A Mariposa

Logo no primeiro dia em que estava na praia um simplório episódio me impulsionou a voar. Conversava com a minha sobrinha. O meu braço se estendia em direção às ondas do mar. A brisa chegava em invisíveis frequências sonoras quase surdas. Eu devia estar falando alguma insensatez. Eis que em voo tracejado pelo destino, estacionou em minha pele sob o sol, um tipo de mariposa soube em pesquisa por imagem feita pela Verônica.

Rapidamente, recolheu as asas abertas internas sob a externa, de proteção. Talvez ela tenha sentido que tenha chegado a um porto seguro, tão longe da vegetação. O leptóteno pousado em meu braço pareceu não querer se mover. Depois de um minuto, delicadamente eu coloquei o indicador sob as suas patinhas e a transportei para o cabo do guarda-sol.

Eu a deixei e fui às águas como o menino que me torno, enfrentar as vagas em mergulhos curtos como um golfinho-criança ou um jacaré-mirim. Quanto ao ser que vive de mariposar, ao voltar já havia me esquecido. Naquele momento. Depois, por algum motivo, ela começou a adejar pelo meu pensamento. Busquei simbolismos que pudessem me indicar alguma mensagem. Encontrei que, a depender das cores, elas simbolizavam possíveis acontecimentos, bons ou ruins. Assim como tanto pode ser o nome dado a uma joia ou pode ser outra designação dada a quem pratica a prostituição.

Achei pertinente a sua associação com a vida carnal — nascer, se desenvolver e morrer — e os ciclos na vida desse inseto, que nos remeteria não apenas a superação às limitações físicas, mas também às espirituais. “A morte, no contexto da mariposa, simboliza o fim de um ciclo ou de alguma limitação que já não precisa fazer parte da nossa vida”. O que sei é que me senti distinguido. Sou assim. Tento transcender em vida, tento elevar o meu sentimento para além do comezinho cotidiano. Isso não significa que haja assim o tempo todo. Sei distinguir as realidades. Sou funcional. E sou espiritual.

Eu me permito sair de mim de vez quando. Faço por onde me colocar no lugar do outro. Sofro muito. Mas não conseguiria agir de outra maneira. Sei que também devo proteger as minhas asas internas assim como a minha capacidade de voar sem me alienar. Essa é uma batalha que luto desde garoto. Depois de ultrapassar as fronteiras do imediato, não há como retornar, ainda que possa acontecer de surgir dúvidas e tentações de ser menos do que podemos ser.

O pequeno ser me enviou um recado. Viajei? Sim, para além de mim, em dia quente, Sol a pino, sabendo que as nuvens toldariam a luz, as chuvas se precipitariam, as ondas se enfureceriam, as tempestades ocorreriam. São os ciclos que devemos superar. É a vida que continua a voar…

Notas Sobre A Vida Em Janeiros Passados

SOBRE OS JESUÍTAS (2019)

Este painel se encontra à esquerda do saguão de entrada da Casa de Portugal. Mostra o jesuíta português Manoel da Nóbrega entre os gentios da terra, em postura de força impositiva, apesar de apresentar, humildemente, os pés descalços. Se visitarmos um estabelecimento oficial espanhol em São Paulo, lá encontraremos a figura do espanhol José de Anchieta, a catequizar os nativos dos Campos de Piratininga. Oficialmente, os dois jesuítas foram os responsáveis pela fundação desta cidade que hoje completa 465 anos de nascimento, na inauguração da choupana que servia de escola e moradia. Por uma confluência de fatores, São PauloSampa, para os íntimos — tornou-se o que é. Qualquer definição que se dê a ela, em pouco tempo deixa de ter sentido, pois a metamorfose permanente é seu único traço definitivo e definidor. Em São Paulo nasci, vivo e espero morrer, a saber que já fui muitos e serei outros tantos até o fim — quando dispersarei meus átomos por esta terra que me formou.

SOBRE IMAGEM (2019)

Subo ao coletivo, passo a catraca, me sento junto à janela, a qual deixo entreaberta para sentir o vento e me refrescar neste dia quente. Começo a suar mais do que devia e percebo que a janela do meu lado estava fechada. Imaginei que tivesse acontecido pelo movimento do ônibus. Voltei a abri-la. Mais alguns minutos, a vejo novamente fechada. Estranhei e olhei para o banco de trás, onde havia uma moça que sorriu amarelo e murmurou: “o vento estava bagunçando o meu cabelo…”. Realmente, ela estava com os fios retos postos lado a lado como se fossem desenhados. Sorri de volta, outro sorriso amarelo. Não tive coragem de dizer a ela que a sua maquiagem, devido ao calor, estava escorrendo um pouco…

IN PLANET OF THE APES (2020)

“A primeira foto data de 2014. Treinava regularmente. Faz três anos, justamente em janeiro, que não entro em uma academia. O ritmo de trabalho aumentou tanto que não tive mais tempo para sentir a dorzinha gostosa da atividade física regular. Quando estou em casa, me dedico a escrever ou a realizar tarefas caseiras. Quando subiu a primeira imagem, de seis anos antes, percebi que usava a mesma camiseta — uma das minhas favoritas. Registro feito, não imaginava que a camiseta fosse tão velha. Já o velho, tenta viver um dia de cada vez. In Planet Of The Apes…”. Dois meses à frente, o mundo pararia…

463 ANOS (2017)

Nesta imagem, homenageio a minha cidade. Eu a produzi às 6h da manhã do horário de verão, ao passar pela Ponte da Freguesia do Ó. Quis captar a Lua, em sua fase crescente. Quase não conseguimos percebê-la. As luzes das Marginais roubam a cena, separadas pela escuridão do leito do Rio Tietê. De forma indireta, é uma maneira de reunir símbolos importantes desta metrópole — um rio morto pela poluição, vias de locomoção que estão normalmente congestionadas, luzes que nos confundem em vez de revelar, a beleza dos astros, esmaecida pela fumaça. Contudo, não viveria em outro lugar.

CLIMÁTICA (2017)

E o dia entardece como ontem. Depois de um dia nublado e/ou chuvoso, a luz deu o ar de sua graça sobre a terra paulistana dos quatro elementos e diferentes climas cotidianos.

FILME NOIR (2015)

Ao lado do Hotel Manchete, a Lanchonete E Bilhar Ideal. Com esse aspecto de filme noir dos anos 40 ou 50, já imagino que o cidadão sentado à frente da entrada seja um exímio jogador à espera do próximo “pato” a ser depenado em uma aposta — “bola sete na caçapa do meio!”.

SOBRE O LIXO (2016)

Sem cabeça para ficar… Sem pés para onde ir…

NOTAS SOBRE JANEIRO DE 2022

É bem significativo e nada contraditório (no Brasil) que o Carnaval seja transferido para o dia em que se comemora o enforcamento e esquartejamento de um homem que lutou pela liberdade. Assim como seja tradicional que Judas seja malhado no Sábado da Aleluia por ter cumprido o percurso da Paixão daquele que pregou o perdão.

Prestes a ser comemorado o aniversário da cidade de São Paulo, podemos ver a reprodução atualizada dos grupos de homens e mulheres da terra, nômades se reunindo em coberturas em torno do Pátio do Colégio. A diferença é que há 468 antes, elas eram eficientes por ser o estilo de vida que as comunidades dos originais da terra conheciam. Atualmente, as tendas são moradias improvisadas, a única maneira que os desvalidos da terra encontraram para se abrigarem das intempéries.

Como a conta sempre chega, os não vacinados ou com vacinação incompleta contra a Covid-19 ocupam mais de 80% dos leitos de UTI e Enfermagem, retirando espaço de outros tratamentos. O Negacionismo ocorre em todas as frentes — social, econômica e psicologicamente — o que não impede que a realidade sempre se imponha, não sem muitas dores.

Projeto 52 Missivas / A Morte Pulsa…

“A morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao pulsar dos segundos” essa frase diz muito sobre a minha visão sobre a existência. Carregamos, desde a concepção, as possibilidades de sermos… o que? Qualquer coisa, dentro das limitações intrínsecas às condições naturais, sociais e de outras ordens, muitas apenas especulativas.

Eu, que escrevo e você, que me lê, participamos de uma rede de relacionamentos que envolve parâmetros demarcados pela perspectiva permanente e irretocável da vida e da morte. Para mim, não há dicotomia ou separação entre uma e outra. A morte nasce com a vida e minha crença ainda prorroga esse enlace para “antes” e para “depois” de virmos fisicamente à luz do Sol. Neste período, neste planeta, neste plano, frequência, energia, pulsação…

Arbitrariamente, a depender de cada um, os eventos do nascimento e da morte são separados como acontecimentos diferentes. Filosofias de todas as eras civilizatórias propõem explicações, perspectivas, conceitos e, sobre eles, constroem crenças-religiões que regem a vida e instauram a cessação de seu fluxo, agrega culpas e decreta penas para aqueles que não creem em seus mandamentos. Grupos lutam para colocar a sua religião como a verdadeira. Baseiam-se em livros, em palavras, em imposições civilizacionais professadas por enviados e pastores.

Como bebo de um caldeirão de informações díspares, me deixo ser influenciado por concepções de todas as origens. O critério que utilizo é que a sensação de “pertencimento” repercuta em mim de alguma maneira. Consigo entender como se dá o processo naquela determinada cultura. Dali por diante, deixo a semente germinar ou morrer. Se não influencia determinantemente o meu pensamento, ainda assim posso utilizá-la na criação dos meus textos. Não preconceituo nada e a rejeição só ocorre quando algo atenta contra a liberdade de ser e de pensar. Além do empirismo pessoal, outra base na qual alimento minha religiosidade são as Ciências — as humanas, filtradas por minha percepção; a Biologia, a Geometria sagrada, a Física, a Astronomia — sem contradições, apenas confirmações.

O pulsar dos segundos rege a minha vida-morte conscientemente e a transforma em energia-combustível para minha existência. Viver o Presente é buscado e ainda que o Passado se imiscua com lembranças, será sempre para reafirmá-lo. Pensar no Futuro é utilizado para potenciá-lo em vivência realizável. Dito dessa maneira, parece um esperto jogo de palavras que nada explica. Isso porque a amálgama de emoções e sentimentos que geram são pessoais e por mais que eu tente apreender explicá-los, o fluxo torna-se inapreensível. Mas como também acredito na magia das palavras, ainda assim esta barafunda de inflexões talvez possa vir tocar o seu peito.

Lunna Guedes / Mariana Gouveia

João Sorriso*

Humberto, João Soares e eu… há um ano.

— Tira umas fotos para mim?

— Claro, João!

Não importava o cenário — uma escadaria imponente de um clube antigo do interior; ou o palco com os dançarinos na pista como fundo; ou a parede simples, desencarnada de adereços — ele assumia a mesma pose: braços cruzados sobre o peito, as pernas levemente afastadas em gesto de confiança e um imenso sorriso. Se pudesse dar um apelido a ele, ainda que não esteja mais fisicamente entre nós, seria João Sorriso.

Conhecido como João Soares, nós, da Ortega Luz & Som — Humberto e eu — o acompanhamos nos últimos quatro anos, juntamente com Tânia Mayra, Cláudio Albuquerque, Rafael Ortega, Vagner Mayer. E Marcos Oliveira e Edu, como bateristas (entre outros) na empreitada de levar a Banda Ópera Show para todos os recantos onde éramos chamados a atuar, desde a grande São Paulo, Interior e Litoral. E assim foi até a chegada da Pandemia de Covid-19, em março.

Os eventos caíram um a um e ficamos à espera de que as coisas voltassem ao normal logo mais. O que nunca aconteceu, como sabemos, apesar de muitos se iludirem a respeito. Em determinado momento, percebi que o “novo normal” não seria o antigo normal sem que a vacinação ocorresse. E que isso não será se efetivará rapidamente. Principalmente porque não houve planejamento para isso, o que fará que demoremos para voltarmos aos eventos com grande público antes que os riscos sejam diminuídos substancialmente. E entreter o público é o que o João sabia fazer de melhor e teve que deixar.

Entre os vários cursos que eu fiz, houve o de Marketing Pessoal. Uma das tarefas previa que eu fizesse “Lives”, uma por mês, projeto que seria levado avante em 2021. Uma delas, intitulei: “Setembro: Histórias De Um Cantor Profissional Que Não Faz Sucesso Na ‘Mídia Oficial’” — com o cantor de bailes de salão, João Soares. Esse “Live” não se realizará. João representa uma classe de muitos e talentosos artistas que não ganham acesso a grande mídia atualmente, cheia de personagens inventados, sem lastro. A sua história foi rica. Participante de grandes bandas e de programas de auditório de anos passados, nos encantou desde cedo através da televisão. Até que um dia, o encontramos como companheiro de trabalho. Isso, há 30 anos, em que nos contratou para diversos eventos. Desde o final de 2016, retomamos o contato mais estreito.

Em um mês, a Banda Ópera Show chegava a realizar de seis a dez bailes, com um público médio de 500 pessoas, às vezes mais, às vezes menos, a depender do tamanho do baile. Ou seja, a voz de João Soares chegava a ser ouvida por cerca de 12.000 pares de orelhas por mês que recebiam o tom grave de sua entonação. A sua vibração, faziam corpos de casais se movimentarem em coreografias em que imperavam boleros, sambas, cha-cha-chas, entre outros ritmos. Os que apenas permaneciam sentados, ao ouvi-lo, eram transportados para outros tempos, sentimentos e emoções. Eu mesmo, acostumado a acompanhá-lo na parte técnica, a depender da canção, ficava arrepiado com as suas interpretações.

Um dia antes dele ir para a Bahia, em 1º de novembro, o encontramos em sua casa. Ele nos chamou para tomar um café e conversarmos sobre o futuro. Anunciou que pararia com o projeto da banda, já que além da escassez de eventos, os valores que já eram baixos, haviam caído ainda mais. De certa maneira, foi um alívio para nós já que só permanecíamos a atendê-lo por sermos amigos de longa data. Seria complicado continuar como o mesmo cachê diante da defasagem econômica — insumos para a manutenção de equipamentos e transporte, alimentação, combustível e pagamento de auxiliares.

Ele Estava bem, aparentemente. Disse que gostaria de rever os familiares — painho e maínha — já idosos. Tinha orgulho da família, todos bem postos, incluindo a irmã médica. Foi a ela que recorreu por causa de uma dor persistente no abdômen há alguns meses. Realizados os exames, ela não gostou da imagem e pediu uma ressonância magnética que revelou câncer no Pâncreas, com metástase no fígado. Em um mês e meio, o quadro evoluiu até o óbito que se deu na madrugada de hoje.

O menino de Chorrochó, que veio para São Paulo buscar o seu sonho, foi vendedor ambulante, chegou aos programas de calouros da TV, gravou um disco de forró, conseguiu agregar amigos e construir uma sólida carreira na noite paulistana, com quase 50 anos de estrada, cantou para quem quisesse ouvir, encantou plateias, testemunhados por vídeos de fãs e frequentadores encantados com o seu talento. Entre eles, eu. Agora, está trilhando outra estrada, abrindo com o seu vozeirão o caminho para a eternidade.

*Texto de 20 de Dezembro de 2020, por ocasião do passamento de João Soares.

Pinceladas

Noite feita,
quase releguei ao esquecimento
a pintura da tarde…
Crepúsculo recordado,
revejo a nave que não sei se chegava ou partia…
Pinceladas compostas de água e luz
pontuavam o fundo da paisagem ao oeste.
Poeta do poente,
sei que apenas o amor
é combustível poderoso o suficiente
para fazer voar
o mais pesado que o ar…