As Dores Do Mundo*

DORES

Sobre o dia de hoje, 1º de março de 2019 – marcado pela morte por meningite, de Arthur Araújo Lula da Silva, neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que dividiu, acima das ideologias, as pessoas de boa das de má índole, as cordatas das insensatas. Sinto vergonha dos manipuladores de qualquer lado. O texto a seguir é de 2015*.

“Hoje, acordei parecendo sentir todas as dores do mundo –– as veras e as imaginadas, as graves e as leves, as minhas e as alheias. Passei a manhã recolhendo pelo caminho todos os vexames e as humilhações, as penas e as cenas.

Acordei sentindo a dor do homem que sai sem se despedir da mulher que ama porque ela está em outra cama; a dor de ouvir no noticiário matutino criminosos discursando em nome de cidadãos probos; a dor de caminhar até o ponto de ônibus na expectativa de embarcar no cargueiro de carnes no horário exato; a dor de ver o pai do menino especial que deseja ver o seu filho viver a vida escolar normal, enquanto outras crianças não querem acordar para ir à escola ou, muitas vezes, sequer querem acordar… nunca mais…

Hoje, acordei sentindo a dor de me ver dormindo sob a marquise, cercando a minha intimidade sonolenta por velhos guarda-chuvas, momentaneamente improvisados como paredes do meu quarto; a angústia do cão que passa o dia aguardando a volta de meu humano de estimação que saiu para trabalhar; a amargor dos familiares do homem que saiu para trabalhar para não mais voltar; o martírio do garoto tímido que esperava ver a amada passar, atrasando a sua chegada várias vezes no emprego –– que perderá; a aflição da garota que sabe que o garoto a deseja, mas não revela que aprecia o seu desejo; a inadequação do velho no Metrô que ouve pacientemente as asneiras da moça bem mais nova, a desfiar o seu corolário de dores fátuas, apenas para não se sentir só.

Hoje, acordei sentindo a dor da bela moça que tem todos os sonhos do mundo, mas que não consegue levá-los adiante porque o seu fôlego, que se escasseia, a impedirá. A dor da vida que não completa seu ciclo natural –– do avô que perde o neto, da mãe que perde o filho. Hoje, acordei sentindo que poderia abarcar todas as dores do mundo, as veras e as imaginadas de todos nós. Humano que sou, por elas morrerei um dia…”.

BEDA| Apaixonado

APAIXONADO
Paixões de garoto…

Quando garoto, por volta dos sete ou oito anos, comecei a me apaixonar. Tornei-me um apaixonado em série. Quanto mais inacessível a menina, a moça ou a mulher, melhor. Aliás, todas eram absolutamente inalcançáveis, não apenas porque eu era um pirralho que acreditava que ninguém notava como também era portador de uma timidez atroz.

Nunca teria coragem para me aproximar de Marylin Monroe, por exemplo, e anunciar que gostava dela, se isso fosse possível… Como não aconteceu com a primeira professorinha, a Profª. Débora, sempre perfumada, com o cabelo louro arrumado e fixado a laquê; com a estranha Marília Pera, de “Uma Rosa Com Amor”; com a mulher mais bela do mundo, Tônia Carrero, de “Pigmalião 70”; com a Ingrid Berman, de “Por Quem Os Sinos Dobram?”; com a Regina Duarte, de “Véu de Noiva” ou com o amor maduro por Romy Schneider, dos filmes europeus que comecei a apreciar mais tarde.

A minha paixão também se estendia às presenças femininas próximas e contemporâneas – à Celinha dos olhos claros, do Parque Infantil; à Bete, igualmente da mesma época, que se enamorou de meu melhor amigo e para qual servia de pombo correio; à menina mais bela da minha classe no ginásio; às moças mais interessantes do colegial, para quais também reservei a minha admiração apaixonada e silente. Eu as usava como musas de versos, canções, contos e versões…

Eu me lembro que versei “Hey Jude”, dos Beatles, aos oito anos. Na verdade, como não soubesse inglês, criei uma letra para a melodia de Paul MacCartney, direcionada à uma Jude que criei em minha imaginação e por quem me apaixonei. Como me apaixonei e fiz um poema para a menina dos olhos verdes que vi num relance, ao abrir e fechar da porta do ônibus – ela, à espera, no ponto e, eu, sentado no banco de trás do coletivo.

Escrevi versos para a moça de pernas bem torneadas, que estava a esperar o carro em que eu estava passar, sentada no selim de sua bicicleta no cruzamento de uma estrada no interior. E para a mulher que percebi verter uma lágrima ao ler um livro sentada em um banco de praça.

O que eu não esperava é que, mesmo mortos o menino, o moço e o rapaz que vivenciaram essas paixões, elas estivessem tão presentes ainda hoje na memória do adulto… Poder-se-ia até dizer que os homens são mortais, mas as paixões… ah, essas, são eternas…