BEDA / A FACILIDADE DO FASCISMO

Mesmo depois de levar o mundo à guerra mundial, a propagação do Fascismo continua a se espalhar por todas as sociedades. Num planeta em que quase nenhum lugar está incólume de receber influência do totalitarismo digital através dos meios de comunicação,, a facilidade de um sistema simplificador em que normalmente não há reflexão sobre os assuntos costuma-se utilizar as chamadas “soluções simples”, que equaliza pela média as questões mais complexas em pauta na Sociedade. É a ditadura da simplificação que não atende as minorias, mas satisfaz os medíocres. Ouvi um filósofo dizer que o Fascismo é a falência do Abstrato e da Abstração, quando conseguimos ultrapassar o básico e atravessar os limites da simplificação, que busca padrões esquemáticos.

Muitas vezes, as soluções simples são as ideais, mas tomar qualquer atividade humana de maneira padronizada sob os auspícios do que é mais elementar, contando com a anuência daqueles que não suportam inovações ou diferenciações, elegendo modelos esquemáticos que acabam por ser impostos pelo poder vigente. No modelo democrático, busca-se o consenso, mas quando se estabelece o poder pelo uso das armas, observa-se que o poder de decidir entre a vida e a morte de segmentos inteiros de populações divididas em estamentos em que os menos aquinhoados de poder econômico, por exemplo, se tornam párias dentro do contrato social.

As raízes do Fascismo é antiga, mas com o crescimento de múltiplas influências dentro das estruturas de Poder Político que desenvolve mecanismos que impedem o crescimento da equanimidade de oportunidades de desenvolvimento positivo entre os cidadãos numa determinada localidade — País, Estado, Continente, Hemisfério — vemos crescer a violência como imposição natural do status quo. Falimos, quando isso acontece, como sociedade emancipada para além do que é padronizado, gerando estagnação intelectual e pobreza de recursos de ideias que poderiam auxiliar na melhora das relações sociais. A figura de uma parede branca bem poderia representar essa situação.

Foto por Monstera Production em Pexels.com

BEDA / Sinais*

sinais são importantes

a eles devemos ficar

atentos

caetano

               perguntado se respeitava sinais disse

claro

          são sinais

                          pergunto

por que queremos desrespeitar

                                                  o que nos sinalizam?

propaganda de cremes anunciam

serem anti-sinais

como se quiséssemos

apagar

                                               a nossa trajetória

aos meus 14

                     uma senhora disse para seu filho

no ônibus

                 deixa o moço passar

fiquei espantado

                           eu me tornara um moço

barba branca no rosto

atendentes me chamam

                                      de moço

sei que é uma maneira

                                     de afagar a vaidade

estratégia de recepção ao cliente

mas o meu espanto persiste

sou velho demais

                             para ser chamado

                                                          de moço

cabelo rareado

                         redemoinho falhado

para suavizar discrepâncias

raspo a cabeça

                         cheia de mentais

                                                     reentrâncias

reafirmo a queda inevitável

palavras caducam?

tenho evitado escrever algumas…

sempre

              e

                 nunca

tenho as considerado definitivas demais

aliás

         tenho tentado evitar também

                                                        demais

aliás

         também

                       e aliás

e sempre

               é logo mais

o nunca

              nunca mais

porque viver nos ensina que marcar

coisas como definitivas

não pertence

                      ao nosso mundo

imediatista

                   impermanente

se me contradigo aqui

é por falta de opção

                                 como não há opção

para a morte do corpo

                                    como sei que a energia

é infinita

                enquanto este universo existir…

*Poema de 2022

Foto por Eduardo Soares em Pexels.com

BEDA / Vidas*

Em minha vida, vivi muitas vidas… E morri, outras tantas vezes… E não é incomum, mesmo tento a idade que tenho, viver todas as minhas idades ao mesmo tempo. Em muitas ocasiões, eu tenho que tomar cuidado para que o homem maduro não venha a retroagir cinquenta anos e se veja desamparado diante de algumas situações, como se novas fossem. Em contrapartida, acontecimentos que me surpreenderiam pelo ineditismo assumem feições de déjà-vu, como se ouvisse um disco arranhado. Bem, esta última imagem já denuncia a minha experiência no atual formato.

Diante dessas sensações, o nome que assumo – Obdulio – carrega um traço em comum – a saudade – tanto do que passou, quanto de um futuro irrealizado. Entre o menino sorridente que brincava na praça e aquele que se vê no espelho, fotografado por um moderno aparelho de (in)comunicação, se passaram cinquenta anos pela face do homem. O corpo se modificou tantas vezes – cresceu, engordou, emagreceu, adoeceu – enfim, sofreu as intempéries físicas e mentais a que somos submetidos ao nos vestirmos de uma identidade humana.

Ainda que as alternativas não vividas prometessem múltiplas e promissoras perspectivas, eu me sinto muito bem com que se passou comigo. Seria injusto com quem compartilhou da minha vida (e comigo mesmo) que viesse a repudiar tudo o que vivi até hoje. Aprendi a estipular as minhas vivências como únicas e valorosas. O que sofri, sinto que foi para o meu bem. Contudo, o sofrimento de quem amo me é mais pesado do que se acontecesse comigo. Assim como não me sinto totalmente feliz diante das duras provas pelas quais passam tantas pessoas em minha volta, no meu bairro, na minha cidade, país e planeta. Mesmo assim, me sinto grato pelo papel que assumi como se fosse uma dádiva oferecida a mim pelo Diretor que dirige este incrível espetáculo universal no qual todos nós nos apresentamos.

*Texto de Julho de 2016

BEDA / O Mundo Mortal Dos Homens

Foto por sevde v. em Pexels.com

Homens estão matando mulheres… todos os dias. Hoje, eu ouvi no noticiário um relatório que indica que esses crimes aumentam em dias de jogos de futebol. Creio que esses casos ocorram quando o time do companheiro perdem a partida. Sem uma estrutura mental equilibrada, vivendo de desenganos em uma sociedade mutante em que os privilégios de ser um macho se tornam cada vez mais contestados, esses sujeitos resolvem que espancando ou matando as suas companheiras resolvem seus sentimentos de insignificância e frustação diante de um novo contexto das relações humanas.

Esses sujeitos costumam a se apegar a tradições em que o fato de carregarem um pênis os tornam automaticamente supremos. Costumam apelar aos “antigos costumes” que os colocavam como representantes de um deus apresentado como um pai, portanto um homem. Tenho por mim que se há um ser mais próximo da divindade, seria uma entidade com características femininas. Para esses homens aceitarem que a sociedade próspera se estabelece em base de igualdade entres homens e mulheres é difícil. Imagino que sonham em restabelecer um reinado em que estipulem normas em que sua natural superioridade não sejam refutadas.

Enquanto isso, matam quando contrariados. Ser homem nestes tempos não tem sido motivo de orgulho… bem ao contrário.

17 / 10 / 2025 / Os Olhos Dela

como se entrasse num labirinto
dei de me perder nos olhos dela
parece que me tragavam para dentro de um mundo novo
perdido em antigas tramas de atração fatal
embarcado em nau amarrado ao mastro central
ouvia como que um canto de sereia em calmo mar
da boca que movia os lábios como se fossem ondas
de luz das águas profundas de seu olhar
meu coração batia como se montado em corcovo
de indomável cavalo selvagem em campos de pleno sol
bastava ver bater os cílios de seus olhos em miragem de morte
como se buscasse sugar a minha seiva de depauperada árvore
que tomba como se tivesse cortados caule e ramagem
forças naturais que se avultam em poder e vingança
ao mundo que tenta destruir a vida que palpita
no meu peito de homem velho
parte daqueles que sangram o sangue de escuro vermelho
marcando o chão da estrada na caminhada da terra de perdido brilho…

Foto por Ennie Horvath em Pexels.com