BEDA / O Sorriso

caminhando pela cidade
ia ao seu encontro pela primeira vez
subi os andares que me conduziriam até você
bati na porta você atendeu com um sorriso
parecia que seu corpo todo sorria
quando a abraceil
nos beijamos a desejei no instante que a toquei
me ofereceu café
pãezinhos quentes
frutas
adiamos retirar as roupas
enquanto conversávamos sobre tudo
e nada e ainda assim tudo tinha sentido
poucas palavras gestos em direção
aos corpos beijos em que línguas caladas
expressavam a linguagem do amor
nos entrelaçamos braços pernas mão dedos
em libertação de movimentos
permanecemos assim por momentos
eternos escassos
permaneci na cama enquanto se levantava
foi à cozinha nua enquanto preparava uma bebida
a vi de costas bela quadril majestoso
me aproximei beijei seu pescoço
o menino rijo desejoso
a menina à espera do reencontro
úmida me aceitou inteiro quente
eloquente
em minhas mudanças de posição
foi um momento que ainda reverbera em minha lembrança…

Foto por Rodrigo Santos em Pexels.com

27 / 11 / 2025 / Blogvember / Decomponde-Se A Cada Voo, A Cada Passo…

… me sinto como a abelha que perdida tentava encontrar o rumo
até perder as forças e perecer registrei a cessação de movimentos e bater de asas inúteis
para movê-la de onde permaneceu logo me identifiquei com ela
eu mesmo meio que perdido meio que se decompondo como se cada fase
da minha vida parecesse desconectada da minha história íntima
não me reconheço desvirtuado desestimulado a continuar caminhando caminhante
ficar parado ajuda?
não…
reflito que talvez fosse melhor subir a cume mais alto e saltar
quem sabe as minhas asas voltassem a bater…

Participação: Lunna Guedes

11 / 01 / 2025 / Aranha Pega-Moscas

Fazia algum tempo que eu não via uma aranha pega-moscas. Esta, estava no banheiro externo. Quando garoto, pelas paredes de cimento cru do meu quarto, encontrava algumas aranhas dessa espécie, fascinado com a inteligência de seus movimentos, sempre atenta aos meus. Lá, eu não via medo, mas atenção. Apenas mais recentemente, descobri que ela tem oito olhos, sendo que o par frontal é o mais desenvolvido. Isso com certeza a ajuda a ter controle sobre possíveis inimigos. Qualquer perigo mais premente, o seu salto gigantesco (20 vezes o seu próprio tamanho), a coloca longe de ser aprisionada ou morta. Aliás, também é o modo que usa para alcançar moscas e mosquitos. Muitas vezes as observava esperar o momento exato para saltar sobre a presa, apreciando cada movimento, como se fizesse de distraída. Passadas décadas desde que olhava esses seres especiais como iguais, fico feliz de não ter perdido a minha admiração por elas.

BEDA / Eu-Falo

há momentos em que me desconfiguro
como ser pensante
passo a ser um animal que quer não ser
apenas agarrar parte de mim
me tornar tornado pelo toque
me satisfazer por inteiro em frêmito arrepio
arrancar galhos folhas troncos raízes árvores bosque
sem identidade pedaço de carne
seios em pele recobertos
corpo esponjoso antros cavernosos lado a lado
rios a se preencherem de sangue
vou por uma única mão
em direção ao prazer solo chão
sentido centro-periferia
todas as forças concentradas
fantasio a outra pessoa em intenção
ausência presente feito saudade dor
desejo de auto compensação
de proximidade consciência
da imensa distância entre mim e o sim
permaneço em êxtase suspenso
resisto à chegada do fim
pressão entre os dedos me agarro
em respiração profunda
permaneço corro
é quando por ele eu-falo
sou totalmente certeza  vigor anima
em movimentos cada vez mais rápidos
fibras retesadas veias intumescidas talo
rigidez da madeira troncos separados
imagino invadir a fenda do tempo-templo macio escuro
com a delicadeza de quem morre
tão livre e brevemente
feito vida e voo de borboleta
expulsando pelos canais condutores lágrimas
de quem chora um choro solitário…

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com

Texto participante do BEDA: Blog Every Day August

Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Bob F / Lunna Guedes / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

“A” O Pipa

Uma pipa ficou pendurada na beira do telhado da varanda da minha casa. Estava inteira, mas com o tempo, rasgou aqui e ali com o movimento do vento ocasional. Vê-la presa, qual um pássaro que se debatia amarrado a uma armadilha, fez com me apiedasse e a retirasse de onde estava. Não era um artefato de beleza especial e decidi destruí-lo. Cometi o erro de virá-lo e perceber os detalhes de sua confecção – as varetas bem-posicionadas, as linhas de costura as alinhando devidamente, o papel de seda delicadamente colado a elas. Quem fez a pipa, além da habilidade, supus que tenha juntado sua energia às forças antigravitacionais da imaginação que antecipou vê-la singrar o mar dos céus – uma obra feita para voar.

Isso me inspirou um poema que colocaria mais ou menos nesses termos, mas o voo da pipa mudou a sua trajetória quando publiquei a foto.  Uma amiga me questionou se sabia dos últimos acontecimentos referentes a acidentes graves provocados por pipas. Na verdade, não são as pipas que devam ser condenadas, mas quem as utilizam com linhas besuntadas de cerol – uma mistura cortante de pó de vidro e cola de madeira – para colocá-las ao alto.

A intenção de quem faz isso é, supostamente, se defender de outras pipas igualmente preparadas para cortar as linhas adversárias.  De diversão inocente, a atividade inventada pelos chineses há milênios de anos se transformou em luta aérea. São empinados pipas como se fossem aviões da Segunda Guerra em movimentos ousados – mergulhos, rasantes, embicadas – para defender os seus territórios sobre os Oceanos de ruas.

Tudo bem, se essas pipas não descessem ao nível da terra dos mortais e provocassem acidentes fatais ao cortar pescoços de motociclistas, ciclistas e pedestres. Nos “menos” graves, há casos de mutilação de dedos. Além de haver relatos de acidentes com aeronaves e paraquedistas. Tudo é muito triste, se considerarmos que o espírito de competição engendrado pelo Sistema sob o qual vivemos não estimulasse aos homenzinhos “ganharem” o espaço azul como únicos soberanos.

Não foi por outro motivo que nas oportunidades que surgiram de empinar pipas com as minhas filhas, evitei. Imaginava que como não me defenderia usando “cortante”, a cada uma que colocasse no alto, ocorreria uma perda para a distância, lenta e decepcionante. Outra coisa sobre o qual Farfalla me chamou a atenção, é que chamava o objeto em discussão pelo artigo masculino – “o” pipa.  Conjecturei que talvez fosse uma imposição inconsciente do Patriarcado recebida na meninice sobre algo de tamanho poder – voar para além do corpo.