BEDA / Reflexos Do Tempo

Enquanto caminhava para o prédio em que trabalhava, o homem muito sério viu ou imaginou ver, do outro lado da rua, uma imagem que o fez viajar no tempo. Aquela era uma manhã de inverno, porém ensolarada, em que a luz incidia inclinada por entre os transeuntes, atravessando-os, como o vento o faria, lambendo-os com o seu calor tépido. Essa luz encontrou o seu lugar nos cabelos da mulher que um dia ele amou, ou que um dia pensou amar, ou não seria aquela a moça que amou e imaginou que fosse, mas a sensação que trazia aquela visão, o precipitou para vinte e cinco antes, quando não era tão sério, mas apenas tímido o suficiente para nunca declarar que a amava. Porque percebeu exatamente naquele instante fugidio, que ele, sim, a amou profundamente, tanto que nunca quis se entregar a esse amor, que covardemente imaginou que desmoronaria com as vicissitudes da convivência mútua. Assim, o manteve intocado pelo tempo, tão forte quanto à época que o sentiu pela primeira vez. Agora, naquele momento crucial, estava para decidir se iria ou não correr atrás daquela que pensou ser a sua amada eterna, naquela manhã de inverno morno…

Foto por Tim Gouw em Pexels.com

Participam do BEDA: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Darlene Regina Lunna Guedes / Suzana Martins

Projeto 52 Missivas / Voo Aberto

Caro companheiro de jornada,

possuo a doença dos espaços incomensuráveis. Plano entre planos, ultrapasso fronteiras, mergulho em dimensões várias, infinitas, ínfimas, atômicas. Invado buracos negros, comprovo a matéria escura, enquanto passeio entre galáxias que giram por multiuniversos. O meu espírito paira entre as tramas que sustentam os milhões de planetas e suas multidões de espécies interestelares, diversas e exemplares em diversidade.

Somos filhos do mesmo Princípio e Fim, amálgama de substâncias alienígenas, resultado de bilhões de Tempos. Sei de nossa incapacidade em sabermos de nós. Percorro caminhos paralelos e coincidentes em destinos e recomeços. Corro por ciclos circulares de energia em consumações e criações eternas. Imprimo movimentos em velocidades portentosas por campos gravitacionais exponenciais em proporções absurdas de tão simples e luminares.

A Luz se alterna em cores que cortam meu corpo em fatias de frequências titânicas. Habitante do Nada total, a avalanche de sóis não soluciona a minha solidão quando me sinto apartado de Tudo. Sem sentido e profundidade, voo a esmo, com sorte decidida.  

Ainda assim, lhe pergunto: quando poderemos tomar um prosaico, ainda que importante café para discutirmos os nossos interesses no momento imediato a lamentarmos a impossibilidade de sermos felizes?…

Com admiração,                                                                                                        Pássaro Desencantado.

Foto por Felix Mittermeier em Pexels.com

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes

Amanteamigo

Estou consigo e você, comigo
Estou na sua vida porque sou
Aquele a quem sempre buscou
Sou seu amante e seu amigo

Tenho o Sol por testemunha
O mesmo astro que iluminou
E o primeiro homem avivou
Amor por inteiro, do cabelo à unha

Vem a tarde, vai o Sol, chega a Lua
Se aproxima a hora de dividir
Corpo e alma, o mesmo rir
O mesmo ar, a paixão mútua

Que se consuma o fogo, enfim
Que renasce com a luz da manhã
Todos os dias, com a força irmã
Da criação do mundo e do seu fim.

Amor Amado

Eu a amo…
Amor não correspondido.
Prefiro assim.
Tem maior valor o meu Amar

Eu o tenho como tão precioso
que não quero vê-lo exposto,
devassado por outros olhos
que não os meus,
no espelho de minh’Alma

Sei de sua Força,
de sua Chama,
que me chama para perto de sua Luz,
ainda que me distancie do Sol

Caminho por estrada de mão única.
Não me importo que vá
Querer Você e não a ter,
me faz completo.

Paciente, fico à espera
que o Vento me disperse,
que o Tempo peça
que de si me despeça,
Amor Amado

Foto por RODNAE Productions em Pexels.com