Notas Sobre Violência e Morte (2016)

Brasil registra o maior número de assassinatos da história em 2016; 7 pessoas foram mortas por hora no país…

Tenho postado aqui, no WordPress, meus escritos espalhados pelas redes sociais, principalmente pelo Facebook, além de textos – crônicas, contos, poemas – produzidos para a Scenarium Plural – Livros Artesanais, em livros autorais pessoais, coletivos e para a Revista Plural. Meu objetivo precípuo é o de montar um mosaico que busque definir minha trajetória como escritor. Uma tentativa de encontrar um norte, uma linha mestra que, acima de minhas convicções cambiantes, explicar para mim mesmo e, eventualmente para quem me lê, a realidade que nos cerca, pelo olhar de quem fui-sou. Talvez, por fim, identificar os caminhos pelos quais viemos a trilhar na atualidade-passado-futuro. Abaixo, mais um desses registros.

“A segunda-feira acordou duvidosa, mas logo mostrou a sua cara – fria e chuvosa. Saí para resolver problemas bancários e voltei a tempo de ouvir e ver o noticiário na TV – áudios vazados, estupros coletivos, acidentes automotivos fatais, um gorila assassinado…

Os áudios vazados demonstram mais do mesmo: o poder é buscado pelos supostos protagonistas, mas são os soldados do chamado “segundo escalão” que dão o tom da canção de cabaré que toca no antro dos nossos políticos profissionais. Nesses cabarés, que alguns também chamam de palácios, os personagens trocam de pares, enquanto as músicas interpretadas seguem o padrão do nosso sistema viciado. Ao final de cada dia, o resultado é que acabamos todos fodidos.

No episódio dos trinta e três contra uma, para além do descalabro moral da situação, a indigência de nossa sociedade se mostra em todas as suas piores facetas, do alarde dirigido pelos interesses de quem denuncia a “cultura do estupro” até as opiniões daqueles que desconfiam da história mal contada… Existiu um estrupo coletivo, como devem ocorrer vários iguais frequentemente, mesmo que não nessa dimensão, mas a desconfiança dos detalhes em torno do fato denuncia que o problema é bem mais amplo do que aparenta ser. Desconfiamos de tudo.

Esse não é apenas um processo que vem de cima para baixo, como igualmente no sentido contrário, que se espraia desde os atos mais comezinhos do cotidiano até as grandes negociatas. Somente quando encararmos o fato de que temos uma cultura da corrupção, poderemos enfrentar o problema em todas as frentes. A questão é estrutural. Há possibilidade de haja realmente uma cultura voltada para violentar as mulheres? Sim, há! Como também há uma cultura compartilhada para humilhar os homens, menosprezar os velhos, aviltar as crianças e usar a todos nós como massa de manobra econômica, ideológica, mental e espiritual.

Mais um acidente automobilístico matou alguém mais conhecido – um cantor sertanejo. Na edição do noticiário, vincularam o seu nome ao de outro, mais afamado, numa tentativa canhestra de reacender a comoção popular em torno do evento. Contudo, no final de semana prolongado, outro acidente, na Bahia, matou uma família inteira – pai, mãe e quatro filhos. Em uma tentativa de assalto, em São Paulo, com uma pedra atirada contra o vidro do carro por um grupo de bandidos de beira de estrada (como os que existiam na Idade Média europeia), um adolescente que iria visitar a família foi morto quase imediatamente. Ganharam pouco espaço, porque sentimos que tudo é tão prosaico, tão linear… Mais um indício de que estamos doentes.

Todavia, como a contrapor às más notícias brasileiras, chegou outra bem triste, vinda via satélite dos Estados Unidos, sucedida em circunstâncias limites. Para defender a vida de uma criança que caiu no fosso de um zoológico de Ohio, atiraram para matar o velho gorila, que parecia apenas querer guardá-la dos olhares alheios. As discussões em que se contrapunha a dúvida se deveriam ser usados dardos tranquilizantes na ação e a acusação feita à mãe do menino de estar desatenta no momento em que ele ultrapassou o gradil de proteção, são apenas circunstâncias subjacentes em relação à realidade de que nós retiramos um parente do ser humano do seu habitat e o gradeamos em um espaço exíguo, a cobrar ingressos para vê-lo, sem liberdade e acuado. A maior tristeza se dá porque não protegemos o nosso irmão em seu próprio ambiente natural. Na verdade, o estamos deixando sem um lugar para viver, caso voltasse. Cercá-lo em fossas e grades seria uma maneira de protegê-lo de nós… até decidirmos matá-lo.”

Normalidades

Normalidades 5
João Pedro, George e Miguel

Seria falta de empatia ̶ alienação ̶ pouco valor à vida?
Ou algo pior?
Seria esquizofrenia ̶ negação operacional ̶ realidade partida?
Ou algo pior ainda?
Aproveitar a pandemia ̶ virtual genocídio ̶ eugenia?
Eliminar os velhos pensionistas ̶ Seus Juquinhas, Donas Marias?
Mortandade como projeto de governo ̶ equalização de perdas econômicas?
Nosso País a viver o drama do fascismo redivivo ̶ teorias de raças hegemônicas ̶
tiros às dezenas a metralharem jovens pobres e pretos ̶ Joões Pedros ̶
invasão de casas em comunidades, como se fora guetos?
Antes, talvez fosse uma simples operação policial boçal,
mas não ̶ faz parte de um sistema antigo ̶ racismo estrutural.
O mesmo que fez por destino-desdém a branca mão ̶
empurrar o corpo do anjo Miguel do alto até o chão…
No Norte da América, Floyd chama pela mãe ̶ última palavra a dizer…
Sem poder respirar, o homem clama por ar ̶ último desejo antes de morrer…
Talvez se sentisse um rei branco aquele que pressiona, ajoelhado,
o pescoço do homem preto subjugado…
Branca mão no bolso, olhos frios, alheio aos pedidos do entorno, conta mentalmente
o tempo que resta da energia que se esvai do gigante.
Uma morte entre tantas mortes ̶ brutalidade exposta ̶ silenciosamente
a melhor parte de nossa humanidade é atacada na nossa frente.
Devemos erradicar as doenças ̶ aquelas que nos mata em conjunto.
Bem como aquelas que nos mata por dentro, dia-a-dia, miseravelmente.
Afastar de nossa convivência aquele que diz não ser coveiro,
mas negocia armas e meios para produzir defuntos.
Devemos nos precaver das enfermidades sistêmicas ̶ combater os males da alma.
Buscar o caminho correto, andar pela claridade do saber e do discernimento.
Sabemos que a morte ̶ fato da vida ̶ é causa perdida, inevitável…
Viver com medo e precariedade, por imobilismo governamental,
sem ter como nos defender do sofrimento por descaso ativo ̶ intencional ̶
é imperdoável.

Mã*

Mã

Mamães, eu desejo a todas vocês um dia em que possam usufruir do amor de seus filhos, estejam por perto ou distantes, fisicamente, o que não talvez não importe tanto, principalmente porque mães e filhos apresentam uma conexão umbilical, literal, durante a gestação, e espiritual, sempre.
Não conheço nenhum vínculo tão íntimo quanto o de uma mãe e seu filho. De certa forma, para confessar um sentimento menor, eu invejo esse poder incrível que vocês, mulheres, detêm. Quando as minhas filhas reclamaram por não ter o dia exclusivamente voltado para homenagearem a Tânia, brinquei que elas só eram suas filhas porque um dia eu decidira ser pai e formar família. Foi apenas uma tentativa canhestra para caber nesse amplo sentimento de gratidão e benção.
Porém, sempre haverá um porém, essa ligação natural também passa por ser construída e, portanto, pode ser destruída quando emoções efervescentes vêm a tona, conflitando os relacionamentos bastante fortes entre dois seres que se amam, mesmo quando não querem admitir.
Afora isso, os filhos têm dificuldade em aceitar que as mães sejam, também, mulheres, que carregam sonhos pessoais que fogem da alçada circunscrita a eles, seus filhos. Segundo essa postura, mães separadas de seus pais não poderiam ter desejos, não deveriam querer arranjar namorados, não precisariam de outra pessoa ocupando os seus pensamentos ou ter idéias que não sejam voltadas exclusivamente para eles. Onde já se viu?
Se ela vier a conseguir vencer as resistências, tenderá buscar para si alguém que igualmente pareça ser um bom pai, uma concessão ao fato de ser mãe, além de mulher. Por tudo isso e por muito mais, ser mãe é sofrer com todas as contradições, por ser a maior, por ser a melhor, por ser a total, por ser a absoluta definição do amor!
*Texto e foto de 2015

Cor De Maravilha

Maravilha

A roupa macia-suave ao toque de minhas mãos, transformou-se em uma lembrança-cor. Não sei que nome se dá a ela, hoje – rosa choque, pink ou alguma outra derivação. Para mim, desde que eu era novinho e gostava de desenhar, a conhecia “como cor de maravilha”.

Eu a usava apenas para dar um toque diferenciado a uma cena, como as recorrentes tardes de outono ensolaradas a se porem entre as montanhas que desenhava… bem parecidas às fotos que os crepúsculos produzem atualmente de onde os observo. Na época, subia na laje para isso. Parece que mantenho alguns vícios juvenis dos quais não me livrei.

A minha mãe, com muito esforço, por achar que tivesse aptidão para o desenho, comprou uma caixa de lápis de 24 cores da Faber Castell. Era uma caixa dobrável, em que as cores eram numeradas e nomeadas. Um requinte. Eu a mantinha como um tesouro. O lápis cor de maravilha era a que menos usava. Preciosa e rara.

Quando escrever se tornou muito mais importante do que desenhar, por volta dos 12 anos, deixei a caixa de lado, para decepção da Dona Madalena. Como lembrança, eu a mantive guardada intacta até minhas filhas começarem a brincar de desenhar. Achei que deveria dar a caixa a elas como se fosse um rito de passagem. Talvez as cores tenham durado alguns meses todas juntas. Sabe-se que, rebeldes, muitos delas preferem ganhar o mundo e voltarem a colorir as cenas do nosso passado. Volta e meia, ressurgem em todo o seu fresco esplendor…

Maravilha 1

BEDA / Scenarium / A Pizza E A Forma

Pizza

Em Quarentena, estando isolado na casa da praia, não tenho horários específicos para as refeições. Quase dez horas da noite, decido fazer pizza. Saio, compro os ingredientes necessários e, ao revirar o armário em busca da fôrma, encontro a máquina do tempo, ainda que incompleta, sem as presilhas. Nela, produzo uma boa pizza de atum e cebola com molho de tomate.

A minha mãe adorava novidades em apetrechos para o lar. Logo que foi lançada, Dona Madalena adquiriu uma fôrma que poderia assar pizzas utilizando as bocas do fogão. Economizava o uso do forno, em tempos de escassez, além ser mais prática e rápida. O segredo era saber dosar o volume do fogo para que não queimasse. E foi através daquele utensílio que voltei para mais de quarenta anos antes no tempo.

Vários instrumentos caseiros usados em décadas anteriores vieram para a casa da praia. Volta e meia, me deparo com pratos, xícaras, louças, copos e talheres antigos, além de vários outras coisas-mecanismos que me fazem voltar ao passado. Quase imediatamente, despontam visões da minha mãe a manipulá-los, como se fossem videoaulas de utilidades domésticas.

A pizza ficou boa. Sei fazê-las – as pizzas – assim como outras comidinhas, de maneira que minhas filhas voltam sempre a pedi-las. Nunca busquei aprender anotando ou medindo dosagens de ingredientes. Simplesmente comecei a reproduzi-las quase magicamente. Feijão, arroz, sopas, misturas variadas e outros componentes de refeições ou lanches se materializam concluídas e saborosas. O segredo – eu era ajudante de cozinha de minha mãe. Acho que, ainda que não estivesse atento, a repetição cotidiana foi apreendida de algum modo.

Talvez seja isso ou mamãe se apossa de minhas mãos e por elas revive o prazer de cozinhar para aqueles que ama. O ingrediente secreto, porém, é evidente – aquele que torna os alimentos mais simples em experiências tão saborosamente dolorosas, na verdade, uma junção rica de saudade e amor.

Beda Scenarium