“Queria ver se chegava por extenso, ao contrário” (Helder)
terça inóspita tanto quanto terços farisaicos que milhões usam em milhões de rezas ruídos que mal chegam aos próprios corações que os entoam deu-me ultimamente de amaldiçoar a cruz instrumento de tortura e maldição como podem lhe chamar de santa? por analogia não seria abençoar a baioneta que mata o chicote que transforma a carne em tiras? a arma de fogo que executa vários em imersão de ódio? santa pedra que apedreja santa faca que faz sangrar? enquanto chove mais uma tarde me pergunto quem é santificado em vosso nome? é o homem de bem que elogia a tortura? que se pretende anunciador de um novo evangelho: matai-vos uns aos outros? que renega oxigênio envasilhado ou o produzido pelas árvores? que racha com amigos o dinheiro público? que santifica aos filhos e defenestra o país? que sequestrou a bandeira limpou o amarelo trucidou o verde toldou o azul sujou o branco? aquele que amplificou o mal desentendeu o bem que este ano se desfaça por extenso que se desentensifique em intenção e ação que seja abençoado ao contrário que seja anulado da história.
“Aprendi com as palavras o que eu não consegui com as asas: voar!”, por Suzana Martins, em (In)Versus
Quando adolescente, fã de séries de viagens espaciais, ficava intrigado com as que eram realizadas num átimo como em Jornadas Nas Estrelas, através das “dobras espaciais”. O veículo através da qual a comunidade múltipla-humana viajava o Espaço – a fronteira final – era a nave estelar Enterprise, “em sua missão para explorar novos mundos”. O contato com seres humanoides, de formas físicas diferenciadas dos Homo sapiens, com adaptações adequadas aos seus ambientes originais, propunha uma interação possível entre as várias raças e conformações.
Um mandamento que foi colocado de forma clara era o de não intervenção direta no desenvolvimento das civilizações originais dos planetas visitados. Mas, como não iria deixar de acontecer, o Capitão Kirk, o comandante da missão, era um humano que infringia as normas frequentemente, tendo em contraponto Mister Spock, cujo planeta carrega a racionalidade como característica principal, se opunha quase sempre às aventureiras opiniões de seu capitão, sendo ele o segundo em comando. O interessante é que o homem de Vulcano trabalhava a razão num contexto em que tudo inspirava a imaginação. Diante de muitas novas descobertas, o sábio ser desferia a expressão: “fascinante!”.
Para mim, o planeta ao qual me foi dado a explorar é este no qual vivemos. Por ter um olhar de estranhamento quanto a praticamente tudo que me cerca, me pego acordado a sonhar. Ou a sonhar acordado. Quando pequeno, voava sobre as casas do meu bairro, fazendo rasantes junto aos morros em que a vegetação verde ainda imperava. Lembro que percorria ruas que não conhecia ainda, a frente ou abaixo da qual morava. Confirmando depois seus caminhos. Deem o desconto de que a minha memória não é confiável. Mas quando menino cria que fosse assim. Ainda assim, percebi que a forma mais rápida de viajar era o pensamento.
As minhas asas eram invisíveis (para os outros) ou eu as mantinha escondidas para não parecer mais estranho ainda aos olhos dos outros. Através das palavras as materializava. Quando me perguntavam de onde surgiam tantas ideias para escrever não poderia dizer que armava as minhas asas para visitar as diversas realidades. Para parafinar minhas penas, lia bastante. Tudo me interessava. Nunca se sabia onde encontraria os melhores temas para desenvolver novas histórias. Essas construções buscavam reproduzir mundos ideais. A maldade humana era sempre suplantada. O Bem, poderoso, ao final vencia o Mal.
Enquanto isso, lá fora, onde eu não voava; onde os homens conseguiam vencer trapaceando; onde as mulheres choravam por seus filhos mortos; onde as botas pisavam sobre as cabeças dos subjugados; onde a Polícia matava pela ação dos esquadrões da morte (motivo de temor constante na Periferia); onde meu pai se ausentava; onde eu apanhava da Turma do Louquinho; onde a minha única alegria era jogar bola, apesar da miopia que crescia – eu me sentia Ícaro, em voo cego rumo ao abismo.
“E mil orações aos céus para a vida apagar de uma vez”, por Flávia Côrtes, As Estações
ativistas golpistas interditam rodovia impedem que um garoto faça cirurgia que evitará que fique cego que fique disseram um adolescente invade escola mata professores duas alunas fere gravemente muitos com arma de fogo símbolo de liberdade segundo estultos jogador brasileiro se machuca gravemente comemoram não é um bom sujeito o bom atleta festejemos oram para magoar clamam para que sofram os que lhe são diferentes para os que passam fome estão ao relento são indiferentes há um apagão de solidariedade entre iguais são iguais em malquereres os que têm prazer na dor invadem os ambientes insalubres das pessoas de bens porque são seus e de mais ninguém porque são eleitos têm méritos são perfeitos com seus dentes implantados bustos siliconados cílios alongados bocas infladas de palavras mal faladas malfadadas mal que graça feito rastilho de pólvora incêndio em mato seco água tempestuosa em morro abaixo arrastando casas gentes se esmeram em tornar pior o que é sordidez que se ergam mil orações aos céus para a vida apagar de uma vez…
Quem inveja, poderá até reconhecer o seu sentimento e buscar diminuí-lo ou até eliminá-lo. Mas, pelo que eu vejo acontecer, é algo que se instala na pessoa de forma autônoma, como se fora uma doença – um câncer com metástase. E a consome pouco a pouco, resultando em estágios crescentes de angústia e pesar, como se morresse um ente querido a cada dia. Como escreveu Lua Souza, em Estratosférica: “Diferente da maçã envenenada… a dor incurável da inveja mata a prazo”.
Eu (graças a Deus?), não sofro desse mal. Admiro quem consegue realizar certas proezas em variadas áreas de atuação, mas curioso que sou de meu próprio percurso, não trocaria a minha vida pela de outra pessoa, por mais talentosa que seja. Gosto de certos autores, como Machado, cujo estilo elegi como marca do meu, apesar do anacronismo. Sem a maestria na construção de personagens, obviamente. Aos poucos, fui desenvolvendo outras características que tinham como base a escrita do Bruxo do Cosme Velho, porém a admiração pelo viés de fundo psicológico continuou intacto. A admiração gosta de preservar a fonte original acima de quaisquer maledicências, porém a invejoso parece querer aniquilar quem é o objeto de sua origem.
O mais certo é que a inveja mata o hospedeiro lentamente, como se o veneno da emulação insidiosa em vez de atingir o invejado, faz apodrecer dolorosamente quem o experimenta. O invejoso pode ser perigoso, mas por menos que mereça é quem mais necessita de compaixão.
Quando presenciamos uma cena de violência individual, costumamos senti-la como pessoal. Quando ocorre uma tragédia com grande número de mortos, o caráter coletivo acaba por o torná-la sem rosto. Neste país, o óbito de quase duzentos mil seres por Covid-19 parece não sensibilizar boa parte das pessoas. Quem não ainda foi infectado ou teve alguém conhecido que tenha sido, age como se fosse um fato corriqueiro e distante em possibilidade. Nesses momentos, quem nega o mal, ganha seguidores, como se tudo representasse um fato da vida. Mas não precisava ser. Porém, para que houvesse uma mudança de parâmetro, teríamos que enfrentar nosso principal inimigo — nós mesmos, brasileiros — que acreditamos sermos predestinados ao sucesso (seja lá o que isso signifique), ainda que façamos tudo errado. Negar a Ciência, o planejamento, o conhecimento de causa, nossas contradições, é eficientemente aceito como empecilhos do bem-estar coletivo. A ignorância chega a ser vista como a uma benção concedida como um cartão de crédito sem limites. Piora tudo quando a visão ideológica serve de esteio para que compremos ideias aparentemente baratas, mas que carregam juros altíssimos. No final de tudo, ficamos devendo os olhos da cara, aqueles mesmos que não enxergam um palmo diante do nariz.
Decidi deixar de seguir um amigo porque postou a entrevista de um médico cirurgião em um programa de uma rádio que deixei ouvir depois de 50 anos porque nos últimos 3 tornou-se ponta de lança de uma visão retrógrada e alienante. No programa, o sujeito com ares professorais, garantido por títulos e experiência comprovada, tenta relativizar as mortes por Covid-19 informando que a mortandade pela doença era menor que as ocorridas pela fome, pela AIDS e outras causas. Além disso, usou números relativos para desvalidar a vacina, principalmente a chinesa, que a verificação pura e simples realizada na busca por órgãos idôneos desmentiria. O direcionamento já me pareceu direto demais para passar despercebido porque ocorreu antes de uma análise mais profunda. Ora, a Internet que desinforma, também pode jogar luz sobre perspectivas obscurecidas propositalmente. O que causa espanto e joga dúvidas sobre o quadro sanitário é que o entrevistado pertence à área da Saúde. Ou seja, é um agente infiltrado tentando desinformar com o propósito básico de confundir. Claramente atua a favor de quem pretende que tudo seja nebuloso. O mais triste que seja por razões políticas. (Nota atualizada, o referido médico acabou por falecer por complicações causadas pela SARS-COV-2).
A Covid-19 é letal. A AIDS é controlável, mas se não for não cuidada, é muito mais letal. E o número de mortos aumentará bastante no Brasil por conta de medidas tomadas pelo Governo Federal. Em notícia vinculada em 7 de dezembro, está expresso: “O Ministério da Saúde deixou vencer um contrato e suspendeu os exames de genotipagem no Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas que vivem com HIV, AIDS (a doença causada pelo vírus) e hepatites virais. O teste é essencial para definir o tratamento mais adequado para quem desenvolve resistência a algum medicamento”.
A fome mata e muito, também no Brasil. Apesar de “apenas” 2,5% da população (cerca de 5 milhões) apresentar um quadro de fome extrema, juntam-se as precárias condições sanitárias para gerar uma situação instável que proporciona um aumento exponencial de chances da queda da imunidade dessa parte da população desassistida. É como se esquecêssemos de uma parte do nosso corpo ou a considerássemos dispensável. Quando se nega que uma Pandemia como a que ocorre agora seja combatida com todas as armas disponíveis, então podemos inferir algumas teorias. A que me ocorre mais imediatamente que isso faça parte de um plano de limpeza social, haja vista a tendência ideológica deste governo alinhada à extrema-direita. É uma avaliação fora de propósito? Não foi o chefe que sonhava com a morte de 30.000 brasileiros em uma guerra civil para resolver os nossos problemas? E na campanha eleitoral propagou que era a sua especialidade matar?
Pois então, chegaremos a 200.000 mortos até o final do ano e talvez o mentor do projeto ache pouco. O que me deixa mais triste é que ele encontre quem defenda as suas diretrizes entre componentes de outras partes do corpo brasileiro. Um dia, as nossas pernas nos levarão ao abismo…
*Durante a Pandemia, escrevi vários textos que muitas vezes não publicava. Publiquei este em 21 de dezembro de 2020. Através dele, buscava demonstrar que concomitantemente à existência da doença viral, o ataque reiterado perpetrado por agentes humanos patogênicos relativiza situações que antes seriam impensáveis porque, justamente, reproduz histórias de ficção distópicas, ao espalhar informações falsas feito uma epidemia. Um péssimo exemplo de que a vida imita arte. Pessoas que vibram na mesma frequência aceitam o mal de braços abertos e tantas outras que apenas ficam expostas sem a proteção da informação de qualidade, são abatidas pelo adoecimento do raciocínio. Mas eis que procurar a publicação no WordPress, não a encontrei, apesar de tê-la divulgado pelo Facebook. Como algumas pessoas poderiam se sentir atingidas por se filiarem ao pensamento que denuncio, imaginei que pudessem tê-la denunciado, mas essa ação, segundo eu soube, não seria suficiente para que fosse obstruída pelo WordPress, mesmo porque somente exponho a realidade… bem, isso talvez já seja suficiente.