22 / 11 / 2025 / Blogvember / Os Telhados Estão Molhados…

… para quem tem telhado para se abrigar
porque as casas são modelos nas cabeças das crianças
mesmo as mais pobres as desenham em folhas sujas
em noites escuras à luz de velas
bruxuleantes
sendo tão pequenas acreditam em bruxas voando seus telhados
molhados
mas os monstros estão por perto
são humanos
armados de ódio e maledicência
não gostam dos desvalidos
não suportam a ideia de que tenham residência
um lugar para ficar
ainda mais perto de si
querem distância de tudo que revele a sua pequenez
seres abjetos
em suas mentes carregam dejetos
mas pela eternidade crianças continuarão a desenhar
em folhas de papel suas casas de telhados
molhados…

Participação: Lunna Guedes

14 / 07 / 2025 / Pela Janela

Pela janela observo o Passado à vista do Futuro.
Estou presente.
Mas nunca estaciono a mente no momento.
Sempre me sinto deslocado.
Quem eu imagino ser?
Aquele que passa…
Passeio pelas passarelas que atravessam vias abaixo.
Transitam monstros transcendentes
de bocas pequenas,
melhores que tantos cheios de enormes dentes.
Dementes.
Mas continuo a ver que a vida se expressa de miríades maneiras,
assim como as estrelas brilhantes,
ainda que muitas, já mortas.
É como relembrar o beijo de um amor de nossa juventude.
Que se foi…
Pela janela, a transparência é opaca…
Minha alma se sente oca.
Mas plena de vazios, carrega possibilidades de ser…
Que seja o que acontecer…

Registro fotográfico de 2018. Arquivo pessoal.


A Camisola

o descaso distancia as pessoas como se vivessem
em mundos diferentes
não quero que esse descaso me abrace
a ponto de viver longe de mim
quantas vezes não me surpreendo em me rever
diferente do que imagino ser?
se eu perdoo qualquer um ao se sentir impróprio
não devo me perdoar?
o que sinto é uma tremenda compaixão pela fraqueza
ou isso será capacidade de ser fiel à mim mesma?
para isso acontecer fiz um caminho penoso mas muito simples
não mentir para mim foi o primeiro passo
mas não deixo de desejar estar com outro
nele visto a fantasia como se nascesse com ela
a minha pele a lavo e a perfumo
estendo a camisola de seda que vestirei
leve como o ar que respiro
no quarto escuro
é quando vejo melhor abraço a minha fantasia
passearei com ela pela madrugada afora
a de hoje é de estar com dois
sei que farão o que me dará prazer
luminescentes vibram ao meu toque

separo três taças de vinho
levanto a camisola
e os deixo tocar as minhas reentrâncias
brinco com a possibilidade de me evitarem
de meu braço se distanciar a minha mão não tocar
o sino que me acordará para o gozo
quero fluir em rios de aventuras
meus brinquedos são melhores que homens
preocupados em serem dominadores
em troca de carinhos
eu era estuprada e fingia orgasmo
quase sempre

quase sempre
respondia com beijos desencarnados
salivados em seus paus desidratados
logo queria que fossem embora
que me deixassem só mais só
do que quando me encontravam
desisti de me entregar a estranhos seres
morfologicamente machos
instintivamente monstros
preferi me tornar só minha…

Foto por alirezamani wedding team em Pexels.com