03 / 02 / 2025 / Nota De Esclarecimento Fúnebre*

Em 02 de fevereiro de 2018*, escrevi:

“Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim o meu pai, quase um homônimo — Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar para um romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Um abraço forte em todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.

17 / 01 / 2025 / Tarde-Noite

É tarde, mas tão tarde…
Porém, ainda não é noite
Ainda não sinto o açoite
Da escuridão que me parte…
Mais algumas horas virá a luz
Cortante como a certeza da morte
Inescrupulosa como a sedução do amor
Desejos de toda a sorte
Segredos de nenhuma importância
A não ser o mais evidente temor da dor…

O Falso E O Real

“O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” (Carlos Drummond de Andrade)

Para mim, escrever sobre o que é real e não é, é muito fácil. Tudo é real, incluindo a falsidade e o que é falso. Aliás, dadas as circunstâncias, o status do que é falseado ganha a projeção de realidade incontestável. Com o advento da Inteligência Artificial, nos acostumaremos a crer em discursos de gente morta. O menino do Sexto Sentido nos diz que vê gente morta olhando dentro de nossos olhos. Só saberemos que não somos nós, os mortos, se a nossa pele arrepiar.

A pele não mente, graças a Deus! Quando estamos com alguém, o corpo se assanha com as suas respostas que reverberam enquanto decoramos a superfície do corpo que nos antepõe pelo toque de nossas mãos. A depender dos seus movimentos, entradas e saídas, bocas, línguas, dedos, palavras ditas, entrecortadas e caladas por beijos que respondem sem duvidar. Eu elejo esta última ação como o objeto real, palpável, inebriante e permanente sobre todas as outras coisas — O Beijo. Ah! E a Morte

Foto por Pavel Danilyuk em Pexels.com

Um Pai*

Com a chegada de datas marcadas como importantes — aniversário, por exemplo — passamos por reflexões acerca da passagem do Tempo, lembranças fugidias ou outras, mais palpáveis, porém de certa maneira dolorosas. Em 2014*, escrevi:

“Por poucos anos, tive uma convivência normal com o meu pai. Ele era (é) um homem elegante, com tez amorenada e os olhos puxados, devido a sua ascendência indígena. Eu me pareço mais com o pai dele, o ‘Seu’ Eustáquio Humberto, mas não são poucas as vezes que o vejo em mim, no espelho ou fotografias, e o ouço reproduzido em minha voz. Quando houve a cisão definitiva entre ele e minha mãe, que fisicamente já passou, deixei igualmente de tê-lo mais assiduamente por perto. O Senhor Ortega ainda está presente em meu tempo e espaço e o homenageio, mesmo que de modo torto, mostrando que, um dia, formamos uma família como pai e filho”.

Post Scriptum: Não o imagino me segurando em seu colo muito tempo depois da foto. Ele não afeito a certas formalidades e certamente não se mostrava carinhoso. Na minha memória, no entanto, ele era o meu herói. Essas contradições se pacificaram na tremenda objeção ao seu comportamento que acabei por usá-lo como a um exemplo não ser seguido. O meu pai faleceu há alguns anos… cinco anos, talvez. Não foi marcante como deveria, a não ser pelo fato de que, prestes a entregar um projeto para a Scenarium Livros ArtesanaisRUA 2 — sequei. Posteriormente, consegui desenvolver o livro de contos curtos, mas o tema recorrente foi a morte.

Por Cem*

Apesar de saber que a vida é feita de porcentagens — somos 70% água, 10% meia calabresa, meia atum, mais ou menos e, por aí, vai — hoje, eu me irritei quando alguém citou, sobre determinada situação, a porcentagem de 99,9% como provável.

Por algum motivo obscuro para mim, como já que proclamei em certa ocasião, sou um digno representante do “Talvez“, acordei a querer ter certezas. Queria para o resto do dia que tudo se definisse 100%. Queria a absoluta convicção, sem a intermediação de advogados a citar contestações em latim: data venia

Queria a fé dos quem erram com perfeição:

“São bandidos, sim!”

“São pessoas corretas, com certeza!”

“Não é amor, é apenas paixão!”

“Droga não faz bem, ainda que recreativa!”

“A minha vida é uma droga!”

“Sou feliz prá caraleo!”

“Você é uma besta, mas eu o amo!”

“Eu adoro arroz e feijão, tanto quanto odeio bacalhau!”

Não queria cores intermediárias nem o cinza, mas o preto e o branco perfeitos. Queria saber para onde estou indo e para onde vou. Queria saber quem sou eu. Queria amar e o amor sem dúvidas. Queria ter a certeza de que todos morremos para as outras certezas da vida… pelo menos, por hoje.

*Texto de 2017