27 / 02 / 2025 / Meu Povo

“Talvez eu não consiga estar em outro lugar que São Paulo, aqui no Brasil. Por aqui, já estive em muitas cidades, mas ainda não consegui me ver vivendo fora desta loucura, principalmente em termos profissionais.

A Europa, autointitulada de Velho Mundo, alcançou a atual qualidade de vida tendo 2 mil anos a mais de História e por meio da exploração da riqueza do Novo Mundo, Ásia e África. Muitos europeus, conscientes desse fato histórico, tentam fazer um belo trabalho na área social, através de organizações não governamentais que atuam na América do Sul, África, Ásia e algures.

Na América do Norte, temos os Estados Unidos, que seriam uma exceção, por sua própria formação, em que os seus colonizadores fugiram da Inglaterra por incompatibilidade religiosa com a realeza para criar um novo país e permanecer definitivamente na terra.

Para colaborar, a religião desses colonizadores americanos preconizava que a riqueza angariada era sinal de benção divina, bem diferente dos colonizadores portugueses e espanhóis, de formação católica que pregava para seus fiéis que o reino dos céus pertencia aos pobres, enquanto a elite extraía o máximo de benefícios, para que ricos voltassem para a Metrópole nobilizados, inclusive pela compra de títulos.

Esse comportamento predatório perdura até hoje, em todos os níveis da população, de modo geral. Dê a oportunidade de um despossuído alcançar uma benesse e ele irá brigar com unhas e dentes para mantê-la, passando por cima de qualquer ética. A minha terra é linda, mas o meu povo…”.

O texto acima foi escrito num momento de amargor, muitos anos antes. Talvez há 10 ou 15 anos. Não que eu tenha mudado muito a minha ideia sobre isso, mas creio que não deva deixar de tentar mudar a realidade em nosso entorno para que as coisas não fiquem ao léu, ao gosto dos poderosos comandando um Sistema predatório. Sem essa crença, nunca construiremos um país melhor. Por fim, caso eu pudesse, me mudaria para uma cidade no Litoral, ainda que saiba que seria um dos prováveis primeiros locais a serem atingidos pela subida do nível do Mar devido à crise climática.

02 / 02 / 2025 / As Deusas Das Águas

Hoje se comemora o dia da Rainha das Águas, Yemanjá. Em Pindorama, os originários da terra tinham Yara, como Mãe d’Água. Com a chegada forçada dos escravizados africanos, Yemanjá ganhou protagonismo, mesmo porque as lendas indígenas foram sendo obliteradas pouco a pouco com o genocídio das diversas tribos. Yara estava mais vinculada aos rios, lagos e lagoas no interior do continente, o que corresponde a várias lendas em todos os continentes no mundo todo.

Uma amiga que trabalha na China, em uma das suas publicações, mostrou o monumento de Guan Yin do Mar do Sul de Sanya, de incríveis 108 metros de altura. Essa entidade é venerada na China, Coreia, Vietnã e de Japão. O traço comum entre todas essas entidades ligadas à agua é o fato de serem femininas, normalmente ligadas à geração e proteção da vida. No sincretismo religioso brasileiro, Yemanjá foi associada à Santa Maria, mãe de Jesus, em suas várias denominações.

A orixá africana incorpora vários aspectos que a tornam uma das entidades mais populares. Na Bahia, é famosa a festa que a homenageia. Essa celebração tradicional chega aos 103 anos neste 2 de fevereiro de 2025. Celebrado por uma multidão de baianos e turistas em Salvador, o Dia de Iemanjá é marcado por fé, emoção e entrega de presentes à rainha do mar. Ela se iniciou quando durante a uma escassez severa de peixes, os pescadores oraram à Yemanjá e, naquele dia, voltaram carregados de pescados. Surgiu a tradição com cada vez maior participação popular.

Na minha relação com o mar, eu a comparo como se fosse o líquido amniótico, para onde volto sempre que posso. E sinto frequentemente que há “algo de mágico” nessa relação. Como se estivesse em meu elemento, brinco com as ondas e me torno um com as águas. Ciente que somos muito mais água do que qualquer outro elemento, me junto à bilhões de seres humanos que já caminharam pela Terra.

09 / 01 / 2025 / Mares E Marés

Eu gosto de ir ao mar. No confronto com as ondas, volto à infância. Me revisto de quase nenhuma vestimenta. Vibro com o vento as suas fragrâncias sopradas e sons sugeridos por arvoredos de folhas farfalhadas ao sabor. Mas percebo que são visões do passado, quando menino caminhava pelas ruas de areia, terrenos tomados por mangues e casa de madeira. Se houve uma época em que tive uma convivência mais leve com meu pai foi então… Talvez seja por isso que vivo a retornar para esse oásis no meio do deserto da minha juventude.

Sobre Navegar E Amar

Eu quero ser lido,

mas jamais decifrado…

Eu quero ser saboreado,

mas nunca perder o gosto…

Eu quero ser rio manso para ser navegado

e mar revolto que afunda embarcações…

Quando me mostrar indômito,

buscarei a comunhão…

Quando estiver sereno,

quero causar perturbação

dos sentidos e dos sentimentos…

Quero ser seu e emancipado de mim,

quando estiver consigo…

Barco jamais ancorado,

conduzir e ser conduzido…

Navegar e amar…

Foto por Mikhail Nilov em Pexels.com