17 / 12 / 2025 / A Lesma

Eu sou daqueles que busca o outro lado da vida. Estou sempre olhando pela janela lateral do meu quarto de dormir. Costumo encontrar alternativas ao que as pessoas decretam como fato. Vejo todos os bichos como seres companheiros de jornada e graças a isso, já conversei com um marimbondo moribundo. Ele disse que era Deus. Aliás, não somos todos nós? Eu não mato pernilongos ou batatas. Sei que camundongos são mau afamados por nossa criminosa atuação de ataque ao meio ambiente e sabendo de sua inteligência e sociabilidade, compreendo porque Walt Disney utilizou um como personagem de seu primeiro desenho. Mas as lesmas nunca foram objeto de minha atenção, até que comecei a encontrá-las em vários pontos do quintal e até dentro de casa.

Pesquisei e encontrei as seguintes informações: “Lesmas são atraídas por umidade excessiva, ambientes escuros e frescos, restos de alimentos orgânicos (como vegetais e frutas) e fácil acesso através de frestas, ralos e janelas mal vedadas, especialmente em épocas chuvosas, buscando abrigo e alimento dentro de casas. Elas entram em cozinhas, banheiros e porões, sendo chamadas por vazamentos, acúmulo de lixo e plantas que trazem do jardim”. 

Eu as tenho recolhido de dentro de casa e as colocando no jardim. Fico fascinado com a capacidade de contração ao serem retiradas com todo o cuidado por um papel e as respostas físicas rápidas com a retomada da forma de seus corpos anteriores. Feito criança, fico fascinado pela simplicidade das soluções naturais que no entanto sei ser resultado de milhares/milhões de anos de evolução, que demonstra que nada é ao acaso. Mas que tem um quê de milagre natural.

BEDA / Amor & Ser

Ah, o milagre do amor…

Eu, desde muito cedo, me acostumei a separar Amor de amor. Amor designaria aquele gerado sem segundas intenções, puro e autônomo, existente mesmo sem ser correspondido, mesmo porque é generalizante. O de fundo “romântico”, baseado no afeto mútuo, vive no raso das emoções, mais “fácil” de ser correspondido, assim como descartado. Origina-se na simpatia e expresso de maneira menos elaborada. Normalmente pede envolvimento físico, mas pode se colocar numa condição superior através da convivência. Também comecei distinguir Ser de ser, em que o primeiro significaria alcançar a plena capacidade de existir, Sendo. Neste caso, “ser” representaria a situação transitória da existência.

Quando falo do milagre do Amor, deve-se ao esforço que devemos fazer para ultrapassar as muitas barreiras que muitas vezes erguemos para conseguirmos desenvolver tamanha empatia a ponto de vir proporcionar sentimentos mais elevados. Para dificultar, entra em jogo as diferenças inerentes à nossa presença no mundo – que mais separam do que unem as pessoas. Muitas vezes, para darmos vazão ao amor que nos move intimamente, desenvolvemos relações mais profundas com outros seres que não os humanos. 

No amor romântico, assumimos formas relacionais que geram emoções alteradas, aflitivas, geradoras de conflitos entre as partes correspondentes. O sistema sob o qual a Sociedade se desenvolveu impede que seja diferente. É comum que não progridam, a não ser que o relacionamento seja reinventado de comum acordo. É algo que tem ganhado maior número de adeptos abandonar os arranjos tradicionais, buscando novos feitios que muitas vezes incorporam mais do que dois componentes no convívio mútuo. No entanto, dado ao aumento da violência entre os casais, principalmente do homem contra a mulher, têm-se desejado evitar uniões tradicionais, prioritariamente por elas.

Esforço maior ainda é saber o que seja esse tal de amor romântico. Aliás, sei. Que se resume em não saber de si. Acho que esse amor tem o papel de nos perdermos. Descobrirmos as nossas fraquezas, abaixarmos as nossas defesas, sofrermos os ataques do “inimigo”, nos rendermos ao sentimento. Poderia se dizer que não precisaria ser assim. Concordo, mas a intensidade tem tanto a nos ensinar. Sem ela, não vale a pena vivê-lo. Não amarmos com todo o ardor, nos desmontarmos, é um bem-vindo exercício de humildade. Podemos vir a morrer. Mas tenho por mim que renascemos melhores.

Muito recentemente, percebi que para Amar ao próximo como a nós mesmos, recomendado por um grande Avatar como mandamento precípuo, nos Amarmos é fundamental. Não pode haver correspondência sem que nos aceitemos com todas as nossas falhas. Sabermos que Somos, ainda que imperfeitos neste instante que são as nossas momentâneas vidas terrenas. Enfim, amar, apesar de tudo, é uma introdução a um movimento que abarca um sentido bem mais complexo, superior… enquanto não alcançamos o Amor.

Foto por lil artsy em Pexels.com

Texto participante do BEDA: Blog Every Day August

Roseli Peixoto / Claudia Leonardi / Bob F / Lunna Guedes / Suzana Martins / Mariana Gouveia