem alto a área do Piscinão do Guarau. Talvez tivesse uns quarenta ou mais realizando manobras circulares em torno de um ponto mais claro no céu azul.

Identifiquei, para a minha surpresa, apesar do horário, que se tratava da lua em seu último quarto. Foi um benefício adicional ao meu esforço de voltar à atividade física. No céu da cidade de São Paulo é raro vermos a lua em sua plena expressão, mesmo à noite, já que as luzes artificiais impedem que os nossos olhos alcancem o belo astro para além da prisão luminosa na qual erramos.

Urubus são seres fascinantes. Tom Jobim, quedava igualmente extasiado com as elegantes circunvoluções dessas aves necrófagas. No entanto, o voo alto é uma das maneiras que esses seres utilizam para buscar alimentos. São importantes na limpeza do meio ambiente. Quando ocorre a mortandade de muitos animais por doença, por exemplo, o urubu ajuda a controlar a epidemia ingerindo as suas carcaças.

Possui uma envergadura de 2,40m e peso que oscila de 3 a 5kg, medindo cerca de 85cm de comprimento. Na Natureza, tem poucos predadores naturais, mas, devido à sua baixa capacidade reprodutiva, além da degradação do seu habitat, é uma espécie cada vez mais rara de se observar. O que significa que são os homens os principais responsáveis pela diminuição de sua população. Em suma, seus predadores…

Não foi o caso desse dia, onde a revoada de tantos entes alados fazia lembrar um bom filme B. Naquela área, eu os tenho observado em número cada vez maior. Quando chove mais torrencialmente, o piscinão do Guarau recebe os rios canalizados da região, impedindo que as águas do vale invadam o rio canalizado de mesmo nome, que se estende sob a avenida de fundo de vale Inajar de Souza, até desaguarem no Rio Tietê.

Todo o lixo orgânico e não-orgânico que é jogado ou cai nos esgotos da região se espraia por todo o perímetro do Piscinão Guarau, tornando-o um verdadeiro “fast-junk-food” para os urubus. Ou seja, de uma maneira enviesada, estamos proporcionando um verdadeiro criadouro para os membros da espécie Sarcoramphus papa (L.).

São as voltas que vida dá…

Projeto Scenarium 6 Missivas / Dezembro-18 / A Um Desconhecido

Espelho

A você, que estranho todos os dias, que o sei próximo, mas o vejo tão distante e díspar a ponto de desconhecê-lo. A você, que é humano, porém que sente se desumanizar a cada dia um pouco e que, como náufrago em meio ao mar revolto, volta à tona tantas e tantas vezes após submergir outras tantas. Eu me pergunto porque quer sobreviver se não vê terra firme onde pisar os pés descalços e esperançosos de equilíbrio? Que força o mantém seguindo em frente, mesmo quando percebe que o ambiente é inóspito? Seria curiosidade por saber o final da história? E se soubesse que a história não tem fim – que vive, morre e renasce indefinidamente –, ainda que decidisse interrompê-la sob o protagonismo da atual identidade? E se, ao contrário, porque deveria permanecer mais tempo aqui, sabendo que tudo termina? O que o leva a ser como é – feliz ou infeliz, pacífico ou belicoso, certeiro ou errante?

Você acredita carregar uma alma eterna? Vislumbra, quando se desveste de seu ego, algo que identifica ser maior, permanente, apesar de impreciso? Eu vario constantemente minha crença – acredito, ainda que sem fé retumbante, que seja mais do que apresento. Consigo comungar com a Natureza – mar, rio, campo, montanha – uma vibração extracorpórea, extraordinária. Na cidade dos homens, junto às humanas máquinas, ao mesmo tempo que me espanto com o engenho e a arte de nossas criações, me surpreendo o quando descemos à insignificância de amebas em nossas ações. Nesses momentos, sinto que somos desprovidos de espírito, agimos como bestas feras, criamos o inferno e nos danamos.

A você, desconhecido, posso confessar: sou fraco. Cedo com facilidade ao medo, ao gozo, a dor, a paixão. Sei que são sensações passageiras, contudo foi através de suas manifestações que os seres humanos erigiram as civilizações. E, ainda antes, quando a negritude imperava fora das cavernas e o fogo criava sombras nas paredes, os seres primeiros pintavam figuras recorrentes em suas lembranças – cenas cotidianas, seres e atividades – caça, plantas e animais portentosos, sol, lua e estrelas. O ritmo do tamborilar das gostas de chuva nas folhas, a batida dos pés, movimentos de membros e mãos –música e dança – a criação da arte a transcender a barreira de nossas emoções básicas. Com ela, conseguimos exprimir sentimentos, muito mais que com a pele que vestimos. Com o tempo, acabou por surgir a linguagem, a arte que abracei como minha.

Meu temor é de que não fosse tão bom nesse ofício. Antes, esse receio me paralisava. Vaidoso, não mostrava o que escrevia para ninguém. Bastava a mim para me criticar. Venci o mundo quando encontrei a Lua. Hoje, ela me impele a escrever. Até mesmo enviar uma carta a quem desconheço. Que provavelmente me rejeitará. Porque esse desconhecido também escreve. Escritores não gostam de escritores, mesmo quando gostam do que escrevem. O surpreendente – mas nem tanto – é que o emissor e o receptor da carta sejam a mesma pessoa…

Participam: Lunna Guedes | Maria Vitória | Adriana Aneli | Mariana Gouveia