30 / 11 / 2025 / Blogvember / Desci As Escadas Do Dia

… tentei buscar um pouco de refrigério para a minha dor…
tantas vezes me vejo magoado por ser como sou
queria infringir minhas próprias regras
matar a imagem que fazem de mim e que assumi como se fosse eu
mas estou preso à minha própria mentira
de tal maneira que não saberia viver sem ela a me dar suporte
como se reconhecesse o meu fracasso em não ser aquele que me reconhecessem
aquele que não sou que sou
desalentado
recebo a luz que se esvai por trás do horizonte na esperança
de me deitar e sonhar comigo não sendo…
amanhã…

Participação: Lunna Guedes

1º / 04 / 2025 / BEDA / Inteligências & Mentiras

Há muita controvérsia a respeito da Inteligência como algo mensurável — usam-se métodos para identificar pessoas mais e menos inteligentes através de testes como Q.I., por exemplo. Pelas experiências comportamentais percebeu-se que ser “inteligente” não era suficiente para desenvolver relações saudáveis de convivência. Começou-se falar sobre Inteligência Emocional, que seria a aptidão de alguém que mesmo sem ser capaz de solucionar problemas intricados, consegue lidar com situações complexas no contexto social. Assim como a Inteligência Prática, que se dá quando as pessoas conseguem ter habilidades que as qualificam para a realização de tarefas cotidianas pertinentes.

Quaisquer dessas Inteligências podem ser desenvolvidas através de estudo aplicado e/ou treinamento, supostamente. Requerem condições básicas como um bom ambiente (equilibrado) de aprendizado, aplicação, força de vontade para estudar para que um ser humano alcance alguma excelência. Porém, com o advento da Inteligência Artificial, encontramos a situação inédita de que um processador de dados produzidos por seres humanos que mimetizam o seu comportamento em respostas dadas quando consultados. Não é difícil acontecer de haver desenvolvimento de um vínculo emocional entre a pessoa que utiliza a I.A. e o aplicativo. Até é difícil deixar de “humanizarmos” algoritmos e sequências de signos estimulados por nós a responder sobre nossas demandas.

Quando encontramos aparelhos como Alexa que “conversa” com seu interlocutor, tendemos a estabelecer parâmetros de afeição com algo tão presente como seria um amigo em momentos de solidão. Em “Ela”, de 2013, a personagem Theodore, um escritor solitário, leva ao patamar de envolvimento amoroso a sua relação com o sistema operacional, sendo “virtualmente” correspondido. A afetividade entre as pessoas parece estar se aproximando de uma zona cinzenta em que a desconfiança, a insinceridade, a precariedade da verdade como baliza dos relacionamentos, em que as emoções são distorcidas, os sentimentos são extremados e as paixões são doentias.

Correu o Mundo que a A.I. do X, ao ser questionado sobre o principal divulgador de “desinformações” — eufemismo para “mentira” — ao que Grok respondeu que o seu criador, Elon Musk, é o maior “mentiroso” do X, através de aferições de seus seguidores. O que talvez possa até ser uma espécie de “boa propaganda” de sua capacidade de isenção. Para aquele que foi acusado será mais uma chance de ganhar muito dinheiro. A sua exponencial inteligência para operar dentro do Sistema que é, basicamente, a utilização de todas as ferramentas possíveis para o enriquecimento de quem o manipula, o torna admirado por quem reza por essa cartilha opressiva.

Aliás, a sentença de Goebbels de que “uma mentira dita mil vezes se torna uma verdade” acaba por ser a norma do comportamento de muitas pessoas através da facilidade de conexão ao mundo virtual, acessado por qualquer um que esteja conectado à imensa rede da Internet. Versões de muitas verdades tornam a apreensão da realidade um tanto fugidia por boa parte das pessoas que, de certa maneira, já carregam convicções que assemelham ao àquela falsidade. Adotando aquela verdade, que já faz parte de sua compreensão de mundo, ainda que não tenham provas óbvias.

15 / 03 / 2025 / Moema*

Ao ver o Sol se por em Moema — estava num ponto mais alto — atravessei o meu olhar através dos prédios, casas baixas, árvores, colinas, vales e rios para cada vez mais fundo no Tempo. Moema tem origem no Tupi moeemo, calcado no gerúndio, que quer dizer “adoçando”. Transformado para o feminino, significa “aquela que está adoçando”. O nome foi criado pelo Frei de Santa Rita Durão, para um personagem do seu famoso poema “Caramuru”, que conta a história do náufrago português Diogo Álvares Correia, na época em que viveu entre os índios Tupinambás. Por alguns instantes, voltei a eles. Inocente do destino do meu povo que morrerá-morre-morreu. Outra versão sobre o significado de Moema é “mentira”… 

*Texto de 2020.

07 / 03 / 2025 / O Astronauta E A Lunar

Neste registro, temos o Astronauta e a Lunar, entre outras duas pessoas que o trabalho conjunto, pela Scenarium propiciou que a arte da escrita fosse impulsionada de forma a constituir uma plataforma da qual sou fã pelo seu caráter artesanal. Nessa ocasião, em 2017, foi lançada REALidade, meu primeiro livro de crônicas, do qual extraí o texto que fala sobre esse encontro que modificou a minha trajetória pessoal, assim como a de outros escritores.

“Cartesiano, o rapaz estava sempre a analisar todos os seus passos… a medir as consequências de seus atos. Chancelar sob a égide dos números os resultados buscados.

Construtor de sua própria vida, a sua base era o chão… a partir do solo, vinha estruturar os seus projetos, fazer as sólidas fundações sobre as quais viria a erguer seus prédios, barragens e vias de trânsito.

Constituiu família, organizou caminhos, fundou relações, espaçou contatos. Gostava de gente — mas, talvez, por serem humanas demais… as considerasse irregulares componentes de seus projetos, aceitando-as por fazerem parte da equação da existência — dados sem os quais os problemas não existiriam, porém, não seriam solucionados. E, como gostava igualmente de desafios…

Positivamente, a moça era nefelibata. Alguns a sabiam lunar ou vinda de alguma outra parte… que não a Terra. E, por isso, vivia em conflito com os habitantes do lugar onde caiu, em uma fatídica noite de chuva de meteoros. Dos seus, foi a única que chegou de seu lar de origem. Poderia jogar tudo para o alto… contudo, buscou entender aquele povo estranho — sendo, para eles, igualmente estranha.

Nada como ouvir suas histórias… o que era perfeito, já que ouviria tudo do ponto de vista de alguém de fora — a forasteira.

Conheceu a generosidade entre os gentios humanos. Propôs-se salvar-se ao salvá-los, principalmente aos que se sentissem, da mesma forma, deslocados em seu próprio planeta. Nada melhor que fosse pela palavra, pelo verbo. Para tornar tudo mais grandemente complicado, se viu jogada em novas paragens, plagas ainda indomadas, quase civilizadas, mas nem tanto… nova língua, novas dores, quase recebidas com alegria.

A estrangeira era excêntrica mesmo — adquiria novas receitas de como sofrer… porque sabia que nada a atingiria como um dia já havia atingido a dor maior.

Ser ‘Sim’ é uma atitude de alma. Há tanta gente ‘Não’, que o mundo não consegue desvendar os seus mistérios sem caminhar por trilhas tortuosas, becos escuros, pisos esburacados, céus velados, visão nebulosa…

Os do ‘Sim’ e os dos ‘Não’ habitam o mesmo ambiente, respiram o mesmo ar, bebem da mesma água, mas não comungam vivências.

Foi pelo ‘Sim’ que Yoko conquistou John, que o homem subiu aos picos do Himalaia, um negro governou um País que o viu nascer segregado, o Astronauta fez o seu Marco na Lua.

Assim, um dia, o Cartesiano encontrou a Nefelibata… a revolução demorou a se dar. Começou com olhares de admiração a se sobreporem aos de estranhamento, porque perceberam que havia terra firme onde podiam pisar os pés, no meio pantanoso da convivência social em que estavam.

Vivências diversas, anacronismo em suas repercussões pessoais… de facto, o fato se estabeleceu — perceberam que gostavam um do outro.

Depois de tantos dissabores, de desencontros em suas histórias, o ‘Sim’ se fez presente. É tão penoso ser o ‘Não’ de alguém que, quando o inverso acontece, devemos festejar o acontecimento… mesmo que isso contrarie aqueles que creem que as regras devam ser cumpridas, ainda que contra a felicidade de quem quer apenas amar.

O rapaz, de tão jovial, até parece um “Bambino”, apesar de o mundo ter dado mais de vinte mil voltas sobre si mesmo, desde que chorou pela primeira vez.

A lunar presença dela parece não querer revelar a sua origem, o seu ser, a sua cronologia…

A depender da luz, o seu olhar é de criança que não cresceu, ou de uma maestrina atemporal. Os dois criaram um projeto de vida, a dar vida ao papel — alquimia moderna — a valorizar a imaginação, a expressão, o ‘Sim’.

Os seus filhos são gestados por aqueles com quem eles aceitaram compartilhar a visão que espelha o poder dos que adotam o ‘Sim’ como profissão de vida e coragem de Ser. E sou um deles.

Esta história é idealizada. Tanto pode ser real quanto fictícia. O mais belo de escrever é que arranhamos a verdade quando mentimos, e revelamos a verdade quando criamos o fictício. Quem quiser que acredite nas mentiras ou negue as verdades, que são feitas da mesma matéria que todos nós”.

Querido Marco , sentiremos saudade…

BEDA / Fernanda Young*

Em 2019* escrevi: “Precisamos sempre confirmar a beleza, mesmo que haja momentos que não a toquemos. Como o crepúsculo de hoje, após dias nublados, ainda que nos faça lembrar que nosso país esteja a arder em chamas. Para Fernanda Young.”

Parece que após os eventos inaugurados um ano antes, em que por uma série sortilégios e atividades subterrâneas ligadas às instituições comandadas por asseclas, ascendeu um movimento que jazia no esgoto da Sociedade brasileira e que eclodiu feito vulcão de dejetos ideológicos, vindos diretamente de nossa tradição de País a ser o último a declarar o fim da Escravidão, oficialmente.

Formas de aprisionar parte da população continuam em atividade e quaisquer iniciativas que visam desmontar o sistema escravista — agora mantido através de baixos salários — são atacados por todos os lados, incluindo setores supostamente independentes, em tese, como a imprensa “oficial”. Para os que escapam do que seja correto, restaria a prisão, mas ela é utilizada para encarcerar a população mais diretamente afetada pelo Sistema.

Na época do enunciado acima, a notícia do passamento de Fernanda Young me deixou um tanto abalado, aliado ao fato de estar cada vez mais surpreso ao perceber o quanto boa parte de nossa população tinha abraçado ideias tão antiquadas que deixariam George Orwell estupefato por ver as suas previsões serem demonstradas, ao estilo de 1984, de forma tão canhestra. Pessoas como Young, sensíveis, inteligentes, antenadas, sofreram muito durante o tempo que o Ignominioso Miliciano percorreu a vida brasileira com as suas ações de cunho fascista.

Mas a sua presença em liberdade continuou a estimular a propagação da ignorância como algo a ser elevada à condição de predicado a ser comemorado. E então, seguidores dessa tática de desmonte da sanidade como linguagem atraente para tantos, com a mentira como mantra comandante das estratégias de suporte, mais novos e preparados para atender às expectativas daqueles que preferem “tiro, porrada e bomba” em vez de argumentos cabíveis para a intermediação de conflitos, se sobressaem. Temos percebido esse fenômeno acontecer ao observar os novos candidatos às próximas eleições municipais de 2024.

Fernanda Young não merecia ver o que aconteceu após o dia 25 de Agosto de 2019, dia de sua partida. Talvez tenha sido o único benefício de vermos uma das vozes mais incisivas da nossa geração nos deixar órfãos de seu talento.