Transformação

Transformação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.

Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman –
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…

BEDA / Dos Perigos De Viver

Cajueiro
Cajueiro

Em canção dos Anos 70, que conheci na voz do imenso Wilson Simonal, ouvia: “Papai, mamãe não quer que eu suba no cajueiro. Ela falou se subir eu caio da galha do cajueiro…” (Galha do Cajueiro). Subir em árvores era um perigo, com certeza, mas nenhum garoto deixava de abraçar troncos e agarrar galhos para se posicionarem mais alto e melhor para pegar uma fruta. Fazia parte da formação do repertório de movimentos que a liberdade daqueles dias permitia. Tempos de caminhos desobstruídos e campos abertos.

Jogar bola na rua ou em campos de várzea era programa obrigatório, não no sentido de obrigação, mas de prazer. Antes ou depois da escola (e no intervalo das aulas), os meninos buscavam o perigo de ralar o joelho, lanhar a canela, bater a cabeça. Nossos impetuosos corações nos pediam que agíssemos como se não houvesse amanhã. No máximo, acalentávamos o sonho de nos tornarmos jogadores de futebol.

Ao crescermos, acrescentamos obrigações nem tão prazerosas. Porém, na mesma canção, há a seguinte passagem: “Me tira, mamãe, me tira, me tira deste castigo. Eu subo naquela galha. Não corro nenhum perigo. Eu quero tirar caju. Eu vendo e ganho dinheiro. Me deixa, mamãe, subir, deixa subir na galha do cajueiro!”. O garoto tem consciência que o dinheiro é a maneira pela qual intermediávamos o desejo pelo objeto e a satisfação do desejo.

Não passava pela cabeça que haveria outro modo em conseguir o que se queria, por maior que fosse a privação pela qual passássemos. Em algum momento, em nosso percurso como País, nos desviamos de nossos propósitos de como obter algum bem. Se pudéssemos adentrar na mente de algum garoto desassistido, certamente a facilidade da vida criminosa será muito mais atraente do que trabalhar pesado para conseguir realizar o sonho imediato de conseguir o tênis da moda ou o celular “da hora”.

Ontem, um rapaz de 20 anos foi morto por estar desatento aos perigos de viver nos dias de hoje. Usava fones de ouvido, escutava as músicas de sua preferência, se divertia após deixar a jornada de trabalho. Era noite, estava no ponto de ônibus. Iria para a casa. Não chegou. Dois rapazes, provavelmente da mesma faixa social, montados em uma moto, o mataram para obter o que conseguiu com seu esforço.

Menino, suba no cajueiro! Viva o perigo de viver livremente! Venda caju! Consiga com o seu trabalho e abnegação os recursos para crescer, namorar, casar, constituir família – viver! Que o presente do País não o impeça de sonhar…

https://m.youtube.com/watch?time_continue=35&v=lJOVBAjRvt4

O Vício E Eu

 

Não sou fumante, mas posso falar de cátedra sobre o vício de fumar, pois a minha mãe fumou até morrer. Ela começou tarde, por volta dos 36 anos, quando se encontrava exilada conosco, meus irmãos pequenos e eu, na Argentina. Sentia falta do marido, que havia voltado para o Brasil e do resto da família, muito apegada que era aos irmãos. Nunca mais parou. E, dessa forma, começou a minha saga como fumante passivo e “traficante”, já que era eu quem, no começo, comprava os maços de “Continental” sem filtro para ela. Em determinado dia, a revolução se deu. Ousadamente, para os meus doze anos, me recusei a ir comprar veneno para quem amava, resolução que mantive dali adiante. Isso não impediu que Dona Madalena continuasse com o vício.

 

Quando vieram as netas, pedi a ela que não fumasse diante das meninas e acho que cumpria a solicitação, não sem muito esforço, pois as amava muito. Por ocasião do aniversário de 1 ano da minha caçula, ela saiu da festa direto para o hospital, em decorrência de insuficiência respiratória. Depois desse susto, aparentemente, parou de fumar, pelo menos por algum tempo. O seu aspecto físico e mental melhorou a olhos vistos. No entanto, soubemos depois, voltou a fumar escondida de todos, com a conivência da auxiliar doméstica, sua cúmplice e parceira no fumo. Ao menos, parecia ter diminuído o consumo, já que não sentíamos tanto o típico odor de nicotina no seu vasto cabelo. Ela escondia os cigarros com tanta maestria que quase nunca os encontrávamos. Era danada a minha velha mãe…

 

Um dia suas condições gerais não puderam ser revertidas, principalmente porque os pulmões não suportaram suprir a demanda extra de oxigênio exigida. Nessa época, eu era bem mais condescendente com o seu vício, não por aceitá-lo, mas por compreendê-lo. Sabia que o apego ao cigarro, prioritariamente na mulher, é muito mais difícil de ser revertido, por sua própria constituição fisiológica. E também porque, três anos antes de seu passamento, eu mesmo quase morri por causa do meu próprio vício – por açúcar – o que me levou a desenvolver Diabetes, a ponto de chegar a um índice de 715 mg/dl de glicemia e consequente crise.

 

Fiquei internado por uma semana, e saí do hospital disposto a mudar radicalmente a conduta, entendendo melhor o quanto o vício desrespeita nosso conhecimento daquilo que nos faz mal. Ao contrário, fazemos o perigoso “jogo do auto”. Primeiro, a auto enganação, propagando que podemos parar quando quisermos. Depois, passamos a desculpar as nossas deficiências com a autoindulgência, encontrando sempre uma justificativa e jogando a responsabilidade nos outros ou nas circunstâncias. Logo, chega a fase da autocomiseração por nossa lamentável condição de viciados e, finalmente, revoltados com os inimigos que nos apontam o vício, chegamos à autossuficiência social. Não nos importamos mais com a opinião dos que nos cercam e atacamos quem “nos ataca” ou ataca o nosso motivo propulsor do  prazer. É muito comum um fumante se sentir extremamente ofendido quando se fala do malefício do cigarro. É como se estivessem falando mal da pessoa amada.

 

E, então, de uma hora para outra, somos colocados diante de nossa mortalidade. Alguns nem sentem tanto medo de morrer, mas percebem o amor que algumas pessoas lhe dedicam e, por elas, decidem: eu vou parar! Um pouco antes de eu chegar à fase mais aguda da doença que desenvolvi e motivou a minha internação, no final de outubro de 2007, morreu Paulo Autran, no dia 12. Eu ficara, então, impressionado com o relato de Karin Rodrigues, então esposa do grandíssimo ator, quando disse que o último pedido dele foi fumar um cigarro, o mesmo que ocasionou o desenvolvimento do câncer que o vitimou. Pensei comigo mesmo que, como ele, eu deveria parar de tomar refrigerantes, comer doces, de acrescentar açúcar ao achocolatados que consumia, entre outros atentados ao meu pâncreas. Talvez já estivesse sentindo o que poderia ocorrer, caso continuasse agindo da maneira que agia, quase como se quisesse me matar. Rapidamente, os sintomas da hiperglicemia se fizeram presentes – diminuição da acuidade visual, a boca extremamente seca, o cansaço, a micção constante e a extrema irritabilidade, entre outros sintomas.

 

Minha esposa chegou a me dizer, posteriormente, que não estava mais aguentando ficar ao meu lado. Pior, anunciou para minha mãe que se separaria de mim caso eu continuasse a agir da maneira que estava agindo, já que aquele comportamento parecia revelar um permanente traço de personalidade. Na verdade, estava passando por um processo chamado de Cetoacidose Diabética, que proporciona tal desequilíbrio metabólico, cuja a exacerbada irritabilidade é uma das funestas consequências. Aliás, a participação da Tânia nesse momento foi decisiva pois ela percebeu que os sintomas se enquadravam no quadro de Diabetes, a tempo de me levar para o hospital e salvar a minha vida.

 

Anos depois, ao trabalhar num festejo de “bodas de vinho” (70 anos de casamento), encontrei uma pessoa com o sobrenome Autran. Perguntei se era parente do grande ator, que ela confirmou. Durante a conversa tomei coragem de perguntar sobre a circunstância incrível relacionada à sua morte que ainda reverberava em mim devido à sincronicidade dos fatos. Ela abertamente relatou que o câncer em Paulo Autran estava tão avançado que o diagnóstico estava fechado. Não havia mais o que fazer. Ele sabia que iria morrer a qualquer momento e o seu último desejo foi o de morrer unido ao seu companheiro mais íntimo – o cigarro…

Redemoinhos, Rodamoinhos, Remoinhos, Moinhos

Careca

Hoje, perdi um grande amor – os escritores são pródigos em perder histórias e amores – todos os dias. Ao passar a mão pela cabeça desnudada, com os poucos cabelos quase ao rés (máquina 2), dia de calor intenso, sinto o suor a umedecer a pele da palma e lembro dos redemoinhos da vasta cabeleira que portei durante décadas. Desde garoto, fui adepto dos fios longos, ainda que não os penteasse, por questão de princípio. Fui perdendo os cabelos ao longo do tempo, influência direta da ascendência calva de meu pai. Ultimamente, como foco de resistência, tenho adotado a barba um tanto mais pronunciada, quase sempre desgrenhada.

Meus redemoinhos ficavam (ficam) em três pontos, no cimo, e atrapalhavam o penteado mais comportado. Segui suas desorientações. Certa ocasião, ouvi alguém chamá-los de remoinhos. Procurei saber e descobri que também é uma forma de nomear essas zonas tempestuosas em nossas cabeças. Eu os imaginava como sorvedouros de ideias. Seria uma das possíveis explicações para eu viver a criar histórias vindas do nada ou inspiradas por palavras soltas ou circunstâncias as mais simples imagináveis – temas de amor, vida e morte.

O meu cérebro, logo ali, abaixo dos pelos, se transformava em moinho de ventos e pensamentos, gerando viveres e sonhos – esfarelados, amalgamados, reconstruídos – e jogados no papel. Certa ocasião, decidi parar de aceitar que meus rodamoinhos pessoais deixassem de tragar histórias. Quis criar vivências reais, com pessoas reais. O sofrimento igualmente tornou-se real – não fingido – doloroso e cru, ventos contrários. Em contrapartida, o amor ganhou solidez e riqueza – ventos favoráveis. A caneta de lado, quase não mais serviu ao propósito de transformar tudo em ficção. Cria que isso balizaria minha existência. No entanto, quase morri…

Porque somente a realidade ou pelo menos a realidade que nos impõem, é prerrogativa da existência. Como no Cosmos, a matéria escura – algo supostamente ausente – tem o condão de explicar a união da matéria mensurável. Precisamos – eu preciso – sonhar a vida. Escrever gera esse movimento. Apesar de meus redemoinhos estarem invisíveis, pelo efeito da calvície, ainda têm o poder de absorver e regurgitar energia. Metaforicamente, ainda balanço a cabeleira ao vento e absorvo, com cada vez maior paixão, a vitalidade de existir.

Pastel de Vento

Pastel

Terça-feira, dia de feira, duas ruas acima da minha, no vale do Jardim Santa Cruz. Antes de caminhar pelas barracas enfeitadas pelas cores naturais dos vegetais, passo na banca de pasteis e encomendo para dali a vinte minutos, os sabores do dia.
– Tem de palmito?
– Não! Acabou… tem de bacalhau…
Achei estranho sugerir um peixe para quem pede um derivado vegetal. Brinquei com a sugestão, mas aceitei. Lembrei que em casa gostam, de maneira inversamente proporcional ao meu gosto, de bacalhau. Pedi mais um de carne e outro de queijo.

Os pastéis do Nelson, eu o considerava um dos melhores de São Paulo, acostumado que estava a frequentar diversas regiões da cidade, quando a trabalho e sempre a visitar feiras livres. Nos últimos tempos, senti que perdera certo toque que o diferenciava dos demais. Me ocorreu de perguntar sobre o dono da barraca, de origem nipônica, que não via há já algum tempo.
– O Nelson?… – A mocinha olhou para mim com olhar de espanto e completou – O Nelson morreu… em março…
– Como assim, em março? Se outro dia mesmo estava a conversar com ele sobre minha mãe… – Estava doente? – Perguntei, ainda chocado…
– Não! Ele caiu do telhado…

Ainda incrédulo, caminhei o asfalto da rua transformada em mercado de formato milenar, que deu origem ao nome de cinco dias da semana, em português. Precisava apenas de algumas frutas e poucos legumes. Mesmo assim, percorri toda a extensão, somente para cumprir o ritual.

Na volta, peguei os pastéis e parei logo adiante junto à barraca de caldo de cana, pertencente a outro “japonês”, para comprar uma garrafa de 500 ml. Puxei assunto e conversamos sobre o Nelson, vizinho de ponto.
– Foi uma coisa boba. O Nelson subiu no telhado para verificar a boia da caixa d’água. Escorregou e caiu. Ficou três meses na UTI, até falecer em março… Puro, com limão, maracujá ou abacaxi?
– Com limão, por favor! – Após fazer a mistura, ele me deu um gole extra em copo separado. Paguei, agradeci a informação e o “choro”.

Voltei para a casa conjecturando sobre o atropelo dos dias. Não acreditava que já se tivesse passado quase um ano desde que vira o Nelson pela última vez. Há tantos anos frequentando essa feira, vários antes do passamento de minha mãe, a qual Nelson adorava. Sete, desde então. Em memória de Dona Madalena, fazia questão de me dar um pastel de brinde. Às vezes, um saquinho de pastéis de vento, que as minhas filhas sempre pediam. Saborosos, ainda que fossem vazios. Como a vida, feita de vento…